O Consórcio Alumar é citado cerca de 120 vezes no relatório de investigação dos impactos da cadeia da bauxita-alumina-alumínio no Brasil, realizado pela organização norte-americana Transparentem. (Imagem: Acervo Rede) A produção de alumínio na Amazônia brasileira, apontada como estratégica para a chamada transição energética verde, tem sido acompanhada por denúncias de violações de direitos humanos, contaminação ambiental e adoecimento de comunidades tradicionais.
Em relatório, a organização norte-americana Transparentem cita cerca de 120 vezes o Consórcio Alumar na investigação dos impactos da cadeia da bauxita-alumina-alumínio no Brasil. O documento reúne relatos sobre poluição do ar e da água, insegurança em áreas de resíduos tóxicos, perda de territórios e falhas no diálogo com comunidades afetadas.
“Essa transição energética corre o risco de resolver uma crise enquanto agrava outra”, afirmou o advogado Guilherme Zagallo em entrevista ao programa Dedo de Prosa. Segundo ele, o relatório reforça denúncias históricas já feitas por moradores, pesquisadores e organizações sociais sobre os impactos do complexo industrial instalado há mais de quatro décadas na Ilha de São Luís.
[Veja na íntegra a entrevista ao final desta matéria.]
O custo humano do alumínio “verde”
A investigação da Transparentem ouviu, entre janeiro e julho de 2025, 59 representantes de 40 comunidades próximas a operações ligadas à produção de alumínio na Amazônia. O estudo também entrevistou pesquisadores, membros da sociedade civil e compradores internacionais ligados à cadeia mineral brasileira. As instalações analisadas incluem a refinaria da Alumar, em São Luís, além de minas e refinarias no Pará.
Entre as denúncias relacionadas à Alumar estão relatos de poeira sobre plantações e residências, preocupação com doenças respiratórias e casos de câncer, além da percepção de abandono por parte das comunidades vizinhas. O relatório menciona ainda o temor de moradores em relação a um “pó branco” encontrado em áreas próximas às operações industriais, associado por entrevistados à produção de alumina.
Poluição, doenças e silêncio institucional
Durante a entrevista, Zagallo destacou que a cadeia do alumínio é altamente poluente e envolve não apenas o uso de energia elétrica, mas também a queima anual de centenas de milhares de toneladas de carvão mineral e óleo combustível. Segundo ele, a produção gera ainda grandes volumes de lama vermelha, resíduo tóxico acumulado em barragens.
“Hoje já existem mais de 52 milhões de toneladas de lama vermelha depositadas em São Luís. É um passivo ambiental que continuará impactando a cidade por décadas”, afirmou.
O relatório também afirma que a empresa teria deixado de monitorar e divulgar emissões de monóxido de carbono e óxidos de nitrogênio desde os anos 1990, em desacordo com a legislação brasileira.
Além disso, menciona ausência de monitoramento adequado sobre metais pesados. Em resposta enviada à Transparentem, a Alcoa Corporation declarou que a Alumar opera sob “rigorosos protocolos de licenciamento e monitoramento ambiental”, acompanhados por órgãos estaduais.
O vazamento que não chegou ao público
Outro ponto considerado grave pelo advogado foi a revelação de um vazamento de material cáustico ocorrido em 2024 na planta da Alumar. Segundo o relatório, a própria empresa informou que o episódio foi comunicado às autoridades e motivou ações de remediação ambiental.
Zagallo afirmou, porém, que a ocorrência nunca havia sido divulgada publicamente à população de São Luís. “As comunidades não foram alertadas. Nós não sabemos qual foi a dimensão do vazamento, nem quais impactos ele causou”, declarou.
Ao comentar os impactos sobre a saúde pública, o advogado citou pesquisas acadêmicas e dados do SUS que apontariam crescimento de doenças respiratórias e câncer acima da média nacional em São Luís. Ele também mencionou estudos sobre contaminação de peixes por mercúrio na Baía de São Marcos. “Chegamos ao ponto de pesquisadores recomendarem restrição no consumo de pescada amarela. Isso mostra que o problema ultrapassou as áreas vizinhas da empresa e passou a atingir toda a cidade”, afirmou.
A Ilha de São Luís sob pressão ambiental
O relatório da Transparentem recomenda que o Governo do Maranhão amplie o controle ambiental sobre as empresas do setor e exija verificação independente do monitoramento da qualidade do ar e da água como condição para renovação das licenças ambientais.
Para Zagallo, o documento pode pressionar investidores e compradores internacionais a reverem suas relações com empresas envolvidas em denúncias ambientais e sociais. “Nós não estamos defendendo o fim das operações. Mas é preciso uma repactuação. A empresa precisa operar dentro da lei e reparar os danos causados às comunidades”, disse.
O outro lado
A Agência Tambor procurou a Alumar para se manifestar sobre as denúncias apresentadas no relatório e sobre os questionamentos levantados durante a conversa, até o momento da divulgação desta matéria não tivemos resposta.
Assim que a empresa se manifestar, esta matéria será atualizada.
[Veja a entrevista o advogado do Movimento em defesa da Ilha, Guilherme Zagallo, ao programa Dedo de Prosa.]