Diante da circulação de conteúdos imprecisos e imagens alteradas nas redes sociais, coletivo surge com a proposta de preservar e defender a memória e o patrimônio cultural maranhense. Vista do Desterro, Centro de São Luís, décadas de 1930 e 1940. (Imagem: @slzmemoria) O lançamento do Coletivo Memórias Maranhenses nas Redes reacendeu o debate sobre preservação histórica, uso de inteligência artificial e circulação de desinformação nas plataformas digitais. Formado por historiadores, pesquisadores e produtores de conteúdo, o grupo pretende atuar como espaço de articulação em defesa da memória e do patrimônio cultural maranhense, além de denunciar distorções históricas em imagens e vídeos sobre São Luís disseminados nas redes sociais.
“O coletivo surge com essa missão de levar a história pública para as pessoas e fazer o debate público sobre memória e patrimônio”, afirmou o historiador e jornalista Marcus Saldanha, integrante do grupo.
A entrevista foi concedida ao programa Dedo de Prosa, da Agência Tambor, nesta quarta-feira (13). Segundo Marcus, embora o coletivo tenha sido lançado oficialmente na segunda-feira (11), em São Luís, os integrantes já vinham se reunindo há cerca de um ano para discutir memória, patrimônio histórico e produção de conteúdo digital.
[Veja a entrevista na íntegra ao final desta matéria.]
O grupo reúne perfis já conhecidos nas redes sociais, como “Minha Velha São Luís”, “São Luís Memória”, “Marcos Histórico” e “Feira do João Paulo”. A proposta, segundo o historiador, é manter a identidade de cada página, mas criar uma atuação conjunta em pautas relacionadas à preservação histórica e ao combate à desinformação.
Durante a entrevista, Marcus criticou a proliferação de conteúdos produzidos apenas para gerar engajamento, sem compromisso com pesquisa histórica ou verificação de informações. Segundo ele, muitos vídeos e imagens viralizam nas redes sociais mesmo contendo erros graves sobre a cidade e seu patrimônio. “Às vezes o vídeo que tem mais acesso se sobrepõe ao que tem melhor conteúdo. E nem sempre quem está navegando consegue fazer esse discernimento”, afirmou.
Uma das principais preocupações do coletivo é o uso indiscriminado de inteligência artificial para modificar imagens antigas de São Luís. Marcus relatou casos em que fotografias históricas foram alteradas sem qualquer contextualização ou cuidado técnico. “Tem gente fazendo vídeos em que o bonde aparece em ruas onde nunca houve linha de bonde. Isso gera desinformação e descaracteriza a memória histórica”, disse.
O historiador afirmou que o coletivo não é contrário ao uso de IA, mas defende critérios rigorosos e transparência na utilização dessas ferramentas. “Uma imagem deteriorada pode ser restaurada e isso é positivo. O problema é quando a alteração vira uma nova versão da história e o público não consegue identificar o que é original e o que foi manipulado”, explicou.
Outro ponto levantado por Marcus foi a ausência de crédito às fontes históricas utilizadas em conteúdos digitais. Segundo ele, muitos perfis copiam fotografias e textos produzidos por pesquisadores sem citar arquivos, bibliotecas ou autores. “Quando a gente publica um conteúdo, aquilo vem de pesquisa em documentos, jornais, teses e acervos. Não é algo tirado da cabeça. Existe um caminho científico”, afirmou.
Além da atuação nas redes sociais, o coletivo também pretende ampliar denúncias sobre abandono e descaracterização de patrimônios históricos no Maranhão. Durante a entrevista, Marcus citou casos em cidades como Alcântara, Cururupu, Pinheiro, Caxias e Viana. “A memória vai indo embora. Então é preciso um posicionamento coletivo também em relação às ruínas e à destruição do patrimônio”, declarou.
O grupo também defende uma visão mais ampla de patrimônio cultural, para além do Centro Histórico de São Luís. Segundo Marcus, bairros populares e periferias também carregam histórias fundamentais da cidade. “Cidade Olímpica é memória. João Paulo é memória. A história não está só nos casarões”, afirmou.
O Coletivo Memórias Maranhenses nas Redes informou que pretende realizar oficinas, rodas de conversa e atividades em escolas e universidades. O próximo compromisso do grupo será uma participação em encontro sobre patrimônio e memória na UNDB, no dia 26 de maio.
Veja a entrevista do historiador e jornalista Marcus Saldanha, integrante do Coletivo Memórias Maranhenses nas Redes, ao programa Dedo de Prosa.