Bar da Hora tem localização estratégica, entre o Farol de Mandacaru e a foz do rio Preguiças, em Atins, na Rota das Emoções. (Foto: Ed Wilson Araújo) * Por Ed Wilson Araújo
A uma hora e meia de Barreirinhas, navegando pelo rio Preguiças, nos Lençóis Maranheses, tem um povoado charmoso, acolhedor e rodeado de encantarias.
Contam os moradores que, nos tempos antigos, havia ali uma pequena mercearia ou quitanda funcionando noite e dia. Quando os pescadores precisavam de mantimentos, encostavam para abastecer as embarcações antes de encarar o mar aberto. E como o estabelecimento era full time, batizaram de Bar da Hora. A parada era também um momento de pedir proteção aos navegantes.
O nome ainda faz jus a uma gíria maranhense utilizada para qualificar situações fáceis de agilizar ou resolver. Dizer que alguém ou um lugar é “da hora” significa solução, vibrações positivas, coisa boa…

Bondade é pouco para descrever o povoado e a sua hospitalidade. O lugarejo tranquilo está localizado no território de Atins, mas preservado das pousadas sofisticadas e ressorts caríssimos. As acomodações em Bar da Hora têm preços justos, adaptados ao bolso do visitante em busca de paz, alimentação saudável e boas práticas do Turismo de Base Comunitária (TBC).
Na pousada Ingapura, o único “corre” é feito por Renato Amorim, o cara que resolve os passeios de barco e cuida de muitos afazeres, além de bater papo sobre as curiosidades do lugar e da vida em geral, compartilhados também por Patrícia Nunes, que prepara um delicioso café da manhã servido na varanda com vista para o rio Preguiças. Ela ainda utiliza as sobras dos alimentos na compostagem, gerando adubo orgânico.
Patrícia aproveita as folhagens e cascas na composteira. Imagens: Ed Wilson Araújo.
O que fazer?
Bar da Hora é uma das maravilhas da Rota das Emoções, circuito de turismo que conecta 14 municípios e três grandes polos: Jericoacoara, no Ceará; o Delta do Parnaíba, no Piauí; e os Lençóis Maranhenses. O lugarejo tem cerca de 100 casas e 600 moradores sem pressa de “crescer” na lógica do turismo “industrial”. A sobrevivência gira em torno da pesca artesanal, pequeno comércio, cultura ancestral e sustentável. É um lugar para compartilhar os saberes e as práticas de vida dos pescadores, artesãos, ambientalistas e idealizadores de arranjos produtivos do empreendedorismo ambiental.
Uma das opções é o Passeio pelos Quintais Produtivos, guiado por Jamerson Lindoso Pereira pelas ruas de areia fofa e terreiros, apreciando a vida simples e os experimentos sustentáveis.

A primeira parada é na Casa Novo Horizonte, onde mora o guia Jamerson Pereira. Ele detalha a filosofia do TBC, as práticas de escambo (troca de produtos orgânicos e mantimentos) entre os moradores e a produção de adubo. A compostagem feita com sobras de alimentos (folhagens e cascas de ovo) em uma caixa d’água é outro atrativo especial, bem como a produção de biofertilizante com aproveitamento do esgoto doméstico.
Já no restaurante Grelhado é possível conhecer o biodigestor à base de esterco de gado transformado em adubo orgânico, utilizado na horta que fornece verduras fresquinhas para temperar os alimentos. Além disso, o gás do biodigestor alimenta os fogões na cozinha.
A implantação do biodigestor foi viabilizada pelo Projeto Agronordeste, coordenado pelo governo federal, através do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), em parceria com o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), que forneceu consultoria técnica. “O biodigestor tornou-se uma referência importante dentro da experiência turística do Bar da Hora, sendo apresentado aos visitantes como exemplo de tecnologia sustentável aplicada à realidade comunitária, alinhando preservação ambiental, produção local e turismo consciente”, pontuou David Felipe Amorim Pereira, gerente do Sebrae Maranhão na Unidade Regional Lençóis-Munim.
Outra experiência sustentável é a Fábrica de Vassouras Ecológicas Artistas Bardahorenses, um empreendimento coletivo formado por 11 integrantes, liderado por mulheres, fruto da organização e do engenho criativo dos moradores do povoado, vinculados à Associação dos Moradores e Pescadores do Povoado Bar da Hora. As vassouras são produzidas com garrafas PET doadas ou recolhidas no mar, quando descartadas irregularmente no território de Atins. Com uma técnica simples, transformam resíduos plásticos em fonte de renda. O galpão da fábrica foi construído em regime de mutirão e as próprias mulheres meteram a mão na massa, enfatizam Ângela Maria Silva e Elciane Santos, responsáveis pelo empreendimento, que também teve apoio do Sebrae, através de consultoria e treinamento, potencializando a organização já existente no povoado e as práticas culturais locais de educação ambiental. Cada vassoura recicla 22 garrafas de dois litros. O valor unitário da venda é R$ 25,00.

