Skip to main content

Teimosia de viver: exposição transforma memória dos povos tradicionais em resistência

O acervo reúne registros históricos da CPT-MA e fotografias produzidas por povos e comunidades tradicionais acompanhados pela Pastoral em diferentes territórios do Maranhão. (Foto: Vitória Soares)

Uma exposição fotográfica que reúne memórias, denúncias e modos de vida de povos indígenas, quilombolas, camponeses e comunidades tradicionais será aberta no próximo dia 9 de junho, no Centro Histórico de São Luís. Intitulada “Teimosia de Viver”, a mostra apresenta registros históricos da Comissão Pastoral da Terra no Maranhão (CPT-MA) e imagens produzidas pelos próprios moradores dos territórios, revelando experiências de luta, pertencimento e permanência diante dos conflitos que marcam o campo maranhense.

Mais do que uma exposição de fotografias, a iniciativa busca apresentar ao público urbano fragmentos da vida cotidiana de comunidades que seguem resistindo à violência fundiária, à devastação ambiental e à negação de direitos. As imagens estarão expostas na Galeria do Centro de Referência Azulejar do Instituto Federal do Maranhão (IFMA), com visitação gratuita até o dia 19 de junho.

Um álbum das resistências maranhenses

“Queremos mostrar o cotidiano, essa luta, essa permanência, os plantios, as colheitas, as rezas e os modos de vida das comunidades tradicionais”, afirmou a agente pastoral da CPT-MA, Brígida Rocha, durante entrevista ao programa Dedo de Prosa, da Agência Tambor. Segundo ela, a exposição reúne registros que “denunciam e anunciam”, revelando tanto as violências enfrentadas pelos povos quanto suas estratégias de resistência e esperança.

[Veja a entrevista na íntegra ao final desta matéria.]

A mostra foi construída a partir de mais de 40 inscrições enviadas por comunidades acompanhadas pela CPT. Ao todo, cerca de 200 fotografias chegaram à organização. Parte significativa desse material foi produzida pelos próprios indígenas, quilombolas e trabalhadores rurais, muitos deles participantes de processos de formação em comunicação popular desenvolvidos nos territórios.

Quando os povos fotografam a si mesmos

Entre os fotógrafos selecionados está Cruupyhre Akroá Gamella, do Território Indígena Taquaritiua. Para ele, a fotografia tornou-se uma ferramenta de afirmação da existência de seu povo. “O Estado já nos considerava extintos. A fotografia ajudou a mostrar que estamos vivos”, relatou durante a entrevista. Segundo o comunicador indígena, as imagens também funcionam como instrumento de preservação da memória dos anciãos e das lutas pela retomada territorial.

Além dos registros de conflitos e mobilizações, as fotografias destacam celebrações, práticas culturais, paisagens, colheitas, momentos familiares e cenas do cotidiano. Cruupyhre observa que a intenção é romper com a visão limitada que frequentemente associa os povos tradicionais apenas a situações de violência. “A gente também quer mostrar as coisas boas do território, não apenas as tragédias”, afirmou.

Vivos, apesar de tudo

Durante a entrevista, Brígida Rocha também destacou que a exposição dialoga com um contexto marcado por conflitos agrários, criminalização de lideranças e impactos provocados pelo avanço do agronegócio em diversas regiões do Maranhão. As críticas e denúncias apresentadas refletem a atuação da CPT junto às comunidades e fazem parte da leitura da entidade sobre os desafios enfrentados pelos povos do campo.

O próprio título da mostra surgiu desse cenário. Para os organizadores, “Teimosia de Viver” expressa a insistência das comunidades em permanecer em seus territórios mesmo diante de ameaças, expulsões, violência e ausência de políticas públicas. “Não é fácil viver no Maranhão diante de tantos conflitos. Continuar resistindo e defendendo o território é, sim, uma teimosia de viver”, resumiu Brígida.

Cruupyhre relacionou essa resistência à realidade vivida por muitos povos tradicionais do estado. Segundo ele, comunidades seguem enfrentando pressões territoriais, pulverização de agrotóxicos e outras formas de violência. Para o fotógrafo indígena, permanecer nos territórios tornou-se um ato cotidiano de afirmação da própria existência.

Um encontro entre memória e futuro

A programação de abertura acontece no dia 9 de junho, a partir das 8h, com intervenções culturais, apresentações de povos indígenas, quilombolas e camponeses, além de uma roda de conversa sobre as formas de resistência das comunidades tradicionais. A exposição contará ainda com recursos de acessibilidade, incluindo fotografias impressas em relevo para pessoas com deficiência visual.

As fotografias expostas também poderão ser adquiridas pelo público. Segundo os organizadores, parte dos recursos arrecadados será destinada aos autores das imagens e outra parte ajudará a financiar a circulação da mostra por outros espaços do Maranhão após a temporada em São Luís.

Serviço

Exposição Fotográfica “Teimosia de Viver”

  • Período: 9 a 19 de junho de 2026
  • Local: Galeria do Centro de Referência Azulejar do IFMA, Centro Histórico de São Luís
  • Horário: segunda a sexta-feira, das 8h às 12h e das 14h às 17h30
  • Entrada gratuita

Veja a entrevista de Brígida Rocha, agente pastoral da CPT-MA, e Cruupyhre Akroá Gamella, do Território Indígena Taquaritiua, um dos selecionados para a mostra “Teimosia de Viver”.

Inscrever-se
Notificar de
guest
0 Comentários
mais antigos
mais recentes Mais votado
Feedbacks embutidos
Ver todos os comentários

0
Adoraria saber sua opinião, comente.x

Acesso Rápido

Mais buscados