Trem cargueiro da Vale descarrilou na Estrada de Ferro Carajás, próximo à TI Caru. Lideranças indígenas temem que o minério de ferro despejado no acidente seja levado pelas chuvas para o rio Pindaré. (Imagem: TV Liberal | reprodução) O minério de ferro derramado após um novo descarrilamento da Estrada de Ferro Carajás (EFC), da Vale, segue espalhado próximo à Terra Indígena Caru, no Maranhão, mais de dez dias após o acidente registrado em 30 de abril. O caso reacende denúncias históricas de povos indígenas e organizações sobre os impactos ambientais e sociais provocados pela ferrovia que corta territórios tradicionais na Amazônia maranhense.
O acidente ocorreu nas proximidades do km 295 da EFC, na região de Auzilândia, distrito de Alto Alegre do Pindaré, em um trecho que margeia a Terra Indígena Caru entre os km 246 e 339 da ferrovia, acompanhando o curso do rio Pindaré. Vagões carregados de minério de ferro descarrilaram e despejaram grandes quantidades do material ao longo da linha férrea e da estrada paralela.
Em nota à imprensa, a mineradora classificou o episódio como um “evento” causado por “motivos operacionais”. O trecho afetado, porém, integra uma das áreas mais sensíveis do corredor ferroviário da EFC. A TI Caru abriga povos Awá Guajá, Guajajara e grupos Awá em isolamento voluntário, sendo uma das 16 terras indígenas impactadas pelo projeto Grande Carajás no Maranhão e no Pará.
Lideranças indígenas relatam preocupação com a chegada do período chuvoso e o risco de o minério atingir o rio Pindaré, fundamental para abastecimento, pesca e subsistência das comunidades da região. “Eu temo pela chuva, pois esse pó do minério vai ser levado para o rio”, afirmou uma liderança Awá.
O episódio também reforça um histórico de acidentes envolvendo a ferrovia no território. Em 2023, um descarrilamento no mesmo trecho provocou o vazamento e a queima de cerca de 2,36 milhões de litros de combustível, contaminando o solo e cursos d’água. Já em 2010, outro acidente ocorreu a menos de 100 metros da aldeia Tiracambú, também na TI Caru, atingindo o rio Pindaré. Há anos, indígenas denunciam sinais de contaminação associados à atividade minerária, incluindo relatos de coceiras após banho no rio.
A Terra Indígena Caru está localizada no município de Bom Jardim, no norte do Maranhão, e possui cerca de 172 mil hectares. Demarcada em 1982, a área integra o chamado Mosaico Gurupi, considerado estratégico para a preservação da Amazônia maranhense e constantemente ameaçado por invasões, desmatamento e pressão sobre os territórios indígenas.
Segundo o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), os impactos da Estrada de Ferro Carajás se intensificaram após a duplicação da linha, concluída em 2018. Desde então, o aumento do fluxo de cargueiros e as recorrentes falhas de segurança têm ampliado os riscos para comunidades indígenas e ribeirinhas que vivem ao longo da ferrovia.
O Cimi cobra das autoridades ambientais e dos órgãos federais a responsabilização da empresa e a retirada imediata do minério despejado nas proximidades da TI Caru.