Pastora evangélica Marta Lece alerta sobre interpretações religiosas que associam a mulher à submissão e colaboram com o silenciamento diante de agressões (Imagem: Acervo de rede) Interpretações religiosas que associam a mulher à submissão, discursos que responsabilizam esposas pela manutenção da família e aconselhamentos para que vítimas permaneçam em casamentos abusivos podem contribuir para prolongar situações de violência doméstica. A denúncia é da pastora evangélica Marta Lesse, que critica a forma como parte das comunidades cristãs trata mulheres que procuram ajuda após sofrer agressões.
Durante entrevista ao programa Papo de Crente, em meio às mobilizações do Agosto Lilás, a pastora afirmou que o problema não está na fé cristã, mas na utilização de determinadas interpretações religiosas para justificar relações desiguais de poder entre homens e mulheres. Segundo ela, esse ambiente pode dificultar tanto o reconhecimento da violência quanto a decisão de denunciar o agressor.
“A mulher é ensinada dentro da igreja a ser submissa”, afirmou Marta Lesse em entrevista ao programa Papo de Crente, transmitido pelo canal do Youtube da Agência Tambor. Para a pastora, determinadas pregações reforçam a ideia de que cabe às mulheres sustentar emocionalmente a família, cuidar do marido e dos filhos e assumir a responsabilidade até mesmo pelos conflitos provocados por outros integrantes da casa.
[Veja a entrevista na íntegra ao final desta matéria.]
Marta usa uma imagem forte para descrever essa responsabilização. Segundo ela, quando o marido ou os filhos apresentam algum problema, muitas mulheres são ensinadas a acreditar que precisam aumentar suas próprias orações e sacrifícios. “Toda a estrutura da casa é jogada nas costas da mulher”, criticou. “E não é isso que o Evangelho prega, não é isso que o Evangelho mostra para a mulher.”
Quando a fé vira instrumento de silêncio
Um dos pontos mais contundentes da entrevista aparece quando Marta descreve o que pode acontecer depois que uma mulher religiosa começa a reconhecer que vive uma relação violenta. Segundo a pastora, muitas vítimas não procuram inicialmente uma delegacia ou os serviços especializados. Buscam primeiro a liderança espiritual em quem aprenderam a confiar.
O problema, afirma Marta, surge quando esse aconselhamento transforma a manutenção do casamento em obrigação religiosa, mesmo diante da violência. “Convence essa mulher que, para ela receber o pedacinho de céu, a casinha dela de ouro, a ruazinha dela de ouro, ela tem que sofrer aqui na terra”, relatou. Para ela, associar sofrimento e recompensa espiritual pode contribuir para manter a vítima dentro de uma situação abusiva. “A mulher, para salvar a sua família, ela tem que sofrer aqui na terra. E não é isso que Deus mostra, não é isso que Jesus quer para nós.”
A pastora também dirige uma crítica às lideranças religiosas que negam publicamente a existência ou a gravidade da violência doméstica entre mulheres evangélicas. Na avaliação dela, desacreditar relatos e pesquisas sobre o problema não atinge apenas as vítimas: também produz uma mensagem perigosa para quem pratica a violência.
“Quando ele vem e desmente, ele está simplesmente dizendo para o agressor: ‘Continue porque você está certo’”, afirmou. Marta argumenta que essa postura torna ainda mais difícil convencer uma mulher a procurar proteção quando a própria liderança religiosa que ela reconhece como autoridade minimiza a violência ou não toma providências diante do relato.
A pastora resume essa disputa dentro do próprio ambiente religioso em outra fala direta: “São poucas vozes que querem mostrar para essas mulheres que elas não precisam sofrer. E muitas vozes dizem para essa mulher que ela precisa sofrer para salvar sua família.” Para Marta, romper esse padrão exige que as comunidades de fé deixem de colocar a preservação do casamento acima da integridade da mulher e passem a atuar como espaço de acolhimento e encaminhamento para a rede de proteção.
Denúncia precisa encontrar proteção
Durante a entrevista, Marta defendeu de forma direta que mulheres vítimas de violência procurem os serviços especializados, mesmo quando não encontram apoio dentro da comunidade religiosa. “Ela tem que procurar a delegacia quando está sendo agredida. Ela tem que ligar para o 180. Ela tem que ir para a delegacia de mulheres”, afirmou.
Mas, para a pastora, a denúncia sozinha não encerra o problema. Ela também criticou a falta de acompanhamento depois que a mulher procura ajuda e destacou o risco enfrentado por vítimas que precisam retornar ao mesmo ambiente em que está o agressor. “Nós precisamos de um atendimento mais humanizado, nós precisamos de acompanhamento depois da violência”, disse. “A gente sofre a violência, vai para a delegacia e depois volta para aquele lugar onde a pessoa que nos agrediu está lá.”
Ao final da entrevista, Marta ampliou a defesa de uma rede de solidariedade entre mulheres para além das diferenças religiosas. “Não importa quem essa pessoa seja”, afirmou, ao rejeitar distinções entre mulheres evangélicas e aquelas de outras religiões ou condições sociais. “Nesse momento nós temos que nos unir. Nós só queremos parar de morrer.”
Para Marta, as comunidades de fé têm responsabilidade nesse enfrentamento justamente porque muitas mulheres recorrem primeiro a esses espaços quando vivem uma situação de violência. A mudança, na avaliação da pastora, passa por questionar interpretações que naturalizam a submissão feminina, acolher quem decide romper uma relação abusiva e abandonar qualquer discurso que transforme violência, medo e sofrimento em dever religioso.
[Assista a entrevista da pastora evangélica Marta Lece ao programa Papo de Crente, transmitido pelo canal do Youtube da Agência Tambor.]