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Dentro e fora da Alumar: denúncias apontam exposição química de trabalhadores e contaminação no entorno

Área industrial da Alumar, em São Luís: sindicato denuncia exposição de trabalhadores a agentes químicos, enquanto o complexo também é alvo de questionamentos sobre impactos ambientais no entorno. (Imagem: Reprodução TV Mirante)

Trabalhadores da Alumar estariam expostos a soda cáustica, coque, piche, alumina e outros agentes presentes no processo industrial, segundo denúncia do Sindicato dos Metalúrgicos do Maranhão (Sindmetal/MA). O complexo industrial já é alvo de um amplo conjunto de questionamentos sobre os impactos ambientais da produção de alumina e alumínio na Ilha de São Luís.

Relatórios, pesquisas e dados de monitoramento já apontaram problemas relacionados à qualidade do ar, resíduos industriais e riscos para comunidades que vivem próximas ao complexo. Dentro dos muros da fábrica, o sindicato afirma que os impactos também atingem os trabalhadores: a entidade acompanha casos de adoecimento e afastamentos e acusa a empresa de deixar empregados sem assistência adequada quando precisam recorrer à Previdência.

Saúde dos trabalhadores

“Esse também é um outro problema gravíssimo”, afirmou o presidente do Sindmetal, Gerson Silva, em entrevista ao programa Dedo de Prosa. Segundo ele, há registros de acidentes e contaminações envolvendo soda cáustica, coque, piche e alumina no ambiente industrial da Alumar.

[Veja entrevista na íntegra ao final desta matéria.]

O dirigente relatou ainda episódios de vazamento de alumina dentro da fábrica. “Quando tem um vazamento de um mangote, aquilo fica tipo uma neblina em toda a fábrica”, afirmou. Segundo Gerson, o sindicato já custeou exames realizados em São Paulo para trabalhadores adoecidos e há casos em que empregados conseguiram indenizações na Justiça do Trabalho relacionadas à exposição a agentes químicos, físicos e biológicos.

Para o Sindmetal, a situação se torna ainda mais grave quando o trabalhador adoece e precisa se afastar. “A Alumar usa o trabalhador como se fosse uma laranja. Ela suga, suga, suga. Quando ele adoece, vai para a Previdência, ela esquece o trabalhador”, declarou Gerson. A entidade afirma que vem ampliando o acompanhamento de empregados diretos e terceirizados afastados por doenças ou acidentes de trabalho.

O presidente do sindicato citou ainda o caso de um trabalhador que, segundo seu relato, mantém uma estrutura semelhante a uma semi-UTI em casa e necessita de um equipamento para auxiliar a respiração, avaliado em cerca de R$ 21 mil. De acordo com Gerson, o sindicato procurou a empresa para solicitar apoio, mas o pedido foi negado. A relação entre o quadro clínico do trabalhador e a exposição no ambiente industrial é apresentada pelo sindicato e necessita de comprovação médica.

Impactos ambientais

As denúncias feitas pelos metalúrgicos aparecem em um contexto mais amplo de questionamentos sobre os efeitos da produção de alumina e alumínio em São Luís. Relatório da organização norte-americana Transparentem sobre a cadeia da bauxita, alumina e alumínio no Brasil cita repetidamente o Consórcio Alumar e reúne relatos de comunidades sobre poluição do ar e da água, resíduos tóxicos, perda de territórios e falhas no diálogo com populações afetadas.

A investigação ouviu, entre janeiro e julho de 2025, representantes de 40 comunidades próximas a operações ligadas à produção de alumínio na Amazônia, além de pesquisadores, integrantes da sociedade civil e compradores internacionais. Entre os relatos relacionados à Alumar estão poeira sobre plantações e residências, preocupação com doenças respiratórias e temor diante de um “pó branco” encontrado nas proximidades das operações industriais.

O relatório também revelou um vazamento de material cáustico ocorrido em 2024 na planta da Alumar. Segundo informações fornecidas pela própria empresa à organização, o episódio foi comunicado às autoridades e resultou em medidas de remediação ambiental. O advogado ambientalista Guilherme Zagallo, ouvido anteriormente pela Agência Tambor, criticou a falta de divulgação pública sobre a dimensão do vazamento e seus possíveis impactos para as comunidades próximas.

Poluição do ar

Dados públicos também registraram episódios críticos de poluição na região Itaqui-Bacanga. Em 14 de maio de 2026, a rede de monitoramento do Governo do Maranhão apontou concentração de dióxido de enxofre superior a 800 microgramas por metro cúbico no Anjo da Guarda, índice classificado como “péssimo”. Coqueiro e Vila Sarney apresentaram qualidade do ar considerada “ruim”.

A região concentra diferentes grandes empreendimentos industriais, entre eles Alumar, Eneva e Vale. Por isso, os registros de qualidade do ar não permitem atribuir isoladamente à Alumar cada episódio de poluição. Pesquisadores e movimentos ambientais, porém, vêm cobrando maior transparência sobre as emissões individuais das empresas e maior fiscalização dos órgãos públicos.

Estudos apresentados por pesquisadores da Universidade Federal do Maranhão, com base em dados do Sistema Único de Saúde, já apontaram mudanças no perfil das doenças respiratórias em São Luís. Outras pesquisas desenvolvidas pela UFMA e pela Fundação Oswaldo Cruz investigam a presença de metais pesados em áreas próximas aos complexos industriais e em espécies de pescado da Baía de São Marcos.

Novos dados

O Sindmetal informou que prepara uma pesquisa para avaliar a situação atual da saúde dos trabalhadores da categoria. O levantamento, segundo Gerson, deve ser divulgado em novembro e pretende reunir informações sobre empregados em atividade e afastados. Para o sindicato, os dados poderão ajudar a dimensionar um problema que hoje aparece por meio de relatos individuais, exames, processos trabalhistas e casos acompanhados pela entidade.

As denúncias dos trabalhadores se somam, portanto, a um histórico de questionamentos ambientais envolvendo o complexo industrial. Dentro e fora da fábrica, permanece a cobrança por maior transparência sobre exposição a agentes químicos, emissões, acidentes, adoecimentos e medidas de prevenção e reparação.

O outro lado

Segue resposta da Alumar na íntegra:

A Alumar reconhece e respeita o papel do Sindmetal/MA na representação dos trabalhadores e mantém diálogo permanente com a entidade sobre temas relacionados ao ambiente de trabalho. As questões mencionadas pelo sindicato vinham sendo tratadas nos canais institucionais apropriados, e vem sendo tratadas agora na mediação conduzida pelo Ministério Público do Trabalho no Maranhão (MPT-MA), da qual a empresa participa de maneira aberta e colaborativa. A Alumar reafirma seu compromisso com a promoção de um ambiente de trabalho seguro, saudável e respeitoso, pautado pelo diálogo, pela escuta e pela melhoria contínua de suas práticas. Por respeito ao processo de mediação em andamento, a empresa não comentará detalhes específicos das discussões neste momento.

[Veja entrevista de Gerson Silva, presidente do Sindmetal, ao programa Dedo de Prosa.]

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