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Flávio Bolsonaro: pastores afirmam que extrema direita contraria ensinamentos de Jesus

Pastores criticam o uso da religião para influenciar o voto dos fiéis e alertam para a disseminação de desinformação e discursos de ódio nas igrejas. (Imagem: Reprodução IA)

As ideias defendidas pela extrema direita são contrárias aos ensinamentos de Jesus Cristo e representam uma ameaça à democracia, à justiça social e aos direitos da população brasileira. Essa é a avaliação do pastor Lyndon Santos e da pastora Marta Lesse, que participaram, nesta quarta-feira (14), do programa Papo de Crente, no canal da Agência Tambor.

[Veja entrevista na íntegra ao final desta matéria.]

O debate partiu de uma pergunta sobre as propostas do candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) e sua relação com os valores cristãos: Flávio Bolsonaro, representa a negação dos ensinamentos de Jesus Cristo? Os religiosos criticaram a aproximação entre setores das igrejas evangélicas e o bolsonarismo, denunciando a disseminação de mentiras, o incentivo ao ódio e a utilização da fé como instrumento de controle político.

Para Lyndon Santos, a contradição entre o discurso da extrema direita e o cristianismo é profunda. O pastor classificou as ideias extremistas como “uma realidade absolutamente oposta àquilo que Jesus ensinou, que Jesus praticou”, afirmou em entrevista ao programa Papo de Crente. Segundo ele, os ensinamentos de Jesus estão associados à justiça e à solidariedade, enquanto a extrema direita promove exclusão, opressão e desinformação. O pastor também alertou para as consequências desse discurso nas relações familiares e nas comunidades religiosas.

A pastora Marta Lesse compartilha dessa preocupação e afirma que o extremismo ameaça a liberdade e os direitos da população. Para ela, a própria história bíblica demonstra que a fé não pode servir à submissão política. “Deus não quer um ditador. Se Deus quisesse um ditador, ele deixava o povo dele lá no Egito ser escravo o tempo todo”, declarou. A religiosa defendeu que cada pessoa tenha autonomia para escolher seus representantes e participar da vida democrática.

Lideranças religiosas são acusadas de manipular os fiéis

Uma das críticas mais contundentes da entrevista foi direcionada às lideranças religiosas que utilizam sua autoridade para controlar o comportamento e as escolhas políticas dos fiéis. Segundo Lyndon, parte dessas lideranças se aproveita da vulnerabilidade das comunidades para impor discursos políticos apresentados como orientações divinas. “As lideranças religiosas são diretamente responsáveis pelo que estão fazendo com as comunidades”, afirmou.

O pastor denunciou ainda que determinados dirigentes religiosos transformam suas igrejas em espaços de submissão, nos quais os interesses das lideranças se sobrepõem à liberdade de consciência. Segundo ele, essas pessoas “transformam essa comunidade local num feudo, numa propriedade privada”. Lyndon defendeu que os fiéis questionem as pregações e não aceitem automaticamente como verdade tudo o que é dito em nome de Deus.

Marta também criticou a relação de dependência estabelecida entre fiéis e dirigentes religiosos. Na avaliação dela, algumas lideranças estimulam a obediência irrestrita e impedem que os integrantes das igrejas desenvolvam autonomia. Ao abordar o uso político da religião, os entrevistados lembraram ainda as alianças entre setores religiosos e regimes autoritários, como o nazismo na Alemanha e a ditadura militar brasileira. Lyndon alertou para os riscos da “instrumentalização da religião pela política” e questionou o uso da Bíblia para legitimar discursos de intolerância.

Desinformação alimenta o ódio dentro das igrejas

A circulação de notícias falsas entre comunidades evangélicas foi outro ponto central da entrevista. Marta denunciou que conteúdos manipulados, compartilhados principalmente pelo WhatsApp, são reproduzidos por pessoas que não verificam a veracidade das informações. A pastora também chamou atenção para vídeos produzidos ou alterados com inteligência artificial, utilizados para atribuir declarações falsas a figuras públicas. “O povo de Deus aprendeu a mentir, tá sendo induzido a mentir”, criticou.

Lyndon Santos afirmou que a desinformação encontra espaço nas comunidades religiosas quando os fiéis deixam de questionar os conteúdos recebidos. O pastor citou, entre os exemplos de narrativas falsas disseminadas no debate político, alegações de que governos pretendem fechar igrejas, de que as urnas eletrônicas são fraudadas e de que as vacinas não funcionam. Para ele, o problema é agravado pela atuação de lideranças que reforçam essas mensagens e pela velocidade de circulação dos conteúdos nas plataformas digitais.

Na avaliação dos dois entrevistados, as consequências ultrapassam o ambiente eleitoral. Marta afirmou que o incentivo à intolerância compromete a convivência entre pessoas de diferentes posições políticas e afasta os cristãos dos princípios de solidariedade e respeito ao próximo. Segundo ela, a desinformação está contribuindo para transformar parte das comunidades religiosas em espaços de hostilidade. “Nós estamos ensinando a odiar o próximo e não amar o próximo”, lamentou.

Justiça social e democracia como compromissos cristãos

Os religiosos também defenderam que a prática cristã deve estar comprometida com o enfrentamento da fome, da desigualdade e das injustiças sociais. Lyndon lembrou que muitas comunidades evangélicas estão situadas nas periferias e são formadas por trabalhadores, mulheres, jovens e pessoas negras. Para ele, não é possível separar a fé das condições concretas de vida dessa população. O pastor argumentou que a defesa dos direitos sociais faz parte dos ensinamentos de Jesus e não deveria ser tratada como uma questão exclusivamente partidária.

Ao abordar a responsabilidade dos eleitores no segundo turno das eleições presidenciais, marcado para 25 de outubro, Lyndon destacou a importância da liberdade de escolha. “O voto é um ato cívico, mas também um ato sagrado”, afirmou. Segundo ele, a participação política deve ser orientada pela consciência individual, pela defesa da democracia e pela preocupação com as camadas mais vulneráveis da sociedade.

Marta encerrou sua participação reforçando que os valores cristãos devem estar relacionados à proteção dos direitos coletivos. “Justiça social não é partidária”, afirmou. Para a pastora, defender um salário justo, garantir comida na mesa e combater a desinformação são compromissos que devem orientar a atuação dos cristãos na sociedade. Ela também destacou a importância da Constituição Federal de 1988 para a garantia dos direitos da população e defendeu a união dos brasileiros em torno da democracia, independentemente de suas posições políticas.

[Assista na íntegra a entrevista do pastor Lyndon Santos e da pastora Marta Lesse ao programa Papo de crente, no canal da Agência Tambor.]

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