A corrida com a Tora Grande simboliza a transformação do luto em continuidade. Seis meses após a partida de Cu’tetet Krenjê, o ritual reafirmou a força de seu legado entre as novas gerações. (Foto: Fábio Reis/Cimi) A força das lideranças indígenas ultrapassa sua presença física. Seus ensinamentos, sua atuação política e sua memória continuam orientando a resistência e a organização dos povos originários. Essa permanência foi reafirmada entre os dias 17 e 20 de julho, quando o povo Krenjê realizou o ritual Pyr Pex, conhecido como ritual da Tora Grande, marcando o encerramento do luto de seis meses por Cu’tetet Krenjê, uma das principais lideranças indígenas do Maranhão.
O Cimi Regional Maranhão participou da cerimônia, que reúne espiritualidade, memória e reafirmação cultural. O ritual simboliza a transformação do luto em continuidade por meio do corte de cabelo, das pinturas corporais, das cantorias, das fogueiras e das tradicionais corridas com a tora grande, fortalecendo a identidade do povo Krenjê e celebrando o legado deixado por Cu’tetet.
Uma trajetória de resistência
Liderança indígena, tecedor da Teia de Povos e Comunidades Tradicionais do Maranhão e articulador de diferentes povos na defesa do Bem Viver, Cu’tetet dedicou sua vida à luta pela demarcação dos territórios e pelo fortalecimento das comunidades tradicionais. Sua trajetória tornou-se referência para além do povo Krenjê, inspirando organizações e lideranças em todo o estado.
A história do povo Krenjê é marcada pela resistência. Expulsos de seu território tradicional durante o avanço da pecuária, em um processo legitimado pelo órgão indigenista da época, os indígenas foram removidos para outras regiões do Maranhão. Muitas famílias, entre elas a de Cu’tetet, viveram durante décadas na periferia de Barra do Corda, enfrentando o racismo, a invisibilização e a negação sistemática de seus direitos enquanto povo indígena.

A conquista do território
Após anos de mobilização coletiva, essa trajetória começou a ser transformada. Em 2019, o povo Krenjê conquistou, por meio de uma Ação Civil Pública, a posse de seu território. A vitória foi resultado de uma longa caminhada construída por toda a comunidade e teve em Cu’tetet uma de suas principais lideranças, reconhecida pela firmeza na defesa da demarcação territorial e pela capacidade de unir diferentes povos em torno de objetivos comuns.
Seu compromisso também ajudou a consolidar a Teia de Povos e Comunidades Tradicionais do Maranhão, espaço de articulação entre povos indígenas, quilombolas, quebradeiras de coco, pescadores, camponeses e outras comunidades tradicionais na defesa dos territórios, da natureza e dos modos de vida.
Seis meses após sua partida, o ritual Pyr Pex reafirmou que o legado de Cu’tetet permanece vivo. A corrida com a tora grande, carregada coletivamente, representa a transformação da dor em esperança, da despedida em continuidade e da memória em compromisso com as futuras gerações.
Para o povo Krenjê, Cu’tetet segue presente em cada luta, em cada retomada e em cada gesto de fortalecimento da cultura e do território. Como ensinam os povos originários, os troncos velhos continuam alimentando novos brotos. Cu’tetet permanece como semente viva, inspirando a caminhada dos povos indígenas e das comunidades tradicionais do Maranhão.