Durante quatro dias, lideranças de diferentes regiões do Maranhão compartilharam experiências, fortaleceram estratégias de defesa dos territórios e aprovaram os encaminhamentos da articulação. (Foto: @ludpereiira ) Comunidades tradicionais que enfrentam conflitos territoriais são prioridade para receber os Encontrões da Teia de Povos e Comunidades Tradicionais do Maranhão. Mais do que sediar um evento, as áreas passam a concentrar uma mobilização política construída para dar visibilidade às denúncias, fortalecer alianças e demonstrar que as comunidades ameaçadas não enfrentam sozinhas as pressões sobre seus modos de vida.
Foi com esse espírito que o 17º Encontrão reuniu, entre os dias 3 e 6 de julho, representantes de povos e comunidades tradicionais no território quilombola Tanque da Rodagem e São João, em Matões. Ao longo de quatro dias, o encontro promoveu análises de conjuntura, troca de experiências, debates sobre estratégias de resistência, um ato público contra o uso de agrotóxicos e aprovou uma carta política com os principais compromissos da articulação. (Leia a carta na integra.)
Em entrevista ao programa Dedo de Prosa, a articuladora da Teia e integrante do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Rosemeire Diniz Santos, explicou como essa mobilização se tornou uma das principais formas de apoio às comunidades em luta.
[Veja a entrevista ao final desta matéria.]

Uma rede construída para enfrentar conflitos
Segundo Rosemeire, a Teia surgiu em 2011, após o assassinato da liderança quilombola Flaviano Pinto Neto, do Território Charco, em São Vicente Ferrer. A violência levou comunidades quilombolas, povos indígenas e entidades parceiras a perceberem que enfrentavam problemas semelhantes e precisavam construir uma articulação permanente.
“A gente compreendeu que as nossas lutas eram semelhantes, os nossos inimigos também eram comuns e cada um estava lutando de forma separada. Então, a gente precisava se unir cada vez mais para fazer essa luta conjunta”, afirmou. Desde então, a Teia passou a reunir diferentes povos e organizações em torno da defesa dos territórios, do Bem Viver e dos chamados “corpos e territórios livres”.
O Encontrão como demonstração de apoio
A escolha dos territórios que recebem os Encontrões acompanha essa lógica. De acordo com a articuladora, um dos principais critérios é priorizar comunidades que vivem conflitos e necessitam fortalecer sua rede de apoio.
Foi esse o motivo que levou a Teia a realizar o encontro em Tanque da Rodagem, território que convive com a expansão da monocultura da soja, denúncias de pulverização aérea de agrotóxicos e um processo de regularização fundiária ainda em andamento. Para Rosemeire, a presença da articulação representa também um recado aos grupos econômicos que atuam na região.
“A gente foi lá com essa comunidade para somar e mostrar que Tanque da Rodagem não está sozinha”, afirmou. Segundo ela, a mobilização demonstra que o território conta com aliados e que sua luta faz parte de uma rede maior de resistência construída pelos povos e comunidades tradicionais do Maranhão.
Essa demonstração de apoio ganhou visibilidade durante o ato público realizado nas ruas de Matões. Com cantos, maracás, tambores e faixas, os participantes denunciaram os impactos da pulverização aérea de agrotóxicos, da expansão da monocultura e das demais violações enfrentadas pelas comunidades da região. “A presença de muitas pessoas mostra para esses grupos econômicos e para a cidade que aquela comunidade tem apoio, que ela também tem aliados”, destacou Rosemeire.
O coletivo como forma de resistência
Rosemeire destacou que o próprio Encontrão procura colocar em prática os princípios defendidos pela Teia. A organização envolve mutirões, equipes formadas por integrantes de diferentes territórios e uma cozinha coletiva abastecida, em grande parte, por alimentos produzidos pelas próprias comunidades, reafirmando a defesa da soberania alimentar.
A metodologia também incorpora a circularidade como forma de organização dos espaços e das atividades, inspirada nos modos tradicionais de convivência dos povos. A espiritualidade, expressa por diferentes manifestações culturais e religiosas, integra essa construção coletiva. Segundo a articuladora, essas experiências ajudam a fortalecer os vínculos entre as comunidades e representam um exercício permanente de enfrentamento ao individualismo.
A programação também marcou os 15 anos da Teia com o lançamento de um documentário sobre a trajetória da articulação e de uma exposição fotográfica que resgata momentos da caminhada dos povos e comunidades tradicionais. A mostra foi apresentada em conjunto com a exposição Teimosia de Viver, da Comissão Pastoral da Terra (CPT) do Maranhão. Reunidas no mesmo espaço, as duas iniciativas celebraram a memória das lutas, as conquistas da articulação e homenagearam a liderança indígena Cutetet Krenjê.
Próximos passos
Ao final do 17º Encontrão, os participantes aprovaram uma carta política que reúne denúncias sobre as violações enfrentadas pelos povos tradicionais, reafirma a defesa dos territórios e registra conquistas acumuladas ao longo dos 15 anos da Teia. O documento também aponta compromissos para os próximos anos da articulação.
Outra decisão anunciada durante a entrevista foi a mudança na periodicidade do Encontrão. A partir de agora, o evento será realizado a cada dois anos. Segundo Rosemeire, 2027 será dedicado à sistematização das experiências construídas pela Teia, à realização de atividades de formação e ao fortalecimento das ações nos territórios. O próximo Encontrão está previsto para 2028, em uma comunidade de quebradeiras de coco babaçu, na Baixada Maranhense.
[Veja a entrevista de Rosemeire Diniz Santos, articuladora da Teia e integrante do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), ao programa Dedo de Prosa.]