Mineiros, morando em Santa Catarina, o casal Luana e Leonardo, acompanhados da versátil filha Lavínia, de seis anos, chegaram ao Bar da Hora em busca de vivências e interações com as coisas simples da vida, distintas do turismo badalado.
“Estar no povoado Bar da Hora nos possibilitou adentrar a cultura local e conhecer além das belezas naturais do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses. O ambiente é permeado de calor humano, simplicidade e uma beleza surreal. A gente se desconecta de cronos para vivenciar o ritmo do sol, da lua, das marés… Eu desejo que a comunidade local se mantenha firme no modelo de TBC, seja vista pelo poder público e amparada nas suas necessidades, sem perder sua essência”, resume Luana.

Existem ainda os opcionais de passeios para assistir à espetacular revoada dos guarás (pássaros de penugem vermelha, típicos do manguezal abundante na região), fazer pesca artesanal em canoas tradicionais e remada de caiaque.
Se o visitante quiser fazer uma caminhada hard, vale encarar o percurso até o vizinho povoado Mandacaru, e, depois da trilha, caso tenha fôlego, subir os 160 degraus do farol e ter um êxtase: contemplar a vista deslumbrante de uma parte preciosa dos Lençóis Maranhenses.
Fique ligado no horário. O Farol do Mandacaru é aberto à visitação somente até 17h. No entorno há também bancas de comidinhas, sorveteria e lojas de produtos regionais.
Culinária raiz
Para comer bem, a preços justos, Bar da Hora oferece três restaurantes. No “Panela Cheia”, pilotado por Ernestina Gomes de Oliveira, vale experimentar arroz de cuxá e peixe grelhado. Depois, sobremesas de doce de caju ou banana.
Cuxá, iguaria típica da culinária dos povos originários, é feito com vinagreira (hibisco), gergelim, camarão seco e outros temperos regionais. Na casa, recomenda-se a visada para a arquitetura da mureta, utilizando garrafas de vidro no complemento da alvenaria.
Em Bar da Hora é possível observar também as ações do governo federal chegando nos lugares mais remotos. Olhando o futuro, o empreendimento de Ernestina Oliveira estuda opções de financiamento do Banco do Nordeste do Brasil (BNB) para construir uma pousada.

Neusa comemora os resultados do biodigestor: adubo para a horta e gás na cozinha. Foto: Ed Wilson Araújo
Já o restaurante “Grelhado”, aquele, do biodigestor, tem também três quartos de hospedagem. O visitante pode apreciar a horta viçosa antes de saborear um arroz de couve com peixe frito, tomar um café “da hora” e descansar no redário, sob um barracão de palha, ventilado pela brisa do rio Preguiças.
O negócio completou 10 anos, administrado por Neusa Oliveira Pires. Antes, ela trabalhava como pescadora e cozinheira, durante seis anos, em bares do balneário Caburé, do outro lado do rio. Ela conta que os turistas passavam direto de Barreirinhas para Atins, mas aos poucos os moradores de Bar da Hora foram buscando parcerias com as agências, o Sebrae, a Embrapa e o Curso de Turismo da UFMA, através da professora Monica de Nazaré Araújo, uma referência em TBC.

