História da música: Trupe que gravou o LP “Lances de agora”, de Chico Maranhão, em 1978. Da esquerda pra direita: Sérgio Habibe, Paulo Trabulsi, Ubiratan Sousa, Chico Saldanha, Rodrigo Croce, Chico Maranhão, Ronald Pinheiro, Valdelino Cécio, Zezé da Flauta, Antonio Vieira e Vanilson Lima. Foto: Reprodução de “Em ritmo de seresta” A desvalorização da música popular produzida no Maranhão segue sendo uma queixa recorrente entre artistas locais, que apontam a falta de políticas públicas estruturadas e o avanço da contratação de atrações nacionais em detrimento dos criadores maranhenses.
Em entrevista ao programa Dedo de Prosa, da Agência Tambor, o cantor e compositor Lindomar Lins, dono de 25 discos gravados e sucessos consagrados, afirma que os músicos do Estado vivem “abandonados” pelo poder público e enfrentam um cenário cada vez mais hostil.
Com mais de quatro décadas dedicadas à música, Lindomar Lins alcançou projeção nacional com canções como Garçonete, lançada pela Rede Globo, além de composições que celebram o Maranhão, entre elas Férias no Maranhão, Ilha Maravilha e Flor do Nordeste. Apesar da trajetória sólida, o artista afirma que “o governo e a prefeitura não conhecem os músicos que têm”, e critica a falta de reconhecimento oficial. “Ainda bem que o povo me conhece, porque o poder público não sabe nem meu nome”, desabafou.
Durante a conversa, Lins relembrou o contraste entre o reconhecimento recebido fora do Estado e o descaso enfrentado em São Luís. “Ganhei uma medalha de honra ao mérito no Piauí por uma música que enaltece o Maranhão. Aqui, sequer mencionam”, declarou. Para o compositor, o problema não é novo, mas “se agravou nos últimos anos, com uma insensibilidade crescente dos gestores”.

Um dos pontos mais citados pelo artista é a dificuldade de acesso aos editais e programas de incentivo. Ele descreve as exigências como “um vestibular”, afirmando que a burocracia desestimula e exclui músicos locais. “Eles pedem mais documentos do que para ser governador. É feito para dificultar a vida do artista maranhense”, criticou.
Ao mesmo tempo, Lins denuncia que artistas de outros estados teriam facilidade para acessar recursos e oportunidades em períodos de festividades. “Chegam aqui, passam direto e levam cinco, dez, quinze shows. Enquanto isso, os nossos ficam a ver navio”, disse. Para ele, a disparidade revela a falta de compromisso do poder público com a cena local.
A crítica também se estende à distribuição de cachês. Segundo Lins, valores milionários destinados a atrações nacionais contrastam com pagamentos simbólicos oferecidos aos músicos maranhenses. “Pagam um milhão para artista de fora e mil reais para os daqui. Isso não é valorização, é humilhação”, afirmou, destacando a ausência de espaços de apresentação e de políticas de fortalecimento contínuo da cadeia produtiva da música.
Apesar das críticas, o compositor acredita que parte da mudança precisa vir dos próprios artistas. Em tom de apelo, cobrou união e organização da classe. “Muitos não reclamam por medo. Mas se ninguém reivindica, eles pensam que está tudo bem. Falta coragem de enfrentar o sistema”, afirmou.
Lins também relaciona a crise cultural à perda de tradições populares. “O São João não é mais o mesmo, o Carnaval não é mais o mesmo. Acabaram com a cultura para todos. Hoje é cultura para meia dúzia”, avaliou. Para ele, o resultado é um mercado musical esvaziado, com artistas buscando outras formas de sobreviver.
Questionado sobre o futuro da música popular maranhense, Lindomar Lins demonstra preocupação, mas não perde a esperança. “Se não houver mudança, vamos continuar perdendo nossos talentos para outras profissões. Mas ainda acredito que possa surgir um gestor que tenha humanidade e compromisso com a cultura”, afirmou.
Ao final da entrevista, o cantor reforçou o pedido por políticas reais de incentivo, respeito aos artistas e reconhecimento da produção local. “Nós temos nome, temos história. Não somos apenas ‘cantores da terra’. Somos profissionais que fazem cultura o ano inteiro”, concluiu.
Veja na integra a entrevista de Lindomar Lins ao programa Dedo de Prosa.