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Supermercado Mateus é acusado de crime ambiental em bairro de São Luís

Moradores denunciam crime ambiental com a retirada amendoeiras e tamarindeiras de mais de 30 anos no bairro do São Francisco.

A derrubada de árvores centenárias na Rua dos Abacateiros, no bairro do São Francisco, em São Luís, gerou forte reação da comunidade e motivou a criação do Movimento Raízes da Ilha, que convoca um ato de protesto para o próximo sábado, dia 6 de dezembro, às 15h, em frente à nova unidade do Supermercado Mateus.

Moradores denunciam que a retirada das árvores e a remoção das raízes — substituídas por brita — configuram crime ambiental e revelam, segundo eles, um padrão de desrespeito social e ambiental na expansão do grupo empresarial no Maranhão.

[Assista a entrevista na íntegra ao final desta matéria.]

A ação do supermercado ocorreu na Rua dos Abacateiros, onde ficavam amendoeiras e tamarindeiras de mais de 30 anos. As árvores, que forneciam sombra, amenizavam o calor e contribuíam para a qualidade do ar, foram suprimidas para a ampliação do muro da nova loja. Moradores afirmam que não há transparência sobre uma eventual autorização da prefeitura para o corte.

“A gente ainda quer entender se isso foi autorizado e com base em quê”, disse Beatriz Parente de Farias, estudante da UFMA e moradora da região que esteve no programa Dedo de Prosa da Agência Tambor em companhia de Elisa Maria dos Anjos, professora da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e integrante do Raízes da Ilha

[Assista a entrevista na íntegra ao final desta matéria.]

Imagens feitas por integrantes do movimento mostram que, dias após o corte, funcionários do empreendimento passaram a escavar o solo para retirar as raízes restantes e preencher o espaço com brita.

Para os moradores, a ação impede a regeneração natural das árvores. “Eles não só cortaram as árvores, estão arrancando as raízes e colocando brita para impedir o replantio. É perverso”, afirma Elisa.

As duas destacam que o problema vai além da estética urbana e envolve saúde pública, direito ao meio ambiente e qualidade de vida. Elisa lembra que São Luís tem o pior índice de poluição do ar entre as capitais brasileiras. “Quando você troca vegetação por concreto, aumenta o calor, compromete a permeabilidade do solo e piora a qualidade do ar. Isso impacta diretamente a vida das pessoas”, explica.

A derrubada também despertou forte comoção entre os moradores, que cresceram sob a sombra das árvores. “Eu moro aqui desde que nasci. Aquelas árvores fizeram parte da minha infância. Quando vi aquilo, chorei. A gente tem um apego afetivo e também ambiental”, relata Beatriz. Ela destaca ainda que o antigo supermercado que funcionava no local conviveu por anos com as árvores sem problemas logísticos.

O movimento defende que o caso seja tratado como emblemático de uma política urbana predatória que se repete em São Luís. O grupo reivindica rearborização imediata, penalização da empresa e compromisso público com a preservação ambiental. “São Luís tem um dos piores índices de arborização do país. A cidade está muito mais quente. Não é à toa. Precisamos que o plano municipal de arborização saia do papel”, afirma Beatriz.

Composto por moradores, professores, estudantes e profissionais de diferentes áreas, o Movimento Raízes da Ilha nasceu da primeira plenária realizada após o episódio. O grupo pretende atuar também em outros bairros da cidade, onde situações semelhantes vêm sendo registradas. “Não se trata só da Rua dos Abacateiros. É todo um processo de ocupação urbana sem responsabilidade social e ambiental”, aponta Elisa.

As entrevistadas reforçam a importância de envolver diferentes gerações nessa discussão. Para Beatriz, o engajamento da juventude é decisivo. “A gente precisa lutar pela cidade que vamos deixar para os nossos filhos. Apesar de toda a revolta, a mobilização ainda é difícil. Mas cada jovem que participa já faz muita diferença”, afirma.

O ato de sábado será o primeiro passo de uma agenda contínua de mobilizações. O movimento espera reunir moradores do São Francisco e de toda a Grande Ilha. “A cidade é nossa. Não podemos permitir que empresas privadas façam o que quiserem com o nosso patrimônio ambiental”, declara Beatriz. Elisa reforça a convocação: “Quando a população age, transforma. Ficar só indignado faz mal — agir muda realidades”.

O outro lado

A Secretaria Municipal de Urbanismo e Habitação (SEMURH) informa que, após denúncias sobre corte de árvores e intervenções próximas ao Mateus Food Service, no bairro São Francisco, equipes da Blitz Urbana realizaram vistoria no local e constataram a execução de obra sem licença emitida pela Prefeitura.

Durante a fiscalização, foram identificadas ampliação do empreendimento na área posterior do terreno, movimentação de terra, execução de fundações em concreto, construção de muro e supressão de parte da calçada, tudo sem a apresentação de Alvará de Construção ou Reforma, documento obrigatório para qualquer intervenção desse porte. O estabelecimento possui Alvará de Funcionamento vigente, mas isso não autoriza obras estruturais.

Diante do descumprimento de Notificação e da continuidade das obras irregulares, a Blitz Urbana lavrou Auto de Embargo, determinando a imediata paralisação dos serviços, e Auto de Infração pelos atos praticados sem a devida autorização municipal.

Sobre as árvores cortadas na área, a SEMURH esclarece que não recebeu qualquer solicitação ou comunicação prévia para supressão vegetal. A Secretaria Municipal de Meio Ambiente (SEMMAM), órgão responsável pelo licenciamento ambiental, foi acionada para adoção das medidas necessárias, referentes à situação.

A Agência Tambor procurou também o Supermercado Mateus para falar sobre a denuncia e a posição da Prefeitura. Até o momento, não houve resposta. Assim que o supermercado se pronunciar sobre o fato, esta matéria será atualizada.

Assista na íntegra a entrevista de Beatriz Parente de Farias e Elisa Maria dos Anjos ao programa Dedo de Prosa.

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