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Povos de terreiro afirmam presença e ancestralidade em São Luís

Povos de terreiro mantêm vivas tradições, saberes e expressões de matriz africana que atravessam a história cultural de São Luís. (Imagem crédito: Reprodução/Instagram @caosinfinito)

Pela primeira vez, o Axé São Luís será realizado no palco principal da programação de aniversário da capital maranhense. Nesta sexta-feira (25), a partir das 18h, cerca de 40 pais e mães de santo participam da atividade na Cidade da Alegria, no Centro, levando ao espaço público cantigas, tambores, danças e saberes ligados às religiões de matriz africana e afro-brasileira.

Mais do que integrar o calendário cultural da cidade, a presença dos povos de terreiro no palco central é tratada pela organização como uma conquista de visibilidade e reconhecimento. Pai Paulo D’Aruanda, mestre de cultura, Babalaxé do Terreiro Nossa Senhora da Vitória – Casa de Xangô com Oxum e integrante da organização, afirma que a atividade é resultado de uma reivindicação construída ao longo dos últimos anos.

“Não estamos recebendo esmola, nós estamos num processo de reparação histórica que a cidade de São Luís tem para com os povos de terreiro”, disse ao programa Dedo de Prosa. Segundo ele, a proposta é mostrar a presença dessas comunidades na formação cultural e religiosa da cidade, sem reduzir o encontro a uma apresentação artística.

[Veja entrevista na íntegra ao final desta matéria.]

Do terreiro para o centro da cidade

O Axé São Luís chega à quarta edição. A atividade nasceu do diálogo entre lideranças de terreiro e a gestão municipal, a partir da percepção de que as comemorações do aniversário da cidade já reservavam espaços para outras tradições religiosas. Em anos anteriores, o evento passou pela Praça da Diáspora e pela Praça Maria Aragão. Em 2026, chega ao palco principal das festividades.

Para Pai Paulo, essa mudança tem peso simbólico. “Nós de matrizes africanas e afro-brasileiras vivemos também de simbolismo. O simbolismo nos mantém em pé”, afirmou. Na avaliação dele, ocupar o palco principal cria também um precedente para que a presença dos povos de terreiro não volte a ser tratada como periférica em grandes eventos promovidos pelo poder público.

O argumento vai além da programação cultural. Pai Paulo define os terreiros como espaços de cultura e de memória, responsáveis por preservar conhecimentos, práticas e referências transmitidas entre gerações. “Cultura, para nós, não é só cantar, só dançar, só tocar. Cultura faz parte desse conjunto de ideias que dão identidade aos nossos povos”, explicou.

É nesse sentido que ele entende o Axé São Luís como parte de uma disputa mais ampla por reconhecimento. Para o babalaxé, colocar pais e mães de santo no centro das comemorações públicas significa reconhecer lideranças que historicamente mantiveram vivas tradições religiosas e culturais, muitas vezes em comunidades afastadas dos espaços de maior visibilidade da cidade.

Racismo religioso ainda atravessa o cotidiano

A entrevista também colocou em discussão o racismo religioso enfrentado pelos povos de terreiro. Pai Paulo citou situações vividas em escolas, hospitais e instituições públicas para mostrar como símbolos, roupas e práticas ligadas às religiões de matriz africana ainda podem ser tratados de forma desigual.

Segundo ele, o enfrentamento passa por organização coletiva, conhecimento da legislação e cobrança de políticas públicas. Pai Paulo citou o decreto estadual 37.761, voltado à proteção dos povos e comunidades tradicionais de matriz africana no Maranhão, e defendeu que suas diretrizes sejam efetivamente incorporadas por áreas como saúde, educação, segurança e direitos humanos.

Um dos exemplos apresentados foi a cobrança de licenças para realização de festas e toque de tambores em terreiros do interior. De acordo com Pai Paulo, há casos em que lideranças pagam valores para realizar celebrações, enquanto a presença do poder público ocorre principalmente quando há denúncias relacionadas ao barulho. Ele interpreta esse tipo de situação como expressão de racismo estrutural e institucional.

“Nós estamos aqui”

Para a organização, é justamente essa invisibilidade que o encontro desta sexta-feira pretende confrontar. “Nós existimos. Nos olhem, nos vejam, nós queremos participar, porque nós construímos a cultura desta cidade”, resumiu Pai Paulo ao explicar o sentido da presença dos povos de terreiro na programação.

Ele faz questão, porém, de diferenciar a apresentação de um ritual religioso. Segundo Pai Paulo, não haverá um xirê no palco. O que será apresentado é uma manifestação cultural atravessada pela espiritualidade e pelos modos próprios com que os terreiros cantam, dançam, tocam e celebram a ancestralidade.

O Axé São Luís começa às 18h, na Cidade da Alegria, próximo à Praça da Diáspora, no Centro de São Luís. Pai Paulo convida integrantes de terreiros e o público em geral a participar usando branco e defende que a noite seja também um momento de cuidado com os mais velhos, muitos deles presentes nas comunidades tradicionais. A programação terá ainda atrações musicais convidadas, mas, para a organização, o centro da noite será a presença dos próprios povos de terreiro no palco.

[Assista a entrevista de Pai Paulo D’Aruanda, mestre de cultura, Babalaxé do Terreiro Nossa Senhora da Vitória – Casa de Xangô com Oxum, ao programa Dedo de Prosa.]

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