Inglês, antirracismo, afeto e empoderamento: a língua como instrumento de fortalecimento da autonomia feminina e de ampliação de acessos. Na foto, alunas em atividade de integração. (Imagem: MAI) O acesso ao ensino de inglês ainda é marcado por desigualdades sociais, econômicas e raciais no Brasil. Em São Luís, a escola Mulheres Aprendendo Inglês (MAI) propõe inverter essa lógica ao tratar o aprendizado do idioma não como símbolo de status, mas como instrumento de fortalecimento da autonomia feminina e de ampliação do acesso a direitos, oportunidades acadêmicas e espaços de decisão.
A iniciativa desenvolve sua metodologia a partir da chamada “Tecnologia de Retomada”, conceito inspirado em debates sobre saberes ancestrais, inovação social e valorização das identidades de povos indígenas e negros. A proposta articula ensino de idiomas, formação cidadã, acolhimento e fortalecimento coletivo para enfrentar barreiras históricas que afastam muitas mulheres do aprendizado da língua inglesa. As reflexões foram apresentadas por Dayane Brito, fundadora do MAI, e Vitória Martins, diretora de Criação & Projetos da escola, em entrevista ao programa Dedo de Prosa.
[Veja entrevista na íntegra ao final desta matéria.]
Inglês como ferramenta de emancipação
Segundo Dayane Brito, a proposta é romper com a visão tradicional do inglês como patrimônio restrito às elites. “A gente vai justamente subverter essa lógica da exclusão”, afirmou em entrevista ao programa Dedo de Prosa. Para ela, o idioma pode funcionar como uma ferramenta de retomada da identidade, da autonomia e da participação das mulheres nos espaços sociais e profissionais.
Essa perspectiva também modifica a forma como o idioma é ensinado. Em vez de centrar o conteúdo apenas nas culturas britânica ou norte-americana, o MAI incorpora elementos da realidade maranhense às aulas, abordando manifestações como o Tambor de Crioula, o São João e outras referências culturais locais. O objetivo é aproximar o aprendizado da vivência das estudantes e mostrar que a língua inglesa pode dialogar com diferentes identidades culturais.
Barreiras estruturais
As entrevistadas avaliam que as dificuldades enfrentadas pelas mulheres vão muito além da sala de aula. Questões financeiras, dupla jornada de trabalho, responsabilidades com o cuidado da família e desigualdades históricas limitam o acesso ao idioma, especialmente nas regiões Norte e Nordeste.
Dayane lembrou que, segundo levantamento citado durante a entrevista, apenas cerca de 5% da população brasileira se considera falante de inglês. Na avaliação dela, esse cenário demonstra que o idioma continua funcionando como uma barreira estrutural ao acesso a oportunidades acadêmicas e profissionais.
Ela também defendeu políticas públicas que ampliem esse acesso, desde programas de formação até mudanças nos processos seletivos de empresas e instituições de ensino. Para a fundadora do MAI, exigir fluência em inglês como requisito para contratação ou ingresso em programas de pós-graduação pode aprofundar desigualdades quando grande parte da população nunca teve oportunidade de estudar o idioma.
Educação aliada ao acolhimento
Além das aulas, o projeto desenvolve atividades voltadas à saúde mental, autoestima, maternidade e construção de redes de apoio entre as participantes. Vitória Martins explica que essas ações fazem parte da metodologia da escola porque as dificuldades enfrentadas pelas alunas não se restringem ao aprendizado da língua.
“A língua inglesa pode abrir portas para estudar e trabalhar”, afirmou ao programa Dedo de Prosa. Segundo ela, o diferencial está em reconhecer as condições concretas vividas pelas mulheres e construir um ambiente de acolhimento que dialogue com essas realidades. O projeto também promove encontros com profissionais brasileiras que vivem no exterior e compartilham experiências acadêmicas e profissionais com as estudantes.
Desde sua criação, em 2018, o Mulheres Aprendendo Inglês informa ter impactado mais de 600 alunas no Maranhão e em outras regiões do país. A iniciativa oferece aulas regulares, mentorias, atividades comunitárias e vagas afirmativas com valores sociais, buscando ampliar o acesso ao idioma entre mulheres historicamente afastadas dessas oportunidades. As fundadoras informaram ainda que as matrículas para o segundo semestre estão abertas e que o projeto segue disponível para estabelecer novas parcerias e desenvolver ações em comunidades maranhenses.
[Veja a entrevista de Dayane Brito, fundadora do Mulheres Aprendendo Inglês (MAI), e Vitória Martins, diretora de Criação & Projetos da escola, em entrevista ao programa Dedo de Prosa.]