Investigação revela vínculos entre parte da elite política brasileira e a escravidão. Gravura de Jean-Baptiste Debret retrata escravidão no país. (Imagem: acervo rede) A Universidade Federal do Maranhão (UFMA) recebe, no próximo dia 27 de abril, um debate sobre o projeto “Escravizadores”, investigação inédita que revelou vínculos entre parte da elite política brasileira e a escravidão. O estudo identificou que um quinto dos senadores, quase metade dos governadores e metade dos presidentes da República desde a ditadura têm antepassados diretamente ligados ao regime escravocrata.
O levantamento foi realizado pela Agência Pública e analisou 116 autoridades brasileiras. Em 33 casos, foram identificadas relações familiares com a escravidão — seja pela posse de pessoas escravizadas, pelo uso dessa mão de obra ou pela atuação na repressão a revoltas de populações negras e pobres durante o período colonial e imperial.
A pesquisa também chama atenção para a permanência histórica de determinadas famílias no poder. Segundo os dados levantados, linhagens políticas se mantiveram influentes ao longo de séculos, evidenciando continuidades estruturais que atravessam a formação social e política do país.

Para chegar a esses resultados, a equipe utilizou técnicas de Open Source Intelligence (OSINT) na reconstrução genealógica das autoridades investigadas. Entre as fontes analisadas estão registros paroquiais de batismo e casamento, certidões de nascimento e óbito, além de jornais antigos, arquivos públicos e produções acadêmicas.
O trabalho enfrentou obstáculos relevantes, como a dificuldade de acesso a documentos históricos e a ausência de padronização nos registros, especialmente no que diz respeito às pessoas escravizadas. Ainda assim, a investigação conseguiu mapear centenas de antepassados e revelar conexões até então pouco conhecidas.
Outro aspecto destacado pelo projeto é a presença, entre os antepassados identificados, de figuras historicamente reverenciadas, mas que mantinham relações diretas com a escravidão — um dado que, em muitos casos, não fazia parte do conhecimento público nem da memória familiar dos próprios descendentes.
A discussão sobre esses achados chega agora ao ambiente acadêmico no Maranhão. A UFMA sediará uma palestra sobre o projeto “Escravizadores”, ampliando o debate sobre memória, poder e desigualdade no Brasil.
O encontro contará com a participação do repórter Rafael Custódio, da Agência Pública, e do historiador Silvan Mendes, professor da UFMA. A mediação será feita por Gisa Carvalho.
A atividade está marcada para as 14h, no Auditório do CCSo Dinah Gomes.
Mais do que apresentar os resultados da investigação, a proposta é tensionar o debate sobre como o passado escravocrata segue estruturando relações de poder no país — inclusive no presente.
Link de inscrição, aqui.