Uso político da fé e aproximação entre setores religiosos e a extrema direita têm provocado críticas de lideranças cristãs no Brasil. “A mensagem de Jesus não tem nada a ver com discursos de ódio, autoritarismo e exclusão social.” A afirmação é do pastor Lyndon Santos, nascido e criado na Igreja Congregacional. A fala resume suas críticas ao assédio da extrema direita sobre setores evangélicos brasileiros e ao uso político da religião como instrumento de poder.
“Jesus de Nazaré está mais próximo dos pobres, das periferias e dos injustiçados. A extrema direita faz exatamente o contrário”, afirma Lyndon.
O avanço da extrema direita entre lideranças religiosas no Brasil e o uso político da Bíblia foram temas da entrevista concedida ao programa Papo de Crente, apresentado no YouTube por Lídia Rosa, ligada à Igreja Batista.
[Veja a entrevista na íntegra ao final desta matéria.]
Ao longo da conversa, o pastor Lyndon Santos definiu a extrema direita como uma força política “da guerra”, que rejeita mudanças em favor dos mais pobres e busca destruir adversários enquanto tenta impor uma visão única de sociedade.
Segundo ele, esse campo político se aproxima da religião por meio do fundamentalismo. “A religião passa a ser apropriada e manipulada como instrumento de poder”, declarou.
Extrema direita só defende ricos
O pastor também criticou o crescimento de lideranças religiosas ligadas ao Congresso Nacional e à chamada bancada evangélica. Para ele, houve, nas últimas décadas, uma migração estratégica do campo religioso para o político, criando uma estrutura organizada de influência.
“A Bíblia foi sequestrada”, afirmou o pastor, explicando que o livro sagrado dos cristãos passou a ser usado como instrumento para defender interesses dos mais ricos, “do agronegócio e das elites econômicas”.
Na avaliação do entrevistado, a extrema direita representa uma negação da mensagem pregada por Jesus, construindo uma imagem distorcida do cristianismo. Segundo o pastor, valores centrais do evangelho, como compaixão, acolhimento e justiça social, entram em choque com discursos extremistas.
Jesus em favor dos pobres
“Eles inventam um Jesus à imagem e semelhança dos seus interesses. Um Jesus triunfante, do poder. Mas o Jesus dos evangelhos é o da cruz, do serviço e da compaixão”, afirmou.
Como contraponto, Lyndon citou as bem-aventuranças bíblicas para argumentar que o discurso extremista contradiz os ensinamentos centrais do evangelho. Para ele, a mensagem de Jesus está ligada à defesa dos pobres, dos perseguidos e dos injustiçados, enquanto a extrema direita se sustenta na intolerância e na exclusão.
O uso do púlpito como espaço de campanha eleitoral também foi alvo de críticas. O pastor afirmou que igrejas passaram a funcionar como estruturas de cooptação política, nas quais lideranças negociam apoio eleitoral em troca de benefícios e legitimam candidatos como “escolhidos de Deus”.
Lyndon repudiou o fato de terem “transformado Deus em cabo eleitoral. Isso é anticristão, antidemocrático e manipulador”, declarou.
Durante a entrevista, ele afirmou ainda que existe resistência dentro das próprias igrejas e que parte dos fiéis já percebe as contradições entre o discurso moralista e práticas associadas à corrupção, ao enriquecimento religioso e à intolerância.
“Os evangélicos não são bobos. Há uma massa crítica silenciosa que enxerga essas contradições e precisa ser estimulada a pensar”, afirmou.
Extrema direita se alegra com as injustiças
Ao relacionar religião e desigualdade social, Lyndon Santos também criticou o uso das chamadas “pautas de costumes” como forma de esconder interesses econômicos.
Segundo ele, temas ligados à família são usados como “cortina de fumaça”, enquanto direitos trabalhistas, desigualdade e violência social ficam em segundo plano.
“No fundo, estão defendendo interesses do grande capital e criando medo nas pessoas”, afirmou.
Nas considerações finais, o pastor defendeu que os evangélicos retomem uma leitura crítica da Bíblia e voltem a se aproximar do Jesus dos evangelhos.
“Ser cristão é não se alegrar com a injustiça. A extrema direita se alegra com ela. Nós temos a vocação da indignação, não do ódio”, concluiu.
[Veja a entrevista do pastor e professor universitário Lyndon Santos ao programa Papo de Crente, transmitido no canal da Agência Tambor.]