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Não é chuva! É degeneração do poder público e violência das empresas que provocam alagamentos em São Luís

A Universidade Federal do Maranhão: alagamento invadiu as salas (Imagem: Acervo Rede Social)

Os alagamentos recorrentes em São Luís não são resultado direto das chuvas, mas de um modelo de ocupação urbana marcado por falhas de planejamento, pressão de interesses econômicos e ausência de infraestrutura adequada. A avaliação é da geógrafa Quésia Duarte da Silva, professora da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), que aponta responsabilidade direta do poder público na condução do problema.

Segundo a pesquisadora, a expansão desordenada da cidade, aliada à fragilidade na fiscalização e execução de políticas urbanas, tem ampliado os impactos sobre a população. O cenário se repete em toda a Ilha de São Luís e afeta, de forma crescente, o cotidiano de quem vive e circula na região metropolitana.

“A culpa não é da chuva. Os alagamentos estão muito mais relacionados à forma como ocupamos o espaço urbano e à ausência de planejamento adequado”, afirmou Quésia Duarte, em entrevista ao programa Dedo de Prosa.

[Veja a entrevista na íntegra ao final desta matéria.]

Cidade cresce sob lógica de mercado, não de planejamento

A professora chama atenção para o papel da construção civil nesse processo. Segundo ela, a proliferação de empreendimentos sem critérios ambientais tem avançado sobre áreas sensíveis, como zonas planas e regiões com função natural de drenagem. “Há uma submissão do poder público a interesses econômicos que resultam na expansão de condomínios e obras que desconsideram a dinâmica ambiental da cidade”, afirmou.

Esse modelo de crescimento intensifica a impermeabilização do solo. Com a retirada da cobertura vegetal e a substituição por asfalto e estruturas cimentadas, a água da chuva deixa de infiltrar e passa a se acumular na superfície. “Quando impermeabilizamos o solo, aumentamos diretamente a possibilidade de alagamentos, porque impedimos o escoamento natural da água”, explicou.

Lei existe, mas o poder público ignora

A responsabilidade, no entanto, não se limita à ocupação urbana. Quésia destaca que há falhas estruturais persistentes na gestão pública, desde o planejamento até a execução das obras. “Nós temos legislação avançada, mas ela não é cumprida. Falta fiscalização, falta prioridade e, muitas vezes, o próprio poder público desrespeita essas normas”, disse.

Entre os problemas mais visíveis está a deficiência da infraestrutura de drenagem. Em diversas áreas da cidade, faltam elementos básicos como bocas de lobo, galerias e sistemas de escoamento. Quando existem, muitas vezes estão obstruídos por resíduos sólidos. “É comum encontrar ruas inteiras sem qualquer estrutura de drenagem. E quando há, o sistema é precário ou está entupido”, afirmou.

Os impactos desse cenário não são distribuídos de forma igual. A pesquisadora aponta um padrão de desigualdade que penaliza principalmente as áreas periféricas. “A população não é atendida de forma igual. As melhores estruturas urbanas chegam às áreas de maior renda, enquanto as periferias concentram os maiores problemas”, disse. Ainda assim, ela ressalta que os alagamentos já atingem praticamente toda a cidade, ainda que muitos casos não sejam notificados.

Os impactos desse cenário não são distribuídos de forma igual, e seguem um padrão de desigualdade que penaliza principalmente as áreas periféricas. (Imagem: Acervo Rede)

Dados da Defesa Civil indicam ao menos 45 pontos com risco de alagamento em São Luís, incluindo áreas como Mercado Central, Lagoa da Jansen e trechos da Estrada de Ribamar. Para a professora, o número real é maior e inclui dezenas de bairros fora das estatísticas oficiais.

Ao final da entrevista, Quésia Duarte defendeu a necessidade de repensar o modelo de cidade e reforçou o conceito de direito à cidade como eixo central do debate. “Nós temos direito a uma vida urbana de qualidade, mas esse direito tem sido negado. É preciso cobrar, participar e exigir que os investimentos atendam ao interesse coletivo”, concluiu.

[Veja a entrevista da geógrafa Quésia Duarte da Silva, professora da UEMA ao programa Dedo de Prosa.]

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