Lugar de encantarias
A “Toca do Caranguejo”, administrada pela família de Pedro Pires dos Santos, o “Pedão”, oferece um delicioso camarão frito ao alho e óleo. Se der mais sorte, o cliente pode saborear o prato no meio da rua, com os pés enfiados na areia branca e macia, em noite de lua cheia, batendo um papo com o dono do estabelecimento.
“Pedão” tem 51 anos de idade e várias profissões: pedreiro, carpinteiro, eletricista, encanador, pintor, mestre de obras, pescador e cozinheiro. Ele aprendeu algumas artes da culinária com o lendário e memorável “Paturi”, um dos pioneiros do turismo em Barreirinhas. Depois do camarão frito, o antitrião oferece uma deliciosa bebida à base de gengibre, que diz ter poderes especiais, mas a receita é guardada em absoluto segredo.
Além da beberagem mágica, Bar da Hora guarda outros mistérios, como a morraria encantada em formato de cabeça de cuia, visada do outro lado do rio Preguiças. “O encantado é uma força”, sintetiza o guia Jamerson Pereira.

Reconhecimento nacional
Pelo conjunto da obra, em 2024 o Bar da Hora ganhou o Prêmio Braztoa de Sustentabilidade, concedido pela Associação Brasileira das Operadoras de Turismo, um dos mais importantes do setor, em reconhecimento ao trabalho coletivo dos moradores e empreendedores do povoado. Nesse mesmo ano, a comunidade também foi contemplada no 8º Prêmio Cazumbá de Turismo e Cultura, na categoria Turismo Sustentável.
Já em 2025 obteve o 2º lugar no Prêmio Nacional de Turismo, na categoria Turismo de Base Comunitária. Promovido pelo governo federal, através do Ministério do Turismo (MTur), o evento valoriza arranjos produtivos exitosos em sustentabilidade.
Ação colaborativa e transparente
A Associação dos Moradores e Pescadores do Povoado Bar da Hora é mantida por uma poupança coletiva denominada Fundo Comunitário do Turismo, abastecido por doações de moradores, pousadas, turistas, comerciantes locais, proprietários de canoas e agências de viagens locais e nacionais, entre outros colaboradores.
Regularmente, ocorre a divulgação de um relatório e dos extratos da conta bancária, contendo os registros das doações e dos investimentos em ações e obras no povoado. Segundo os documentos divulgados, as colaborações nos últimos cinco anos variam de R$ 15,00 a 367,00. A arrecadação, explica Jamerson Pereira, retorna em benefícios à comunidade.
A transparência na gestão dos recursos ocorre em reuniões presenciais e pelo compartilhamento das prestações de contas na palma da mão, por aplicativo de mensagens. “Atenção comunidade bardahorense e apoiadores do TBC. Passando para compartilhar as nossas prestações de contas do mês de dezembro de 2025, do nosso Fundo Comunitário do Turismo, do Projeto Social do Reforço Escolar Creche e também da reforma do prédio da nossa associação. De já agradecemos carinhosamente a cada pessoa que se mobilizou para apoiar as nossas ações. Por favor, verifique os dados com atenção e caso encontre algum erro ou fique com alguma dúvida, nos avise imediatamente”, diz um dos comunicados na lista de transmissão do app.

Além da arrecadação de dinheiro, as doações abrangem material de construção, combustível para veículos utilizados em ações sociais e obras, alimentos doces e salgados para confraternizações coletivas, ajuda para mão de obra nos trabalhos de construção civil e mutirões, entre outros.
Treinamento e sensibilização
Para chegar a esse nível de administração, houve investimento em capacitações e na potencialização das qualidades das pessoas e empreendimentos envolvidos no TBC. Em abril de 2026, a Jornada Empreendedora do Sebrae realizou várias atividades multidisciplinares sobre a organização de pequenos negócios, incluindo treinamento dos moradores em primeiros socorros para eventuais casos de afogamentos.

