Bombom de Leite, como é conhecido na região, segurando uma pescada-amarela na Pedra do Peixe. (Imagem: Khumta Suya/SUMAÚMA) Por Énh Xym Akroá Gamella,
Quinta-feira, 2 da manhã. O cheiro de pitiú, odor pungente do peixe fresco, é o primeiro sentido do corpo e a primeira assinatura deste lugar. Entre a Praça do Relógio, a Feira do Açaí de um lado e a Pedra do Peixe no outro. A primeira porção da cidade a acordar enquanto o resto da Belém dorme. Na pretidão das ruas, caminhões de lixo circulam pela capital simbólica do Brasil que sediará a 30ª Conferência das Partes, a COP30. Ao amanhecer, nesta quinta-feira, 6 de novembro, líderes globais se reuniriam para a Cúpula dos Líderes, com presidentes, primeiros-ministros e ministros, que antecede oficialmente a COP30. Mas, para quem vive da feira e da Pedra do Peixe, a pauta de quem move e alimenta a cidade é outra.
Moradores em situação de rua deitam-se nas beiradas do comércio fechado. Trabalhadores descarregam cestos de açaí dos barcos que chegam pelo Rio Guamá. A vida está na água e é pela água que ela também chega. Chega em rasas de açaí, em caixas de peixes, no suor de quem carrega o peso do dia antes de o sol nascer.
Há fé ao fundo dessa belle époque brega raiz. Mas é uma fé sobrevivente. Enquanto os líderes mundiais vão discutir o colapso do clima em refrigeradas salas, a Belém das madrugadas já começou sua conferência da vida há tempos.

Bombom de Leite e o massacre do peixe
Na borda da Pedra do Peixe de Belém, um homem de 57 anos, sete filhos e 27 anos de trabalho duro revela, entre cicatrizes de cortes no rosto, o retrato de uma vida marcada por abandono, traição e sobrevivência. “Minha mulher me expulsou de casa. Trabalhava demais e ela me traía”, diz, enquanto golpeia com o terçado a cabeça de um tambaqui. “Moro embaixo de [um] caminhão. Tomo banho na rua e me deito embaixo dele [caminhão].” Quem conta é Bombom de Leite, como é conhecido na Pedra do Peixe.
A história dele se confunde com a de muitos outros “pretos, sem dente”, como define um de seus clientes. Homens que carregam nas costas o fardo de serem invisíveis até para as políticas públicas. “[A COP] é coisa de vagabundo. Vagabundo, ladrão. Só serve pra governador, presidente, prefeito. Pra nós, não serve nada”, dispara, em crítica ferina ao sistema que privilegia os “mais bonitos e mais cheirosos”, os que têm acesso.
Enquanto o cheiro de peixe se mistura ao do suor, ele conta como aprendeu a tratar o pescado “na porrada”. O diálogo, fragmentado e cheio de idas e vindas, revela uma Belém de horas brutas: “Eu não gosto, eu amo… Vai começar de novo outro massacre [de peixe]”.
No final, a despedida é tão dura quanto o contexto. “Vou começar a última matança”, anuncia. E começa.
“Aqui já vi coisa boa e coisa ruim”, ainda diz. Mas, neste país, parece que só a segunda é a que sobra para os que estão debaixo do caminhão.

Mijo 2 reais, banho 4
Em meio as rasas de açaí, um bloco quadrado. Rosicleide Amaral, de 44 anos, é a cobradora desse pequeno banheiro em meio à feira. Cobra 2 reais pelo uso do vaso e 4 reais pelo banho.
“Tiro aqui uns 100 reais por dia, um dia sim, um dia não”, conta, enquanto o movimento noturno esquenta. São 12 horas de plantão, das 19h30 às 7h30, num turno que a faz cruzar a madrugada. “Graças a Deus, são todos respeitadores”, garante, quando questionada sobre o fato de ser uma mulher cercada de homens.
A vida ali é recente. Está há dois meses no posto. O filho de 11 anos fica com a irmã, que também labuta na feira. A reforma que modernizou as barracas não a tirou dali, mas tampouco a incluiu: “Só mudaram a gente do provisório para o novo”.
Enquanto Belém se prepara para a COP30, evento global que promete debater o futuro do planeta a partir do dia 10 de novembro, Dona Rosicleide desconhece o tema. “Não sei. Está fechando uns lugares aí. Pra passar só os os presidentes, eu não sei, assim é o que tão falando.” Para ela, a expectativa é outra: “Vai ficar fraco o movimento”.
E enquanto a cidade discute protocolos climáticos, há quem precise garantir o básico: um lugar pra mijar, um chuveiro pra lavar a alma cansada. A feira segue seu ritmo, indiferente às cúpulas.
É jogo de futebol ou é sobre árvore?
A faca afiada fileta o filhote. Suanne Martins, de 37 anos, tem as mãos empacotadas em luvas azuis. Vinda de Chaves, na Ilha de Marajó, fez da beira da Pedra do Peixe sustento. De tanto ir e vir, Belém acabou virando ponto definitivo, e há três anos trata peixe na pedra.
Suanne enfia a mão na barriga do peixe, remove escamas, arranca vísceras e espinhas, esvazia. A maior parte dos peixes tratados por ela segue para restaurantes de Belém, mas alguns atravessadores levam o pescado até Santa Catarina, no sul do Brasil.
A COP30? Ela quase acerta o nome, mas erra o enredo ao falar de Copa do Mundo de Futebol, como quase todos da feira. “Eu pensava que era de jogo [de futebol]”, diverte-se. A irmã explicou que era “sobre árvore” e assim ficou: COP30, uma reunião de gente importante discutindo árvores. “Também não queria que fosse de jogo, que eu não gosto.”
O turno é longo. Ela chega às 8 da noite. O peixe só começa a render mesmo lá pelas 11 e meia. Fica até a luz do dia. Não sabe com precisão de onde vem o peixe, “só chega no barco, mas eu creio que é daí de fora”.
Suanne não discursaria em nenhuma cúpula sobre clima. Não falaria de biodiversidade, nem de conservação dos rios. E talvez seja isso: enquanto Belém tenta se arrumar para parecer importante aos olhos do mundo, Suanne apenas espera que melhore. Não o planeta, mas a vida. A dela. A dos seus. Suanne só precisa que amanhã tenha peixe e que ela venda.
Enquanto os líderes mundiais dormem em camas king size e lençois trocentos fios dos hotéis de luxo, embaixo do caminhão Bombom de Leite ri de si mesmo. Rosicleide, guardiã do banheiro de 2 reais, conta moedas que para ela valem mais do que promessas de sustentabilidade. E Suanne descobriu que a COP não é sobre futebol, mas amanhã seguirá cortando filhotes. Antes de o sol nascer, os barcos voltarão. Com mais peixes, capturados em rios que ela já desconhece.
Quantas Suanne, Bombom de Leite e Rosicleide vivem às beiras da conferência da qual dependem suas vidas?
Por Énh Xym Akroá Gamella, Khumta Suya (fotos), Rio Guamá, Belém, Amazônia
Fonte: SUMAÚMA