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A Comunicação Ancestral nasce do reencontro e aprendizado com os nossos mais velhos

Foto do II Encontro Nacional de Comunicação Ancestral, ocorrido no Maranhão, e organizado pela Rádio e TV Quilombo.

A comunicação feita “de dentro para dentro”, baseada na escuta, na memória coletiva e na transmissão de saberes entre gerações, tem se consolidado como ferramenta de força política, fortalecimento cultural e defesa dos territórios quilombolas.

O tema foi destaque da entrevista com a comunicadora ancestral Mary de Jesus ao programa Dedo de Prosa, da Agência Tambor. Ela é da Rádio e TV Quilombo, do território quilombola Rampa, do município maranhense de Vargem Grande.

Durante a conversa, a comunicadora ancestral destacou a importância de uma comunicação feita pelos próprios territórios e voltada às realidades quilombolas como forma de enfrentamento ao apagamento histórico das comunidades tradicionais e à invisibilização promovida pelas grandes mídias.

“Para nós, a comunicação nasce da escuta, do afeto e dos reencontros com os nossos mais velhos”, afirmou Mary.

[Veja a entrevista completa ao final desta matéria.]

A entrevista ocorreu após a realização do II Encontro Nacional de Comunicação Ancestral, que reuniu, no Quilombo Rampa, comunicadores populares, quilombolas, indígenas, de periferias e de movimentos sociais de diferentes regiões do Brasil. Esta atividade foi promovida pela Rádio e TV Quilombo.

Mary de Jesus é comunicadora ancestral da Radio e TV Quilombo. A luta é através da poesia, do canto, da comunicação.

Comunicação Ancestral

A Agência Tambor participou desta atividade importante e fundamental, representada pela radialista e comunicadora popular Lívia Lima, que também atua no Dedo de Prosa.

Segundo Mary, a comunicação ancestral nasce da própria experiência coletiva dos territórios e da necessidade de preservar histórias, identidades e modos de vida historicamente ameaçados.

“A gente comunica através dos nossos ancestrais. Lá no fundo, estamos levando o que eles deixaram para nós”, disse a integrante da Rádio e TV Quilombo.

Mais do que uma ferramenta técnica, ela define a comunicação ancestral como prática cotidiana de resistência e continuidade. “Nós já nascemos comunicadores. A comunicação vai se construindo a cada caminho, a cada trajetória de cada pessoa e de cada território”, explicou.

A força da roda

Ao relacionar cultura e comunicação, Mary destacou o tambor de crioula como uma das expressões mais fortes dessa ancestralidade viva. Segundo ela, os cantos, a dança e os tambores também carregam mensagens políticas e coletivas.

“Quando a gente está numa roda de tambor, aquilo também comunica. Comunica através do verso, da dança, da batida”, afirmou Mary.

Outro ponto central da entrevista foi o papel da Rádio e TV Quilombo no fortalecimento da identidade quilombola e na construção de narrativas próprias sobre os territórios.

Criado há quase dez anos dentro da comunidade, o projeto se tornou referência de comunicação e passou a dialogar com outras experiências pelo país.

“A gente mostra a realidade não só do nosso território, mas de outros quilombos e comunidades. É uma comunicação feita pelo nosso povo”, destacou Mary. Segundo ela, a proposta da Rádio e TV Quilombo é romper com visões estigmatizadas que reduzem os territórios apenas à violência, à pobreza ou ao conflito.

E a democratização da comunicação?

Durante a entrevista, a comunicadora também criticou a concentração dos meios de comunicação e a dificuldade das grandes plataformas em dialogar com as populações tradicionais.

Para Mary, iniciativas comunitárias cumprem um papel político fundamental ao garantir voz aos próprios sujeitos dos territórios. “É importante mostrar que a gente não vive só de violência. Existe cultura, existe vida dentro dos territórios”, ressaltou.

Ao falar sobre a relação entre comunicação ancestral e jornalismo, Mary afirmou que os comunicadores dos territórios também exercem prática jornalística, mesmo fora dos espaços tradicionais de formação acadêmica.

“Não vejo tanta diferença. A gente faz jornalismo também. É uma troca de experiências e uma fala de dentro para dentro”, declarou a comunicadora ancestral.

Território, história, povo

A força da juventude quilombola também marcou o encontro nacional. Crianças e jovens participaram das oficinas de rádio, fotografia e comunicação, em um processo que, segundo Mary, garante continuidade às práticas ancestrais dentro dos territórios. “A comunicação começa desde criança. A gente vai trazendo isso de geração em geração”, afirmou.

O II Encontro Nacional de Comunicação Ancestral também promoveu debates sobre soberania alimentar, justiça socioambiental e comunicação nos territórios, além de rodas de conversa, vivências e oficinas voltadas à troca de experiências entre diferentes comunidades tradicionais.

Ao final da entrevista, Mary de Jesus reforçou a importância da permanência da luta coletiva e da preservação da ancestralidade diante dos desafios enfrentados pelos povos tradicionais.

Em sua fala, Mary deixou dito: “Que a gente nunca desista de lutar pelo nosso território, pela nossa história e pelo nosso povo. Seja através da poesia, do canto ou da comunicação, é importante manter viva a nossa ancestralidade”, concluiu.

[Veja a entrevista da comunicadora Mary de Jesus, integrante da Rádio e TV Quilombo Rampa, ao programa Dedo de Prosa.]

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