Síndrome de Burnout passa a ser considerada fenômeno ocupacional, o que reforça direitos trabalhistas e acende alerta para saúde mental no setor bancário. Embora a classe represente apenas 1% da força de trabalho formal, eles são responsáveis por 24% dos afastamentos relacionados a doenças mentais. Isso significa que, a cada 100 mil trabalhadores bancários, 70,3 vivem essa realidade. Os dados foram divulgados em setembro de 2023, em audiência no Senado Federal – e de lá pra cá, o cenário não mudou.
A reclassificação da Síndrome de Burnout como fenômeno ocupacional pela Organização Mundial da Saúde (OMS) trouxe novos contornos à luta por saúde mental no ambiente de trabalho, especialmente entre bancárias e bancários. A mudança, válida desde 2022, reconhece oficialmente que o esgotamento profissional está diretamente ligado às condições do trabalho, o que fortalece a possibilidade de afastamentos remunerados e outras garantias legais para quem sofre com a doença.
O Sindicato dos Bancários do Maranhão (SEEB-MA), através de campanhas, esclarece os impactos dessa reclassificação, destacando os direitos da categoria e denunciando as condições que têm levado profissionais do setor ao limite da exaustão. Segundo Marla Silva Brito e Lívia Morais, coordenadoras da Secretaria de Saúde e Segurança no Trabalho da entidade, a realidade nas agências é alarmante. “Atendemos bancários com 25, 26 anos já completamente adoecidos”, relatou Marla.
Confira ao final desta matéria a entrevista completa de Marla Silva Brito e Lívia Morais, coordenadoras da Secretaria de Saúde e Segurança no Trabalho do SEEB-MA, deram ao Dedo de Prosa, sobre o cenário.
Com sintomas como depressão, crises de ansiedade e desmotivação profunda, muitos trabalhadores demoram a reconhecer que precisam de ajuda, muitas vezes por medo de retaliação ou de perder cargos comissionados. “O bancário só procura apoio quando já está no fundo do poço”, afirmou Lívia. Ela também alerta para o estigma que ainda existe em torno da saúde mental: “Aceitar que não está bem é um processo doloroso. Ainda há muito preconceito”.
O sindicato tem atuado em diversas frentes para acolher esses profissionais. Projetos como a escuta clínica, campanhas informativas e atendimentos presenciais nas agências integram a estratégia de enfrentamento à crise de saúde mental. Uma pesquisa interna revelou que 80% das Comunicações de Acidente de Trabalho (CATs) emitidas no último ano foram motivadas por quadros psicológicos como ansiedade e depressão.
O ambiente bancário tem se tornado ainda mais desafiador com o avanço da digitalização e o fechamento de agências. De acordo com as dirigentes, instituições como o Bradesco vêm encerrando postos de atendimento em municípios pequenos, o que sobrecarrega os bancários remanescentes e prejudica clientes vulneráveis, como idosos e moradores de áreas rurais. “Hoje o bancário é cobrado para produzir com metas diárias, mas muitas vezes não consegue nem ir ao banheiro”, denunciou Lívia.
As metas abusivas e o assédio institucionalizado também foram destacados como fatores centrais do adoecimento. Além da pressão para alcançar resultados, há cobranças por desempenho em ambientes cada vez mais precarizados. “A minha agência tinha 17 funcionários quando entrei. Hoje, são só cinco. O volume de trabalho é o mesmo, ou maior”, disse Marla, que também é bancária há mais de uma década.
Para o SEEB-MA, cuidar da saúde do trabalhador é também uma forma de cuidar da sociedade. Por isso, a entidade tem intensificado as visitas mensais às agências em todo o estado, orientando a categoria e fiscalizando as condições de trabalho. “O banco lucra milhões, mas o bancário precisa estar bem para viver, para cuidar da família, para ter qualidade de vida”, concluiu Lívia.
A entrevista completa com Lívia Morais e Marla Silva Brito foi ao ar no programa Dedo de Prosa, da Agência Tambor, na quinta-feira (17 de julho). Confira.