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Projeto que expõe raízes escravocrata no poder da elite política é debate em São Luís

Estudo revela que parte significativa de autoridades políticas brasileiras descende de famílias ligadas diretamente à escravização de pessoas, evidenciando a desigualdade que ainda molda o país. (Imagem: Acervo Rede MRT)

As marcas da escravidão não ficaram no passado — seguem estruturando quem ocupa o poder no Brasil. Uma investigação jornalística revelou que parte significativa de autoridades políticas atuais descende de famílias ligadas diretamente à escravização de pessoas, evidenciando a permanência histórica de desigualdades que ainda moldam o país.

O tema será debatido em São Luís no próximo dia 27 de abril, em palestra promovida pela Agência Pública em parceria com a Universidade Federal do Maranhão (UFMA), reunindo pesquisadores e jornalistas para discutir os impactos sociais e políticos dessas revelações.

“Essa investigação mostra quem está no poder hoje e qual é a trajetória histórica que levou essas pessoas até lá”, afirma a professora Gisa Carvalho, do Departamento de Comunicação Social da UFMA, em entrevista ao programa Dedo de Prosa, da Agência Tambor.

[Veja a entrevista na íntegra ao final desta matéria.]

O projeto Escravizadores analisou a genealogia de mais de uma centena de figuras públicas — entre deputados, senadores e ex-presidentes — para identificar vínculos familiares com pessoas que foram proprietárias de escravizados ou atuaram na repressão a revoltas durante o período colonial e imperial. Ao todo, 33 nomes foram associados a esse passado.

Segundo Gisa Carvalho, o levantamento não atribui responsabilidade direta às figuras atuais, mas revela um padrão histórico. “Não significa que essas pessoas sejam escravocratas hoje, mas indica que vêm de famílias que estiveram no poder econômico e político. E isso ajuda a explicar por que certos grupos continuam ocupando esses espaços.”

No Maranhão, o estudo também aponta conexões locais. Entre os citados estão o ex-presidente José Sarney e o atual governador Carlos Brandão. Ambos foram procurados pela reportagem e negaram vínculos diretos com os antepassados identificados, além de destacarem ações públicas voltadas ao enfrentamento da desigualdade racial.

Ainda assim, a pesquisa reforça um ponto central: o acesso ao poder segue atravessado por heranças históricas. “Quem descende de famílias que concentravam riqueza e influência tem mais facilidade de chegar à política. Já quem vem de famílias que foram escravizadas enfrenta barreiras muito maiores”, explica a professora.

O debate também avança sobre memória e construção de narrativas históricas. Um dos exemplos discutidos na palestra é o da figura de Ana Jansen, tradicionalmente celebrada na cultura maranhense, mas que também foi proprietária de centenas de pessoas escravizadas. “Não podemos usar outras dimensões da trajetória para justificar a escravização. São camadas diferentes que precisam ser encaradas”, afirma.

Para além do conteúdo histórico, a iniciativa também chama atenção pelo método jornalístico. A investigação exigiu cruzamento de dados em cartórios, arquivos e bases documentais complexas, reforçando a importância da apuração rigorosa em um contexto de desinformação. “É um trabalho extremamente minucioso, que mostra o valor da verificação e da responsabilidade na produção de informação”, destaca Gisa.

Outro ponto levantado é o papel dos arquivos públicos — e sua ausência. Enquanto é possível reconstruir a genealogia de famílias influentes, a história de pessoas escravizadas permanece, em grande parte, apagada. “Esse apagamento não é casual. Ele reflete escolhas históricas sobre quais memórias devem permanecer e quais devem ser esquecidas”, afirma.

A palestra acontece no Auditório do Centro de Ciências Sociais da UFMA, a partir das 14h, com participação do jornalista Rafael Custódio e do historiador Silvan Mendes, e mediação de Gisa Carvalho. A proposta é ampliar o debate sobre poder, memória e desigualdade a partir de dados concretos — e provocar reflexão sobre quem escreve, preserva e ocupa a história no Brasil.

[Veja a entrevista da professora Gisa Carvalho, do Departamento de Comunicação Social da UFMA, ao programa Dedo de Prosa.]

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