Empresa avança sobre uma área considerada sagrada atentando contra o modo de vida, a cultura e a sobrevivência da comunidade indígena. (Imagem: Povo Akroá-Gamella) A retomada das obras da linha de distribuição Três Marias, prevista para 11 de dezembro, reacendeu a indignação do povo Akroá Gamella, no município de Viana (MA). A estrutura da Equatorial Energia avança sobre uma área considerada sagrada, onde há uma lagoa que integra o modo de vida, a cultura e a sobrevivência da comunidade indígena.
O caso já está judicializado, envolve decisões de primeira e segunda instância e a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) foi acionada a se manifestar. A comunidade afirma que não é contra a energia elétrica, mas contesta o traçado da obra e denuncia violações de direitos.
A denúncia foi exposta por Craw Craw Gamella e Kum’tum Gamella, em entrevista ao Dedo de Prosa, da Agência Tambor. Ambos relataram que o conflito começou em 2017, quando as máquinas da empresa entraram no território, inclusive sobre a área de pesca e reprodução de peixes. “É o nosso lugar sagrado. É lá que a gente pesca, que a gente vive. Eles nunca quiseram fazer acordo com o povo Akroá Gamella”, contou Craw Craw.
[Assista a entrevista na íntegra ao final desta matéria]
A liderança lembra que, durante uma das resistências, em 2021, 16 indígenas foram presos. “Nos botaram dentro de um camburão, apertado, humilhado. Nós só estávamos protegendo nosso lugar sagrado”, disse. Ela relata ainda preocupação com a retomada das obras: “A pessoa não poder andar dentro da própria casa é muito triste. A gente está sendo privado do nosso território”.
Kum’tum destacou que a empresa tentou subornar a comunidade nos primeiros anos do conflito. “Tentaram oferecer dinheiro, equipamentos, veículo. Mas nossa vida não tem preço. A gente não está num balcão de negócios”, afirmou. Para ele, o ataque à terra é um ataque à própria existência do povo: “Quando mexem com o rio, com as plantas, com os encantados, mexem com todos nós”.
O líder também criticou a postura da Equatorial no processo judicial. Segundo ele, a empresa chegou a questionar a própria existência do povo Gamella. “A peça inicial era racista. Nos tratavam como supostos índios. É como se a Constituição e a Convenção 169 não valessem”, afirmou. Ele lembrou que, após revisão, a liminar que favorecia a empresa foi revogada, mas que uma decisão mais recente, da desembargadora Kátia Balbino, autorizou a continuidade das obras.
As lideranças reforçam que não são contra a implantação de energia elétrica na região. O que pedem é a mudança do traçado, já que outras duas linhas de transmissão passam no local e causam impactos ambientais. “O rio já está maltratado por cerâmicas, por criação de búfalos. Querem colocar mais uma linha, derrubando Araribas, destruindo a margem do rio. A gente só pede respeito”, afirmou Kum’tum.
A área mais sensível é a lagoa sagrada, local de reprodução dos peixes — um espaço vital para a alimentação e para a espiritualidade da comunidade. “É lá que nasce o peixe que sustenta nosso povo. Somos indígenas, mas também pescadores. Estamos sendo humilhados. Estamos tristes e preocupados”, disse Craw Craw.
Diante da pergunta de uma espectadora sobre racismo, ela foi direta: “É racismo sim. Desde a primeira vez, nunca mudaram uma palavra. Se não fosse racismo, já teriam mudado”.
As lideranças afirmam que seguirão resistindo e pedem que o Judiciário ouça o território. “Que juízes e desembargadores coloquem o coração em sintonia com a vida das águas, das plantas. Nós defendemos a vida para todos, inclusive para quem nos ataca”, concluiu Kum’tum.
O outro lado
A Agência Tambor procurou a Equatorial Energia para solicitar posicionamento sobre as denúncias apresentadas. Até o momento, a empresa não se pronunciou. Assim que a equipe de reportagem obter uma resposta, a matéria será atualizada.
Assista na íntegra a entrevista de Craw Craw Gamella e Kum’tum Gamella, lideranças povo Akroá Gamella, no programa Dedo de Prosa.