Dados da CPT revelam cenário persistente de ameaças e violações contra povos do campo no Maranhão. 9Imagem: Quilombo Guarimã)
Os conflitos no campo no Maranhão atingiram 59,5 mil camponeses no ano passado e expõem um cenário que movimentos sociais e entidades de direitos humanos classificam como permanente violação de direitos territoriais no estado. Os dados, do Caderno de Conflitos no Campo 2025 divulgados pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), apontam 209 ocorrências registradas ao longo do ano, envolvendo ameaças, contaminação por agrotóxicos, disputas por água, trabalho análogo à escravidão e violência contra comunidades tradicionais.
O levantamento foi debatido em entrevista ao programa Dedo de Prosa, da Agência Tambor, com o agente da CPT Maranhão, Roniere Rozeira, e o quilombola Paulo Sérgio. Durante a conversa, os entrevistados associaram o avanço dos conflitos à expansão do agronegócio, à grilagem de terras e à ausência de regularização fundiária de comunidades quilombolas e indígenas.
[Veja entrevista na íntegra ao final desta matéria.]
Segundo Roniere, apesar da redução numérica em relação ao ano anterior — quando foram registrados mais de 400 conflitos — a violência permanece crescente nos territórios. “As ameaças de morte aumentaram. Então a violência no campo no Maranhão não diminuiu”, afirmou. De acordo com os dados apresentados pela CPT, foram registrados 21 casos de ameaças de morte em 2025, além de tentativas de assassinato, agressões, intimidações e uma morte decorrente de conflito territorial.
Os conflitos por terra seguem concentrando a maior parte das ocorrências. Foram 190 registros envolvendo diretamente mais de 14 mil famílias. Os grupos mais atingidos são posseiros, quilombolas e indígenas. Também houve oito conflitos relacionados à água e 11 casos ligados a trabalho análogo à escravidão, que resultaram no resgate de 135 trabalhadores.
Roniere afirmou que há omissão do Estado diante da situação e criticou a demora na titulação de territórios tradicionais. “Como que uma comunidade quilombola reconhecida continua sem o título da terra? Por que o Estado regulariza terra para grandes fazendeiros e não garante segurança para as comunidades?”, questionou. Para ele, a ausência de regularização fundiária mantém os territórios vulneráveis à ação de grileiros e grandes empreendimentos.
A realidade descrita pela CPT foi reforçada por Paulo Sérgio, morador da comunidade quilombola Santa Maria dos Moreiras, em Codó. Ele relatou ameaças constantes, presença de homens armados, destruição de áreas produtivas e intimidações contra moradores que tentam impedir invasões de tratores em áreas ocupadas tradicionalmente pela comunidade.
“Hoje a gente está sobrevivendo dentro do território, mas quer viver em paz”, declarou. Segundo Paulo, mulheres da comunidade têm dificuldade até de acessar áreas de coleta de babaçu por causa da presença de seguranças armados contratados por fazendeiros. Ele também denunciou dificuldades para registrar ocorrências policiais. “Às vezes o delegado se omite ou se exalta com as pessoas da comunidade”, afirmou.
Durante a entrevista, os representantes da CPT e da comunidade quilombola apontaram ainda uma estratégia de desgaste psicológico e financeiro contra os moradores. Segundo Paulo, conflitos judiciais frequentes obrigam famílias a gastar recursos com deslocamentos e advogados, enquanto narrativas difundidas fora dos territórios tentam deslegitimar as reivindicações quilombolas. “Dizem que a comunidade não precisa de tanta terra, mas não entendem que estamos defendendo nosso modo de vida”, disse.
Roniere também relacionou os conflitos ambientais à vida urbana e ao abastecimento das cidades. Segundo ele, comunidades tradicionais exercem papel central na preservação de rios, nascentes e áreas de vegetação nativa. “Quem cuida das nascentes dos rios são essas comunidades que hoje estão ameaçadas”, afirmou, ao defender maior envolvimento da sociedade na pauta agrária e ambiental.
Ao final da entrevista, Paulo Sérgio cobrou ações concretas dos governos municipal, estadual e federal para garantir proteção às comunidades quilombolas. Ele também criticou a ausência de políticas públicas específicas em municípios com forte presença de territórios tradicionais, como Codó. “A gente não está lutando só por hectares. Está lutando pela nossa sobrevivência, pela nossa memória e pelo direito de continuar existindo”, declarou.
[Veja a entrevista com Roniere Rozeira, agente da CPT Maranhão, e o quilombola Paulo Sérgio ao programa Dedo de Prosa.]