A 2ª Plenária e Marcha Popular de Defesa dos Direitos do Povo acontece em São Mateus do Maranhão na busca transformar denúncias dispersas em pautas coletivas. O aumento dos conflitos territoriais, das denúncias de degradação ambiental e da precarização de serviços públicos em diferentes regiões do Maranhão tem levado movimentos sociais, sindicatos e organizações populares a fortalecer articulações conjuntas em defesa dos direitos de trabalhadores urbanos, comunidades rurais e povos tradicionais.
Os Fóruns e Redes de Cidadania do Maranhão (FRC), articulação que reúne organizações populares do campo e da cidade, avaliam que problemas como grilagem de terras públicas, pulverização aérea de agrotóxicos, criminalização de lideranças sociais, ausência de concursos públicos e dificuldades de acesso a políticas públicas têm se repetido em diversas partes do estado, atingindo principalmente comunidades rurais, povos tradicionais e trabalhadores que dependem diretamente do acesso à terra, à água e aos serviços públicos.
FRC aposta na unidade das lutas
É nesse contexto que organizações sociais, sindicatos e movimentos populares têm buscado fortalecer espaços coletivos de debate e mobilização. A avaliação das lideranças é que a defesa de direitos exige articulação permanente entre diferentes categorias e segmentos da sociedade.
Uma das iniciativas voltadas para essa articulação é a 2ª Plenária e Marcha Popular de Defesa dos Direitos do Povo, realizada pelos Fóruns e Redes de Cidadania do Maranhão. A atividade busca transformar denúncias dispersas em pautas coletivas capazes de pressionar o poder público e ampliar a visibilidade de problemas enfrentados por trabalhadores, comunidades tradicionais e moradores de diferentes regiões do estado.
Segundo os organizadores, a marcha e a plenária fazem parte de um processo mais amplo conduzido pelo FRC, que busca aproximar sindicatos, movimentos sociais, associações comunitárias e organizações populares em torno de pautas comuns relacionadas aos direitos do povo maranhense.
“Queremos trazer às claras aquilo que realmente o povo sofre no dia a dia”, afirmou o advogado Iriomar Teixeira, dos Fóruns e Redes de Cidadania do Maranhão, em entrevista ao programa Dedo de Prosa. Segundo ele, muitas das violações enfrentadas por comunidades rurais e trabalhadores permanecem invisibilizadas no debate público.
[Veja entrevista na íntegra ao final desta matéria.]
De acordo com o advogado, o avanço da fronteira agrícola sobre áreas ocupadas por comunidades tradicionais tem ampliado conflitos no campo e agravado problemas ambientais. Entre as denúncias citadas estão expulsões de famílias, contaminação de rios e igarapés por agrotóxicos e ameaças a modos de vida tradicionais ligados à pesca, ao extrativismo e à agricultura familiar.
“A expansão desse modelo de desenvolvimento tem atingido diretamente comunidades camponesas, quilombolas, indígenas, quebradeiras de coco e pescadores”, afirmou. Na avaliação do dirigente, os impactos não se restringem à questão fundiária, mas afetam também a segurança alimentar e a permanência das populações em seus territórios.
Construção de uma agenda comum
Outro tema destacado durante a entrevista foi a necessidade de ampliar a articulação entre diferentes setores da classe trabalhadora. Para os participantes, muitas das dificuldades enfrentadas por trabalhadores urbanos e rurais possuem origens semelhantes e exigem respostas coletivas.
Presidente do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de São Mateus do Maranhão (SINDSEMA), José Martins Bandeira avalia que sindicatos e movimentos populares ainda enfrentam o desafio de superar o isolamento histórico das lutas sociais.
“Nós estamos buscando romper com esse isolamento. Muitas vezes cada categoria luta sozinha e isso favorece quem está do outro lado. Precisamos construir uma agenda comum em defesa dos direitos da população”, disse ao programa Dedo de Prosa.
Segundo ele, a precarização também alcança os serviços públicos. O dirigente sindical denunciou a falta de concursos públicos, a ampliação das contratações temporárias e a deterioração das condições de trabalho em setores como saúde e educação.
São Mateus como retrato dos desafios
Durante a entrevista, São Mateus do Maranhão foi apresentado como um exemplo das contradições vividas por diversos municípios maranhenses. Embora a região seja frequentemente associada ao crescimento da produção agrícola, lideranças locais afirmam que parte da população continua convivendo com problemas estruturais relacionados à infraestrutura, mobilidade urbana e acesso a serviços públicos.
Os entrevistados também apontaram impactos ambientais associados ao avanço das atividades agrícolas na região. Segundo os relatos, rios, lagos e igarapés vêm sofrendo pressão crescente, comprometendo atividades tradicionais de pesca e a subsistência de comunidades ribeirinhas.
Além das questões ambientais e territoriais, foram citados problemas relacionados às obras da BR-135 que atravessa o município. De acordo com os participantes, a intervenção alterou a circulação de moradores e criou dificuldades de deslocamento para parte da população.
Para os participantes da mobilização, a defesa dos direitos territoriais, ambientais e sociais depende da capacidade de construir agendas comuns entre trabalhadores do campo e da cidade, diante de problemas que se repetem em diferentes regiões do Maranhão.
“Nosso grande desafio é fazer com que as pessoas compreendam que estão na mesma luta e enfrentam problemas que têm uma mesma origem”, afirmou Iriomar Teixeira. “A defesa da dignidade, da justiça social e dos direitos do povo precisa ser construída de forma coletiva.”
[Veja a entrevista de José Martins Bandeira, presidente do SINDSEMA, e Iriomar Teixeira, dos Fóruns e Redes de Cidadania do Maranhão ao programa Dedo de Prosa.]