Participantes do 17º Encontrão da Teia de Povos e Comunidades Tradicionais do Maranhão ocuparam as ruas de Matões para denunciar violações de direitos e reafirmar a defesa dos territórios tradicionais. (Foto: Rede Social Teia Maranhão) Quinze anos depois de sua criação, a Teia de Povos e Comunidades Tradicionais do Maranhão reafirmou seu papel como uma das principais articulações de defesa dos territórios tradicionais no estado. Reunidos no Quilombo Tanque da Rodagem e São João, em Matões, indígenas, quilombolas, quebradeiras de coco babaçu, pescadores, ribeirinhos, sertanejos e agricultores familiares encerraram o 17º Encontrão renovando estratégias coletivas para enfrentar o avanço do agronegócio, dos grandes empreendimentos e de outras ameaças aos modos de vida das comunidades.
Mais do que uma programação de cinco dias, o encontro consolidou um espaço de construção política onde experiências, denúncias, conhecimentos tradicionais e propostas de resistência foram compartilhados entre povos que vivem conflitos semelhantes em diferentes regiões do Estado. A celebração ocorreu em um contexto em que disputas por terra, pulverização aérea de agrotóxicos, expansão da fronteira agrícola e pressão sobre comunidades tradicionais continuam marcando o cenário do Maranhão e colocando em riscos os povos originários do Maranhão.

Uma rede construída pelos próprios territórios
Ao longo de sua trajetória, a Teia consolidou uma forma própria de organização baseada na troca entre os territórios. Em vez de reunir apenas reivindicações pontuais, a articulação busca fortalecer a capacidade das próprias comunidades de produzir respostas coletivas para problemas comuns, preservando conhecimentos ancestrais e construindo alternativas de permanência nos territórios.

Esse princípio esteve presente em toda a programação do Encontrão. As discussões envolveram soberania alimentar, saúde, educação, comunicação, economia, relações de gênero, autogoverno e proteção dos territórios, considerados os “esteios” que sustentam a organização da Teia e orientam suas ações nos diferentes municípios maranhenses.
Comunicação feita por quem vive o território
Entre os temas debatidos, a comunicação popular apareceu como uma ferramenta estratégica para fortalecer a organização das comunidades e combater narrativas produzidas por quem não vivencia a realidade dos territórios.
“Nossas histórias são contadas por nós, que somos comunicadores de dentro do território”, afirmou o quilombola Ronilson Monteiro, integrante do Movimento Quilombola do Maranhão (Moquibom). Segundo ele, a comunicação construída pelos próprios povos permite registrar denúncias, preservar memórias e dar visibilidade às lutas sem depender de olhares externos.

Saúde, ancestralidade e Bem Viver
Outro eixo fortalecido durante o encontro foi a valorização dos saberes tradicionais como parte da construção do Bem Viver. A Tenda da Saúde reuniu profissionais da área, agentes comunitários, raizeiras, benzedeiras e lideranças indígenas em uma proposta que integra atendimento, medicina tradicional e espiritualidade.
“Além dos medicamentos, nós temos como base a nossa ancestralidade, as nossas divindades e os nossos encantados”, afirmou a quebradeira de coco Bárbara Keylany, destacando que o cuidado com a saúde também passa pelos chás, raízes, benzimentos e demais conhecimentos transmitidos entre gerações. Segundo ela, essa integração fortalece tanto o corpo quanto a dimensão espiritual das comunidades.
A troca de sementes crioulas, realizada entre representantes de diferentes territórios, também simbolizou essa defesa da autonomia dos povos. Livres de transgênicos e agrotóxicos, as sementes compartilhadas durante o Encontrão representam a continuidade dos sistemas tradicionais de produção e da soberania alimentar defendida pela Teia.
Resistência diante do avanço do agronegócio
As denúncias sobre os impactos da expansão do MATOPIBA e da pulverização aérea de agrotóxicos ocuparam lugar central nas discussões do Encontrão. O próprio território que sediou o evento, em Matões, convive com a pressão da monocultura e ainda luta pela garantia definitiva de seus direitos territoriais.
Representando a Rede de Agroecologia do Maranhão (RAMA), Lina Cunha apresentou ferramentas populares de monitoramento e denúncia construídas pelas organizações de base da rede. Segundo ela, o objetivo é fortalecer mecanismos que permitam registrar violações sem expor ainda mais as comunidades ameaçadas.
“Nós entendemos que só em rede, só no coletivo, só com a junção de lutas é possível fazer o enfrentamento a essas violações de direitos e garantir que esses povos permaneçam em seus territórios com Bem Viver, qualidade de vida e seus direitos garantidos”, afirmou em vídeo divulgado durante o Encontrão.

Quinze anos depois, uma articulação ainda necessária
Ao final do 17º Encontrão, os participantes realizaram uma avaliação coletiva dos debates e aprovaram encaminhamentos que orientarão as ações da Teia nos próximos anos. Também foi definido que a próxima edição do Encontrão acontecerá, em 2028, em um território de quebradeiras de coco babaçu, na Baixada Maranhense. A carta política aprovada durante o encontro deverá reunir os principais compromissos assumidos pelas comunidades e será divulgada posteriormente.
Mais do que celebrar uma trajetória iniciada há 15 anos, o encontro demonstrou que a Teia permanece como um espaço de articulação política construído pelos próprios povos e comunidades tradicionais. Em um estado onde os conflitos por terra, as pressões sobre os territórios e as ameaças aos modos de vida persistem, o fortalecimento dessas alianças continua sendo apontado pelos participantes como uma das principais estratégias para garantir direitos, preservar conhecimentos ancestrais e assegurar a permanência das comunidades em seus territórios.