A exposição sintetiza anos de pesquisa, produção artística e vivência do artista Tairo Lisboa dentro do Bumba meu boi no Maranhão. (Foto: Tairo Lisboa) Mais do que apresentar fotografias, esculturas, videoarte e instalações, a exposição Exuberantes Cazumbas, em cartaz no Museu Histórico e Artístico do Maranhão (MHAM), em São Luís, convida o público a revisitar o personagem mais emblemático do Bumba meu boi da Baixada a partir de uma perspectiva artística, afetiva e sensorial. O projeto do multiartista Tairo Lisboa busca romper com visões folclorizadas da manifestação e reafirmar o Cazumba como símbolo de resistência, espiritualidade e identidade cultural maranhense.
Aberta à visitação gratuita até 14 de agosto, a mostra reúne fotografias documentais e experimentais, desenhos, esculturas, videoarte, paisagens sonoras e experiências sensoriais. Segundo o artista, o objetivo é aproximar diferentes públicos da cultura popular e estimular reflexões sobre o reconhecimento dos brincantes e mestres que mantêm vivo esse patrimônio ao longo de todo o ano.
Uma trajetória transformada em exposição
Tairo Lisboa explicou que a exposição sintetiza anos de pesquisa, produção artística e vivência dentro do Bumba meu boi. Além de registrar os Cazumbas como fotógrafo e desenhista, ele passou a integrar o Boi da Floresta como brincante, experiência que redefiniu sua relação com o personagem.
“É uma exposição que carrega toda essa minha trajetória e também minha vivência enquanto brincante, pesquisador, curador e artista”, afirmou em entrevista ao programa Dedo de Prosa.
[Veja a entrevista ao final desta matéria.]
O artista destaca que o Cazumba ocupa um papel singular no sotaque da Baixada. É o primeiro personagem a entrar no terreiro durante as apresentações do Bumba meu boi, abrindo caminho para a brincadeira. A partir dessa função simbólica, a exposição estabelece uma aproximação poética entre o Cazumba e Exu, orixá que inicia os trabalhos nas tradições de matriz africana.
Experiência acessível e multissensorial
A proposta expositiva ultrapassa a contemplação das imagens. A mostra reúne trilha sonora original, paisagens sonoras, aromas inspirados nos quatro elementos da natureza e espaços interativos voltados às crianças.
Também foram incorporados recursos de acessibilidade, como experiências sonoras pensadas para pessoas com deficiência visual, além da disposição das obras em diferentes alturas para facilitar a visita de crianças e cadeirantes. Segundo Tairo, a intenção foi construir uma exposição “que dialogue com diversos públicos”.

Cultura popular para além do São João
Durante a entrevista, o artista chamou atenção para a necessidade de superar a visão do Bumba meu boi apenas como atração junina. Na avaliação dele, ainda persistem preconceitos que reduzem a cultura popular ao entretenimento e invisibilizam os trabalhadores responsáveis por mantê-la viva.
“Os mestres precisam de cuidados, precisam de políticas públicas. Eles não estão apenas no São João. Depois disso continuam tendo suas vidas”, afirmou.
Segundo Tairo, a valorização dos grupos passa também pelo reconhecimento das comunidades negras e quilombolas que historicamente sustentam essas manifestações culturais e pela ampliação de direitos, como acesso à saúde, proteção social e políticas permanentes para os brincantes.
Da fotografia ao pertencimento
O artista contou que o maior desafio do projeto não foi produzir as imagens, mas tornar-se Cazumba. A experiência como brincante modificou sua forma de fotografar e de compreender a relação entre quem registra e quem é registrado.
De acordo com ele, essa vivência permitiu desenvolver um olhar mais sensível sobre a cultura popular e refletir sobre abordagens muitas vezes desrespeitosas dirigidas aos brincantes. “Deixei a câmera em vários momentos e me tornei mais brincante. Isso me ensinou a fazer uma fotografia mais humanizada”, relatou ao programa.
Serviço
- A exposição Exuberantes Cazumbas permanece aberta ao público até 14 de agosto.
- LOCAL: Museu Histórico e Artístico do Maranhão (MHAM),
- ENDEREÇO: Rua do Sol, no Centro Histórico de São Luís.
- A visitação é gratuita e ocorre de terça a sexta-feira, das 14h às 17h.
- Além da mostra, o projeto conta com atividades formativas, catálogo impresso e plataforma digital com parte do acervo e materiais de pesquisa sobre o universo do Cazumba.
[Veja a entrevista de Tairo Lisboa sobre a exposição Exuberantes Cazumbas no programa Dedo de Prosa.]