Filho do líder sindical Nonatinho, Iovelton Alves Silva, o Velton do Nonatinho, fala durante o encontro “A Saga dos Comunistas no Vale do Pindaré”, em Santa Inês, que resgatou a memória das lutas camponesas e sindicais na região. (Imagem: Acervo Pessoal) Transformar a campanha eleitoral em espaço de memória e formação política foi a proposta levada a Santa Inês pelo encontro “A Saga dos Comunistas no Vale do Pindaré”. Realizada no último sábado (19), a atividade recuperou episódios da resistência camponesa e sindical na região e buscou relacionar essas experiências às disputas políticas do presente.
O encontro foi promovido pela campanha de Régina Galeno, candidata a deputada estadual pelo PCdoB, em parceria com o Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz), a Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) e o PCdoB de Santa Inês. A candidatura de Régina está registrada para a eleição de 2026 no Maranhão.
Em entrevista à Agência Tambor, Régina Galeno e o jornalista e economista Dilermando Nogueira defenderam que uma campanha eleitoral não precisa se limitar à busca por votos. Para a candidata, recuperar experiências de organização popular também pode ajudar a discutir os projetos políticos colocados em disputa.
[Veja entrevista ao final desta matéria.]
“É a necessidade desse ato educativo no momento eleitoral, que nós estamos chamando de pedagogia política”, afirmou Régina em entrevista. A proposta, segundo ela, é fazer da campanha também um espaço de debate sobre direitos, participação popular e organização coletiva.
Uma história marcada pela luta pela terra
A escolha do Vale do Pindaré não foi casual. A região ocupa lugar importante na história das organizações camponesas do Maranhão. Relatórios da Comissão Camponesa da Verdade registram episódios de repressão contra trabalhadores rurais e lideranças do Vale do Pindaré durante a ditadura militar, entre elas Manoel da Conceição, uma das principais referências da luta pela terra no estado.
Dilermando Nogueira contou que esteve na região nas décadas de 1970 e acompanhou parte dessas mobilizações. Segundo ele, a disputa pela terra reunia trabalhadores que avançavam sobre novas áreas de cultivo e grandes proprietários interessados na concentração fundiária. Em meio à repressão do regime militar, afirmou, reivindicações por terra e reforma agrária acabavam também assumindo caráter de resistência política.
Ele relatou ainda que militantes que atuavam no Vale do Pindaré chegaram a discutir formas de apoio à Guerrilha do Araguaia. O plano, segundo Dilermando, não prosperou, mas a militância permaneceu envolvida em conflitos por terra e na organização de trabalhadores em municípios da região.
A memória de Raimundo Alves da Silva, o Nonatinho, também esteve presente no encontro. Sua viúva e seus filhos participaram da atividade em Santa Inês. Nonatinho foi uma liderança sindical de Santa Luzia e morreu aos 50 anos, em 17 de setembro de 1984. Documentação reunida pela Comissão Camponesa da Verdade registra que ele foi assassinado a tiros próximo de casa e relaciona sua trajetória à defesa de posseiros em conflitos com grileiros de terra.
Da memória para a disputa política
Para Régina, recuperar essas trajetórias durante uma campanha significa disputar também a maneira como a história das lutas populares é lembrada. “Não é só a disputa de voto”, disse. Na avaliação da candidata, a memória das organizações camponesas pode ajudar a recolocar no debate eleitoral temas como direitos dos trabalhadores, desigualdade e participação dos movimentos sociais.

Dilermando trouxe outro ponto para a discussão. Na avaliação dele, os movimentos sociais perderam parte da força que tiveram em outros períodos da história brasileira à medida que partidos e organizações concentraram maior energia na disputa institucional e parlamentar. Para o jornalista, reconstruir a capacidade de mobilização fora das eleições é um dos desafios atuais da esquerda.
Régina também defendeu que candidaturas sejam vinculadas a projetos coletivos, e não apenas a trajetórias pessoais ou familiares. Ao tratar da representação das mulheres e da presença de trabalhadores nos espaços de poder, afirmou que o parlamento pode ser uma das frentes de atuação política, desde que mantenha ligação com sindicatos e movimentos sociais.
Durante a entrevista, Régina e Dilermando fizeram críticas à extrema direita, ao poder econômico e a grupos políticos que, na avaliação deles, concentram influência sobre as instituições. Essas interpretações expressam as posições dos entrevistados; representantes dos setores criticados não participaram do debate.
Ao colocar a história do Vale do Pindaré dentro de uma atividade eleitoral, o encontro de Santa Inês procurou fazer uma ponte entre memória e presente. Para Régina, a experiência das antigas lutas camponesas ajuda a pensar formas atuais de organização. Dilermando, por sua vez, destacou que recordar essas trajetórias só ganha sentido político quando elas ajudam a reconstruir participação social para além do momento do voto.
[Assista a entrevista de Régina Galeno, candidata a deputada estadual pelo PCdoB, e o jornalista e economista Dilermando Nogueira ao programa Dedo de Prosa.]