Skip to main content

Arte em Fibra: mulheres transformam saberes tradicionais em oportunidades de renda no Maranhão

Projeto reúne formação artesanal, empreendedorismo e valorização da fibra de buriti; coleção produzida pelas participantes será apresentada ao público em São Luís (imagem: reprodução O Cubo)

A fibra de buriti, matéria-prima tradicional do artesanato maranhense, está no centro de uma iniciativa que busca ampliar a autonomia econômica de mulheres em situação de vulnerabilidade social. Desenvolvido pela Rede NAVE (Natureza, Arte, Vida e Emancipação Feminina), o Projeto Arte em Fibra combina técnicas artesanais, formação em empreendedorismo e discussões sobre direitos, raça e gênero. O trabalho resultou na criação de uma coleção de bolsas que será apresentada ao público neste sábado (10), em São Luís.

Mais do que ensinar a produzir peças artesanais, a iniciativa procura oferecer condições para que as participantes transformem suas habilidades em oportunidades de geração de renda. Em entrevista ao programa Dedo de Prosa, da Agência Tambor, na quarta-feira (7), a analista do projeto, Yohana Torres de Melo, explicou que a formação inclui desde o trançado e o tingimento da fibra até conhecimentos sobre gestão, precificação, comercialização e desenvolvimento de produtos.

[Veja entrevista na íntegra ao final desta matéria.]

Do artesanato à autonomia econômica

O projeto recebeu cerca de 70 inscrições e selecionou 34 mulheres, superando a meta inicial de 30 participantes. Ao longo da formação, elas tiveram aulas de crochê, trançado, tingimento, montagem e acabamento de bolsas. Paralelamente, participaram de atividades sobre elaboração de planos de negócios, organização da produção e cálculo dos custos envolvidos na fabricação das peças.

Para Yohana, compreender o valor econômico do próprio trabalho é uma etapa fundamental desse processo. A formação procura mostrar que o preço de uma peça artesanal precisa considerar não apenas os materiais utilizados, mas também o tempo dedicado à produção e o conhecimento empregado em cada etapa.

“A gente entende que a mulher, ao produzir, é importante, mas só produzir não basta”, afirmou em entrevista ao programa Dedo de Prosa. Segundo ela, o objetivo é oferecer ferramentas para que as participantes possam iniciar ou ampliar seus próprios negócios e conquistar maior independência financeira.

A proposta também considera as desigualdades sociais e de gênero que limitam as oportunidades econômicas das mulheres. Por isso, a formação incorpora debates sobre direitos, participação social e autonomia, além de proporcionar espaços de convivência e troca de experiências.

“Não olha para elas apenas como produtoras de bolsa. Não é isso. A gente não tem essa visão”, explicou Yohana, ao destacar que o projeto busca reconhecer as participantes como mulheres com capacidade de decisão, criação e participação na sociedade.

Desigualdades dificultam a permanência das mulheres

Um dos principais desafios enfrentados pelo Arte em Fibra foi garantir que as participantes conseguissem acompanhar todas as etapas da formação. Segundo a analista, responsabilidades familiares, necessidade de trabalhar, cuidados com filhos ou parentes doentes e dificuldades de transporte interferiram na frequência das mulheres.

A equipe buscou adaptar atividades e manter contato com aquelas que precisaram interromper a participação. Yohana destacou que as desistências não podem ser analisadas apenas como números, pois refletem condições sociais e econômicas que ultrapassam a capacidade de atuação do projeto.

“Por trás da permanência ou da desistência dessa mulher, existe uma realidade social, econômica e familiar que precisa ser considerada”, afirmou. Na avaliação da analista, essas dificuldades também evidenciam a necessidade de políticas públicas que ofereçam melhores condições de vida às mulheres e suas comunidades.

Apesar dos obstáculos, a experiência proporcionou momentos de aprendizagem coletiva. Conforme relatou Yohana, participantes que dominavam determinada técnica passaram a ajudar outras mulheres, fortalecendo vínculos de cooperação. A produção das bolsas também contribuiu, segundo ela, para o reconhecimento das próprias capacidades e para a construção de novas perspectivas de trabalho.

Fibra de buriti valoriza conhecimentos tradicionais

A escolha do buriti como principal matéria-prima está relacionada à presença histórica da fibra no artesanato maranhense. Utilizada em diferentes técnicas de produção artesanal, ela carrega conhecimentos transmitidos entre gerações e integra a identidade cultural de comunidades do estado.

Na avaliação de Yohana, esse patrimônio nem sempre recebe o reconhecimento econômico e cultural que merece. O Arte em Fibra procura aproximar esses conhecimentos tradicionais de novas possibilidades de criação e comercialização, sem perder a relação com suas origens.

A coleção desenvolvida pelas participantes recebeu o nome de Fiapos e Babados – Cores e Movimentos do Mará. As peças passaram por diferentes etapas de experimentação, com definição de cores, texturas, formatos e acabamentos. O processo reúne técnicas tradicionais e propostas contemporâneas de design.

Coleção será apresentada em São Luís

A apresentação pública dos resultados está prevista para sábado (10), a partir das 14h. A programação gratuita inclui uma exposição fotográfica e sensorial, um desfile de lançamento da coleção e uma feira de pré-venda das bolsas produzidas pelas participantes.

A proposta é permitir que o público conheça não apenas os produtos, mas também os processos de criação e as experiências das mulheres envolvidas. Para Yohana, o desfile representa uma oportunidade de dar visibilidade ao trabalho artesanal e aproximá-lo de outros espaços de circulação e comercialização.

O evento estava inicialmente previsto para o Armazém da Dona Teté, no Complexo Trapiche Santo Ângelo, na Rua do Deserto, no Centro Histórico de São Luís, em frente ao Terminal da Praia Grande. Acompanhe o Intagram da Rede NAVE (https://www.instagram.com/rede_nave/) para confirmar o local do evnto.

Para a organização, a apresentação da coleção representa uma etapa importante de um processo que ultrapassa a produção artesanal. “É um projeto sobre fibra do buriti, mas, acima de tudo, é um projeto sobre mulheres, conhecimento, autonomia, identidade, possibilidade e geração de renda”, resumiu Yohana.

[Assista a entrevista Yohana Torres de Melo, do Projeto Arte em Fibra, para a Agência Tambor.]

Inscrever-se
Notificar de
guest
0 Comentários
mais antigos
mais recentes Mais votado
Feedbacks embutidos
Ver todos os comentários

0
Adoraria saber sua opinião, comente.x

Acesso Rápido

Mais buscados