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Propaganda nazista em Grajaú: jornalista cobra respostas da Polícia Federal sobre investigação

Imagem de três jovens com camisetas de exaltação ao nazismo e ao fascismo, durante ato político em Grajaú, repercute nas redes sociais. (Imagem: Reprodução/Redes sociais)

A falta de informações sobre o andamento da investigação envolvendo três jovens que exibiram camisetas com referências ao nazismo e ao fascismo durante um ato político em Grajaú, no Maranhão, tem provocado cobranças por esclarecimentos e responsabilização.

Segundo o jornalista José Xânxa, que denunciou o episódio, o caso foi encaminhado à Polícia Federal (PF), mas, até o dia 4 de novembro, não havia notícias sobre o avanço das investigações.

O episódio ocorreu em 24 de outubro, durante uma manifestação de apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro. Os três envolvidos, com idades entre 19 e 22 anos, apareceram em imagens divulgadas nas redes sociais usando camisetas com mensagens de exaltação ao fascismo e referências nazistas.

O caso ganhou repercussão nacional e foi tema de entrevista com José Xânxa no programa Dedo de Prosa, da Agência Tambor, na quarta-feira (4).

[Veja entrevista na íntegra ao final desta matéria.]

De acordo com o jornalista, as camisetas apresentavam inscrições como “Deus, pátria e família” e uma frase em inglês de exaltação ao fascismo, além de uma imagem com gesto associado ao nazismo. Os jovens circularam pela manifestação e foram registrados em vídeos posteriormente compartilhados nas redes sociais.

Após a divulgação das imagens, a Polícia Civil do Maranhão identificou e ouviu os três envolvidos, apreendeu as camisetas e encaminhou o caso à Polícia Federal. Segundo Xânxa, os jovens foram liberados depois de prestar depoimento. A ausência de informações posteriores sobre a investigação passou a ser uma das principais preocupações dos moradores que acompanham o episódio.

“Nós não temos notícias, nota e nada sobre o andamento dessa situação”, afirmou em entrevista ao programa Dedo de Prosa. Segundo o jornalista, a cobrança permanece nos comentários das publicações e nos grupos de mensagens da cidade. Para ele, a falta de esclarecimentos pode contribuir para a percepção de que manifestações dessa natureza não produzem consequências.

Repercussão nacional e pressão sobre quem denunciou

José Xânxa contou que recebeu as primeiras imagens por meio de grupos de mensagens de Grajaú. Inicialmente, surgiram questionamentos sobre a autenticidade do material e a possibilidade de manipulação por inteligência artificial. No entanto, segundo ele, outros registros mostraram os jovens circulando durante o ato político e apareceram imagens relacionadas à confecção das camisetas.

A denúncia se espalhou rapidamente pelas redes sociais, alcançou repercussão nacional e levou autoridades estaduais a se manifestarem. O governador do Maranhão, Carlos Brandão, e representantes da Polícia Civil se pronunciaram sobre o episódio. Xânxa relatou que parte da imprensa local só passou a noticiar o caso depois que ele ganhou maior visibilidade.

O jornalista também afirmou que recebeu mensagens de pessoas ligadas à produção das camisetas e de conhecidos dos envolvidos pedindo que retirasse vídeos e publicações. Na avaliação dele, essas tentativas de evitar a exposição do episódio revelam dificuldades enfrentadas por profissionais de comunicação que denunciam situações envolvendo pessoas com relações políticas e econômicas na cidade.

Outro ponto criticado por Xânxa foi a tentativa de apresentar o episódio como uma brincadeira ou provocação política. Segundo ele, também circularam versões de que os jovens seriam infiltrados no movimento que organizou a manifestação. O jornalista contestou essas explicações e defendeu que a investigação esclareça as circunstâncias da produção das camisetas e a responsabilidade dos envolvidos.

