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REGGAE É IMPORTANTE PARA A CULTURA DE SÃO LUÍS

Foto: Ingrid Barros

Laura Nogueira Damasceno

Desde a sua criação, a popularidade da música reggae se expandiu muito e foi revivida em vários países, incluindo o Brasil. Em 1980, São Luís se tornou a capital do reggae, mas a história começa em 1970, as explicações para a chegada do ritmo no Maranhão são muitas.

Para entender de onde surgiu o reggae, é preciso voltar em Kingston, na Jamaica. Em meados dos anos 1960, A filosofia rastafári estava sendo adotada por muitas pessoas, inclusive artistas, ela está atrelada a pessoas oprimidas que sentiam que a sociedade não tinha nada a oferecê-los. Dessa forma, o reggae roots, também conhecido como reggae raiz, é um estilo que retrata todos os lamentos que a modernização da Jamaica trouxe, como desemprego, ausência de moradia, más condições de trabalho, em desacordo com as expectativas da população pós independência.

A hipótese mais conhecida de como o reggae chegou em terras maranhenses é a de que marinheiros que chegavam ao porto de São Luís deixavam discos trazidos da Jamaica para pagar por serviços de prostituição. Até hoje, a música reggae continua a evoluir e seguir as tendências da música moderna, mas ainda assim, as tradições da nação foram preservadas, espelhando as visões de mundo e vivências coletivas que foram passadas de geração em geração ao longo dos anos, sem comprometer sua identidade.

MUSEU DO REGGAE

Localizado na Rua da Estrela, no Centro histórico de São Luís, o Museu do Reggae é o primeiro museu temático de reggae localizado fora da Jamaica. Foi inaugurado em 2018 e estuda, preserva e celebra a Cultura Reggae no Maranhão. Além de contar com vários objetos de grande relevância para o reggae maranhense como discos raros e radiolas.

A carioca Sônia Paiva veio ao Maranhão para passar suas férias, visitar seus familiares e aproveitou o passeio pelo Centro histórico para conhecer o museu: “O local traz informações muito interessantes sobre a história do reggae no Maranhão. Vale a pena conhecer um pouco da história da cidade e de como começou a cena reggae em São Luís, as festas, as personalidades e o aparatos musicais. E o melhor, de graça! “, elogia a visitante.

O museu é muito bonito e aconchegante, nos mostra sobre como e porque o Reggae é estilo musical que representa o Estado do Maranhão. A visita é guiada e gratuita, com bastante informação. Para quem tem vontade de conhecer mais sobre o reggae vale a pena, tem referências a Bob Marley e outros grandes nomes do reggae: Peter Tosh, Célia Sampaio e Jimmy Cliff.

AGARRADINHO E MUITO MAIS

São Luís incorporou o reggae em seus festivais e programação cultural, influenciando as interações já existentes, e assim nasceu uma nova cultura e trocas simbólicas. A criação de uma imagem semelhante das duas ilhas no pensamento coletivo levou muitos a acreditar que São Luís é verdadeiramente a Jamaica do Brasil.

No entanto, o reggae maranhense tem as suas particularidades, se diferenciando do resto do mundo, é o único lugar do mundo em que o reggae é dançado a dois, o famoso “agarradinho”. Esse modo de expressão tem referência de outros ritmos caribenhos, como a salsa e o bolero. Se tornou tão original que, em 2021, o agarradinho virou Patrimônio Imaterial do Maranhão

O reggae maranhense também possui termos únicos como “pedra”, “pedrada” ou “pedra de responsa”, em outras palavras, é conhecido como aquele reggae bom, bonito, que envolve todos que estão ao redor. O melô é o modo como os DJs passaram a nomear certas músicas, com objetivo de esconder a verdadeira identidade da música para evitar o acesso da concorrência. A radiola é o equipamento em que são acopladas caixas de som, formando um “paredão”. No Maranhão, ela se popularizou bastante e passou a existir batalhas de radiolas para saber qual tinha maior potencialidade.

RESISTÊNCIA

Grande parte das pessoas que dominam a cena do reggae em São Luís são negras, por isso, era (e ainda é) um espaço de identificação racial, social e econômica. Além disso, durante muito tempo o reggae foi visto de forma pejorativa, principalmente pelo fato de que a maioria dos clubes se encontravam na periferia da cidade, e a maior parte, em condições precárias.

 Wagno Sousa, de 46 anos, é um grande entusiasta do ritmo reggaero, ele conta como foi o início da sua experiência nesta cultura. “Eu morava no bairro do João Paulo e comecei a frequentar os clubes com 18 anos, o primeiro que fui foi o Espaço Aberto, ali no bairro São Francisco. Lá, antigamente só tinha uma radiola, que era a Estrela do Som, na praia tinha uma grande quantidade de clubes”, relembra Wagno.

Com a validação da mocidade de classe média, os meios de comunicação influentes passaram a notar o reggae como um estilo musical importante dentro do contexto cultural de São Luís. Assim, A ruptura da fronteira entre a cultura de elite e a cultura marginal, a quebra da enorme lacuna foi muito importante na sociedade para retirar a má impressão e o pré conceito que os indivíduos tinham com o reggae.

O Dj de reggae, Antenor Filho, conhecido como Teteca Root’s, conta como surgiu o interesse pelo ritmo e suas primeiras experiências nesse meio artístico. “O interesse vem desde garoto. O ritmo me encantou e daí foi fortalecendo o gosto e o prazer de ouvir o reggae. Chegava a ir aos clubes e ficava do lado de fora só pra ouvir e curtir. Não podia entrar pois era de menor, mas uma vez ou outra conseguia entrar”, relata.

Teteca acrescenta que ia em alguns clubes próximos de casa como o Pop Som do bairro jordoa, que era muito famoso na época, a sede dos Barés, no bairro Barés e o Saramandaia Clube, no bairro do Coroado. “Já vindo tocar nas aparelhagens, pôr as musicas, recebi um convite inusitado. Eu acompanhava um amigo em algumas festas, ele era o DJ da radiola FM Thed Wilson e uma vez ou outra ele pedia para eu colocar umas músicas, e aí fluiu, fui me qualificando”, conta. Juntamente, o Dj destaca que tem certa preferência pelo ritmo Roots, uma batida forte e suave, e escolhe música principalmente para dançar aquele reggae coladinho. Assim como Teteca, muitos outros artistas são contagiados por esse ritmo. O reggae, por sua natureza mista e autêntica, permite que os agentes sociais interajam no mesmo meio social, independentemente de classe social, raça ou religião.

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