Lideranças culturais e pesquisadoras denunciam o uso da cultura popular do Maranhão como instrumento em um esquema de corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo emendas parlamentares da Assembleia Legislativa. O caso, que resultou na prisão de três pessoas e é investigado pela Polícia Federal, foi debatido no programa Dedo de Prosa, da Agência Tambor.
O que está sendo apurado é o desvio de recursos públicos e a lavagem de dinheiro, oriundos das emendas parlamentares de deputadas e/ou deputados estaduais do Estado, que teriam se aproveitado da vulnerabilidade de lideranças ligadas à cultura popular. As investigações apontam que os valores destinados à entidades eram sacados, repartidos entre os envolvidos, sendo que a maior parte retornava aos parlamentares.
Para debater o cenário, estiveram presente na roda de conversa, a professor e pesquisadora Letícia Cardoso, a arte-educadora Cláudia Matos e o pesquisador, produtor cultural, servidor público concursado e atual presidente do Sindicado dos Servidores da Assembleia Legislativa do Maranhão (Sindsalem), Luiz Noleto Chaves.
[Veja a entrevista na íntegra ao final desta matéria.]
Para os entrevistados, o problema é estrutural e se repete há décadas, sustentado pela ausência de políticas públicas democráticas e pela conivência do poder político.
Segundo a arte-educadora Cláudia Matos, o recente caso apenas evidencia um processo histórico de aliciamento de grupos culturais por agentes políticos. “Há muito tempo a cultura popular é usada como vitrine para interesses eleitorais. O que estamos vendo agora é o resultado de um sistema em que lideranças culturais, vulneráveis e sem apoio permanente, são cooptadas em troca de repasses e favores. É uma forma de exploração disfarçada de incentivo”, afirmou.
A professora e pesquisadora Letícia Cardoso concorda que o aliciamento é consequência direta da forma como o Estado trata a cultura. “Os grupos precisam de financiamento o ano inteiro, mas só recebem apoio quando há interesse político. Essa dependência cria um ciclo de submissão, e muitos acabam reféns de práticas ilegais porque não há outra alternativa. Não é defesa, é denúncia de uma estrutura perversa”, explicou.
Questionados sobre a ausência de uma política cultural verdadeiramente democrática, os entrevistados foram unânimes: a falta de continuidade e de fiscalização torna o sistema vulnerável. “Não é uma questão de falta de lei, mas de vontade política”, disse Cláudia. “O Maranhão está sem Conselho de Cultura desde 2024, e sem esse órgão fiscalizador tudo fica nas mãos de gestores e parlamentares. O governo utiliza a lei de incentivo como se fosse produtor de cultura, enquanto o povo, que é quem realmente faz cultura, fica à margem”, completou.
Letícia acrescentou que o problema é agravado pela concentração de recursos nas mãos de produtoras ligadas a gestores públicos. “A Secretaria de Cultura virou um balcão de negócios. Projetos legítimos, de artistas e pesquisadores independentes, são ignorados, enquanto outros, com vínculos políticos, captam milhões. Isso é uma política de dependência e chantagem. Muitos artistas têm medo de denunciar por medo de retaliação”, relatou.
Para o presidente do Sindsalem, Luiz Noleto, o caso recente ilustra como o esquema começa e termina dentro da Assembleia Legislativa. “Não existe corrupção sem corruptores. O que vimos foi a criminalização dos fazedores de cultura, enquanto os parlamentares que operam essas emendas continuam intocados. Uma das verbas, segundo os autos, foi liberada antes de ser publicada no Diário Oficial. Isso mostra como há conivência no topo da cadeia”, afirmou.
Os entrevistados também criticaram o papel da mídia conservadora, acusando-a de contribuir para a distorção da narrativa pública. “A cobertura enfatizou as prisões de produtores culturais, omitindo os nomes de assessores e deputados. Para a opinião pública, parece que o problema está no bumba meu boi, quando, na verdade, está na Assembleia”, destacou Cláudia. Letícia reforçou que “a mídia ajuda a manter o foco nos mais vulneráveis e silencia o debate sobre os verdadeiros responsáveis, alimentando o preconceito contra a cultura popular”.
A repercussão do caso também provocou solidariedade entre grupos culturais e comunidades atingidas. Cláudia citou o Boi de Maracanã e a comunidade da Vila Maracanã, que, segundo ela, vêm sendo injustamente associadas ao escândalo. “É uma comunidade centenária, símbolo da nossa cultura. Estão tentando macular uma história de resistência e identidade. O aliciamento não é só com as brincadeiras, é com as próprias comunidades”, denunciou.
Os participantes defenderam que a resposta deve vir da mobilização social e da pressão popular por transparência. “Se sabemos e não fazemos nada, somos coniventes”, disse Letícia, ao convocar a criação de um fórum de debate sobre o modelo de financiamento cultural no Maranhão. Noleto complementou: “Os recursos não pertencem a gestores nem a deputados. São públicos. A cultura é feita pelo povo, e é o povo quem precisa retomá-la das mãos da política”.
Assista a entrevista completa com Cláudia Matos, Letícia Cardoso e Luiz Noleto Chave disponível no canal da Agência Tambor no YouTube.