Levantamento da organização internacional Mighty Earth aponta que parte da carne comercializada pela rede tem origem em áreas desmatadas ou em cadeias ligadas ao trabalho análogo à escravidão. (Imagem: Acervo Rede) O Grupo Mateus acumula novos questionamentos envolvendo sua atuação ambiental e trabalhista.
Depois das denúncias sobre as condições oferecidas aos seus trabalhadores, incluindo o pagamento de um auxílio-alimentação inferior a R$ 4 por dia, e da retirada de árvores centenárias durante a implantação de uma unidade da rede em São Luís, um relatório da organização internacional Mighty Earth aponta que parte da carne comercializada pelo grupo está ligada a uma cadeia de fornecimento associada ao desmatamento e a casos de trabalho análogo à escravidão.
Terceira maior rede de supermercados do país, com mais de 270 lojas distribuídas por 110 cidades de dez estados das regiões Norte e Nordeste, o Grupo Mateus comercializa carne proveniente de áreas associadas ao desmatamento, sem origem definida ou ligadas a casos de trabalho análogo à escravidão, segundo o relatório Grupo Mateus – Por trás das prateleiras, elaborado pela organização ambientalista Mighty Earth.
Violações de direitos humanos
Além dos apontamentos sobre a cadeia de fornecimento de carne, o documento reúne registros de violações de direitos humanos e trabalhistas envolvendo a empresa. Segundo a organização, há casos de morte e tortura de homens negros em supermercados da rede e mais de 2,9 mil processos judiciais em andamento desde 2023, com pedidos de indenização que somam cerca de R$ 139 milhões.
Carne sob suspeita
De acordo com o levantamento, cerca de 40% da carne comercializada pela rede apresenta algum tipo de risco socioambiental. O estudo também afirma que pelo menos 54% da carne encontrada nas lojas da empresa tem origem em frigoríficos que não assumiram compromissos ambientais. Entre eles, foram identificados nove frigoríficos que compraram gado de propriedades incluídas na chamada “lista suja” do trabalho escravo, três pertencentes à JBS.
Entre 2024 e 2025, a ferramenta de rastreamento e cruzamento de dados utilizada pela organização identificou pelo menos 5.147 hectares de áreas desmatadas na Amazônia, no Pantanal e no Cerrado potencialmente associados à cadeia de fornecimento da empresa. Os pesquisadores ressaltam que esse número representa apenas uma amostra e que a dimensão real pode ser significativamente maior devido à falta de transparência na cadeia produtiva.
Outro dado destacado pelo relatório é que 85% dos frigoríficos identificados como fornecedores da rede não são signatários do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) da Carne, principal compromisso firmado para impedir a comercialização de gado associado ao desmatamento ilegal na Amazônia.
Falta de transparência
A investigação foi realizada entre 2023 e 2024 com base na análise de mais de 430 produtos de carne bovina coletados em 38 lojas do Grupo Mateus nos estados da Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Paraíba, Pernambuco, Piauí e Sergipe. A maior parte dos produtos analisados foi transportada da Região Norte para abastecer unidades no Nordeste.
Segundo a Mighty Earth, o Grupo Mateus não divulga critérios de compra de carne bovina, não publica relatórios de sustentabilidade, não apresenta sistemas públicos de rastreabilidade e também não aderiu ao Protocolo Boi na Linha, iniciativa criada para apoiar a implementação do TAC da Carne na Amazônia.
Recomendações e posicionamentos
Entre as recomendações apresentadas pela Mighty Earth estão a adoção de um compromisso público de desmatamento e conversão zero, o rompimento de relações comerciais com fornecedores envolvidos na destruição de biomas ou em violações de direitos humanos, a divulgação da lista de fornecedores de carne bovina e a criação de mecanismos permanentes para recebimento e acompanhamento de denúncias.
A organização afirma que procurou o Grupo Mateus antes da publicação do relatório, mas não recebeu resposta. À Folha de S.Paulo, a JBS informou que “todas as compras de gado citadas no relatório que puderam ser identificadas pela empresa foram regulares e seguiram os critérios previstos no TAC da Carne, entre eles o bloqueio imediato de fornecedor que passa a integrar a lista suja do trabalho escravo”. O Brasil de Fato também informou ter procurado o Grupo Mateus, sem obter retorno. O espaço permanece aberto para manifestação da empresa.