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Povo Akroá-Gamella garante suspensão de obras da Equatorial em território indígena

Povo Akroá-Gamella enfrenta uma luta coletiva diante de um conflito que se arrasta há mais de uma década no Maranhão.

A mobilização do povo Akroá-Gamella resultou na suspensão das obras de expansão da Linha de Transmissão Miranda–Três Marias, da empresa Equatorial Maranhão, dentro da Terra Indígena Taquaritiua. O território está localizado nos municípios de Viana, Matinha e Penalva, na Baixada Maranhense.

A paralisação foi determinada por decisão liminar do Supremo Tribunal Federal (STF).

A medida é fruto de uma longa trajetória de resistência do território, que denunciava a realização das obras sem consulta prévia, livre e informada — direito assegurado pela Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). De acordo com as lideranças indígenas, o licenciamento ambiental na esfera federal também não estava adequado.

Para o povo Akroá-Gamella, a decisão representa uma conquista coletiva diante de um conflito que se arrasta há mais de uma década. “Essa luta não começou agora. Desde 2014 denunciamos a forma como essa obra foi imposta, sem diálogo, sem respeito e sem comprovação dos riscos que a empresa alegava”, afirmou Kum’tum Akroá Gamella, integrante do Conselho do Povo Akroá-Gamella.

O representante do Conselho do Povo Akroá-Gamella esteve no programa Dedo de Prosa, da Agência Tambor, para tratar do caso.

[Veja a entrevista na íntegra ao final desta matéria.]

Segundo ele, a Equatorial Maranhão sempre justificou a intervenção com a suposta ameaça de colapso no fornecimento de energia, argumento que nunca foi tecnicamente comprovado. “Já se passaram quase 11 anos e esse colapso nunca aconteceu. O que aconteceu foi a destruição do nosso território”, disse.

As denúncias feitas pela comunidade incluem desmatamento, degradação dos campos naturais, assoreamento de rios e impactos diretos sobre áreas consideradas sagradas. Para os Akroá-Gamella, os danos vão além do ambiental e atingem o próprio modo de existência do povo.

“O rio é sagrado. Ele organiza nossa vida, nossas relações e a dimensão espiritual do nosso povo. Não é possível falar em desenvolvimento ignorando isso”, destacou Kum’tum. Segundo ele, a destruição desses espaços compromete a memória ancestral e o equilíbrio entre as gerações.

A resistência no território incluiu mobilizações, denúncias públicas e ações judiciais. Em dezembro do ano passado, manifestações da comunidade passaram a ser tratadas pela empresa como desobediência judicial, o que levou à solicitação de presença policial na área. Para os indígenas, tratava-se do exercício legítimo do direito à defesa do território.

“Nós nunca desobedecemos à Justiça. Pelo contrário, recorremos a ela. Defender nossa casa não é crime”, afirmou Kum’tum. Foi diante desse contexto de criminalização da luta indígena que o caso chegou ao STF.

Na decisão, o ministro Edson Fachin suspendeu os efeitos de autorizações anteriores que permitiam a continuidade das obras, reconhecendo a necessidade de ouvir os povos afetados. Para o povo Akroá-Gamella, a liminar restabelece a legalidade e reafirma direitos garantidos pela Constituição de 1988.

Mesmo sem a conclusão formal da demarcação da Terra Indígena Taquaritiua, o território é reconhecido como área de uso tradicional, o que assegura proteção constitucional. “Esse reconhecimento é fundamental para garantir nossa reprodução material, cultural e espiritual”, explicou Kum’tum.

O processo agora aguarda a análise de um agravo no Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) e o julgamento do mérito da ação. Enquanto isso, o povo Akroá-Gamella segue mobilizado.

“A decisão é uma vitória importante, mas a luta continua. Queremos ser consultados, como manda a lei, e respeitados como povo”, afirmou Kum’tum, que também destacou a importância da comunicação popular no fortalecimento da resistência.

Assista à entrevista do programa Dedo de Prosa, da Agência Tambor, com Kum’tum Akroá Gamella, integrante do Conselho do Povo Akroá-Gamella, sobre os impactos da obra e o significado político da decisão.

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