Moradores do quilombo Cancela tiveram as roças destruídas. O Quilombo Cancela, localizado no município de São Benedito do Rio Preto, no Maranhão, foi alvo de um novo ataque na manhã desta quinta-feira (12). Quatro tratores de esteira, acompanhados por cerca de oito homens encapuzados e pelo gerente de uma fazenda em disputa com a comunidade, invadiram as roças do território e destruíram toda a produção agrícola cultivada pelas famílias quilombolas.
A destruição ocorreu apesar de decisões judiciais favoráveis à comunidade e expõe, segundo lideranças locais, a omissão do Estado em garantir segurança, fiscalização e proteção ao território quilombola, mesmo diante de denúncias reiteradas de violência e violações de direitos.
As acusações foram apresentadas pelo líder quilombola Maelson Bezerra, presidente da associação de moradores do povoado Guarimã, durante entrevista ao programa Dedo de Prosa, da Agência Tambor. Ele explicou que as famílias haviam retomado recentemente o acesso às áreas de cultivo após mais de dois anos impedidas por ações judiciais que restringiam a entrada nas próprias roças.
[Veja a entrevista Maelson na integra ao final desta matéria.]
“Essas comunidades passaram mais de dois anos sobrevivendo de doações, vendo sua produção se perder sem poder colher. Quando finalmente conseguiram autorização para voltar a plantar, veio esse ataque que destruiu tudo”, afirmou Maelson. Segundo ele, além da safra atual, a produção do próximo ano também foi comprometida.
O líder quilombola ressaltou que a ação agrava um quadro já crítico de insegurança alimentar. “O objetivo é impedir que essas famílias produzam seu próprio alimento. Agora, a fome tende a se prolongar por pelo menos mais um ano”, disse, ao lembrar que o cultivo agrícola exige tempo, cuidado e dedicação contínua.
Durante a invasão, moradores tentaram impedir o avanço das máquinas e relataram episódios de violência. Um idoso teria sido agredido ao tentar proteger sua roça, e áreas de mata nativa preservadas pela comunidade também foram destruídas. “Foi um ataque planejado, pensado para manter a comunidade vulnerável”, relatou Maelson.
Ao tratar da responsabilidade do poder público, o presidente da associação afirmou que o Estado tem falhado sistematicamente. “A segurança, que é dever do Estado, está sendo negada. Não havia nenhuma autorização para essa invasão, e mesmo assim não houve fiscalização nem ação para impedir o crime”, declarou.
Segundo ele, a ausência do Estado também se reflete em outras violações no território, como bloqueio de estradas, contaminação de nascentes, destruição ambiental e impedimento de práticas tradicionais. “São denúncias antigas, conhecidas pelos órgãos públicos, mas que seguem sem resposta efetiva”, acrescentou.
Maelson informou ainda que há avanços no âmbito federal, com a atuação do Incra, que realizou visitas técnicas e reconheceu as violações no território. No entanto, ele alerta que, enquanto a regularização fundiária não se concretiza, as comunidades seguem expostas. “O que a gente cobra é o mínimo: que o Estado cumpra seu papel constitucional de proteger vidas e direitos”, concluiu.
O outro lado
A Agência Tambor entrou em contato com o Núcleo de Atendimento à Imprensa, da Secretaria de Comunicação do Estado, e a equipe de reportagem está aguardando a resposta. Assim que for enviada uma posição, esta matéria será atualizada.
Assista na íntegra a entrevista de Maelson Bezerra, presidente da associação de moradores do povoado Guarimã, ao programa Dedo de Prosa. O quilombo Cancela é parte do Território Guarimã.