Com base nos documentos de prestação de contas, onde constam os doadores do Fundo Comunitário do Turismo, os povoados vizinhos Bar da Hora e Mandacaru somam 33 empreendimentos direta ou indiretamente vinculados ao TBC, desde canoas artesanais que prestam serviços aos turistas, passando por agências de viagens, lanchas motorizadas, mercearias, lojas de utilidades, pousadas, restaurantes e veículos de tração 4 x 4.
Os pequenos negócios no território ajudam a computar as estatísticas da atividade econômica do Maranhão. Segundo os dados de junho de 2026 da Receita Federal e do Data Sebrae, existem 398.500 empreendimentos formais e ativos no estado. Desse universo, 340.665 são pequenos negócios (MEIs, Microempresas e Empresas de Pequeno Porte). O município de Barreirinhas computa 3.536 unidades, lideradas pelos setores de Serviços (1.667) e Comércio (1.469), onde estão concentrados os nichos da cadeia produtiva do turismo.
Renda e trabalho na comunidade
Segundo levantamento de Maíra Matsui, fundadora e cuidadora da Casa Ingapura, entre 2022 e 2025 a pousada recebeu 546 hóspedes, contanto adultos, crianças e bebês, com permanência média de três noites, tempo suficiente para circular pelo povoado, fazer passeios, comer nos estabelecimentos locais e vivenciar o território. “Em termos de receita direta, a hospedagem movimentou aproximadamente R$ 165,8 mil no período mencionado”, detalha.
Ela avalia que a hospedagem funciona como porta de entrada econômica porque “atrai o visitante, mas parte importante do dinheiro circula fora dela: nos restaurantes, com os barqueiros, nos passeios e nas experiências conduzidas por moradores”, enfatiza Matsui.
A Manancial Turismo, por exemplo, atua no território desde 2019. Atualmente, a empresa tem cinco lanchas motorizadas, uma caminhonete e a pousada Casa Amarilis. Segundo o proprietário, José da Conceição Santos Araújo, o Zeca, a prestação de serviço inclui receptivo no aeroporto de São Luís, transporte rodoviário para Barreirinhas, deslocamento fluvial até Bar da Hora e os passeios no Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses.
Estudos científicos
O Turismo de Base Comunitária (TBC), fundamentado no desenvolvimento sustentável, é o foco dos estudos teóricos e do trabalho de campo da pesquisadora Monica de Nazaré Ferreira de Araújo, uma das autoras do artigo “Mudanças climáticas: o olhar da comunidade pesqueira Bar da Hora em Barreirinhas, Maranhão”, em parceria com a doutora Thays Regina Rodrigues Pinho, ambas professoras do Curso de Turismo da Universidade Federal do Maranhão (UFMA).
O texto integra o livro “Mudanças climáticas e turismo”, editado pelo Programa de Pós-Graduação em Geografia Humana da FFLCH/USP e apresenta uma série de resultados que refletem a visão crítica dos moradores de Bar da Hora sobre o avanço do mar no povoado, as alterações de temperatura, a redução da quantidade de peixes e o lixo produzido no território Atins.
Outro trabalho científico é o TCC intitulado “Organização social e turismo de base comunitária: análise dos povoados Bar da Hora e Mandacaru situados na zona de amortecimento do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses”, de Maria Amanda de Vasconcelos (UFMA), sob orientação da professora Monica Araújo. A pesquisa, finalizada em 2025, levantou as oportunidades e obstáculos comuns às duas comunidades, como as pressões ambientais, a dependência de políticas públicas e as dificuldades de acesso a recursos financeiros, mas revelou que a concepção de TBC está mais consolidada em Bar da Hora.
Passar alguns dias na comunidade, sentindo as boas práticas de relação com o meio ambiente, produz a sensação de que o lugar é um laboratório de vivências sobre como salvar o planeta.
Sentado em um banquinho de madeira, no fim de tarde, à margem do rio Preguiças, um homem velho olha o mar. Grisalho, de pele queimada e rugas cavadas entre as sobrancelhas, aprecia com tranquilidade o vai e vem de lanchas motorizadas velozes, indo e vindo, transportando turistas entre a sede do município de Barreirinhas e o badalado point de Atins.
Quando perguntado sobre as coisas do lugar, resumiu: “Siô, o Bar da Hora é outra estória”
COMO CHEGAR
- São Luís – Barreirinhas
- Carro (em média 3 horas e meia de viagem)
- Ônibus: Terminal Rodoviário de São Luís: empresas Guanabara ou Cisne Branco (em média 5 horas de viagem)
- Van e microônibus: diversas opções e horários de traslado
- Barreirinhas – Bar da Hora
- Lancha (voadeira): em média 1 hora e meia de viagem (reservar com antecedência os dias e horários)
- Carro tração 4 x 4: Toyota do Caju (contato: 98 – 99147 5541)
- Veja aqui todas as opções de hospedagem, transporte e mais detalhes sobre o Bar da Hora
* Ed Wilson Araujo é jornalista e professor da Universidade Federal do Maranhão