Xânxa relatou ainda que um dos jovens já teria sido expulso do Instituto Federal do Maranhão (IFMA), em Grajaú. Segundo o jornalista, o mesmo rapaz teria protagonizado manifestações LGBTfóbicas e atacado uma exposição na instituição. “Eles não inventaram isso do nada”, afirmou, ao argumentar que o episódio recente não seria um comportamento isolado. A informação sobre a expulsão e suas circunstâncias não foi confirmada pelo IFMA durante a entrevista.

O risco da banalização e a reação dos estudantes

A legislação brasileira criminaliza determinadas formas de divulgação do nazismo, com penas que podem chegar a cinco anos de reclusão, conforme o enquadramento legal. A eventual responsabilização dos jovens depende, porém, da apuração dos fatos e das decisões da Justiça. Para Xânxa, o episódio exige atenção também pelo risco de naturalização de discursos de ódio, especialmente entre os mais jovens.

Durante a entrevista, ele relacionou o caso à circulação de conteúdos extremistas nas redes sociais e alertou para a difusão de mensagens racistas, misóginas e contrárias aos direitos humanos. Embora tenha utilizado a expressão “célula” ao se referir ao grupo, a entrevista não apresentou elementos suficientes para comprovar a existência de uma organização neonazista estruturada em Grajaú. A distinção é importante para dimensionar a gravidade do episódio sem produzir conclusões que a investigação ainda não estabeleceu.

Xânxa também rejeitou a associação da cidade ao nazismo em razão da conduta dos três jovens. “Grajaú não é esse antro de nazistas”, afirmou, lembrando a história de resistência dos povos indígenas da região, entre eles os Guajajara e os Canela. Na avaliação do jornalista, a reação de moradores demonstra que a sociedade local não aceita a banalização dessas manifestações.

Segundo ele, estudantes começaram a se organizar em torno de uma mobilização antifascista e acompanham os desdobramentos da investigação. Caso a falta de informações persista, o jornalista acredita que poderão ocorrer novas manifestações. A cobrança central é que as autoridades esclareçam o andamento do caso e apurem as responsabilidades, respeitando os procedimentos legais e o direito de defesa dos investigados.

Neonazismo no Brasil: células identificadas aumentaram mais de 1.400% em sete anos

O crescimento do neonazismo no Brasil foi documentado pela antropóloga Adriana Dias, doutora pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que dedicou mais de duas décadas ao estudo desses grupos. Segundo seu levantamento, o número de células neonazistas identificadas no país passou de 72, em 2015, para 1.117, em 2022 — um aumento de 1.451%. Somente entre outubro de 2021 e novembro de 2022, o total saltou de 530 para 1.117.

A pesquisa identificou a presença desses grupos em 298 municípios, distribuídos por 22 estados e pelo Distrito Federal. Santa Catarina concentrava o maior número de células, com 320, seguida por São Paulo (268), Paraná (197) e Rio Grande do Sul (159). O levantamento também registrou a presença de núcleos neonazistas no Nordeste, inclusive em Pernambuco, Bahia, Sergipe, Ceará, Alagoas, Paraíba e Piauí.

Os dados mais recentes da SaferNet Brasil reforçam a preocupação com a propagação dessa ideologia. Em 2025, a organização recebeu 1.341 denúncias únicas de conteúdos neonazistas na internet, contra 814 em 2024, aumento de 64,7%. Embora os levantamentos utilizem metodologias diferentes, ambos evidenciam a dimensão do problema e a importância de enfrentar a disseminação de ideias nazistas e discursos de ódio no país.

Fontes: pesquisa da antropóloga Adriana Dias (2015–2022), reproduzida pelo Observatório Judaico dos Direitos Humanos no Brasil; SaferNet Brasil, balanço de denúncias de 2025, divulgado em fevereiro de 2026.

O outro lado

A Agência Tambor encaminhou pedidos de esclarecimento, por e-mail, à Superintendência Regional da Polícia Federal e aguarda informações sobre o andamento das investigações. A reportagem será atualizada assim que houver resposta das autoridades.

[Assista a entrevista do jornalista José Xânxa ao programa Dedo de Prosa, da Agência Tambor.]

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