Livramento Barbosa aciona máquina de produzir ração para os porcos, adquirida com recursos do Programa de Microfinança Rural Agroamigo. Foto: Ed Wilson Araújo Por: Ed Wilson Araújo*
Eira, beira e tribeira, nas construções coloniais, eram fileiras de telhas que serviam para indicar a cobertura das casas de pessoas abastadas. Já as moradias humildes, com o acabamento precário, não tinham eira nem beira. Essa expressão generalizou ao longo do tempo para designar situações de gente pobre, amparada apenas pela força do trabalho.
Foi nessa condição, “sem eira nem beira”, mas com determinação para cultivar a terra, que Benedito Rito Dutra Carvalho, 62 anos, e Maria Livramento Gonçalves Barbosa, 60 anos, chegaram em 1988 ao assentamento da reforma agrária denominado Entroncamento, no povoado Fazenda Nova, em Itapecuru-Mirim, na região Norte do Maranhão, a 115 km de São Luís.
À época, os dois jovens, recém-casados, foram contemplados com um lote de 10 hectares do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária). Hoje, as terras da família somam 70 hectares, onde cultivam milho, criam porcos, peixes e gado.
“A gente chegou aqui só com a sacolinha na não, trazendo duas coisas: pensamento positivo e os braços para trabalhar.
Começamos naquela época na roça do toco, plantando milho, arroz e mandioca”, ilustrou Livramento Barbosa, enquanto passava um café e o aroma tomava conta da casa ampla, de pé direito alto, sombreada na frente por um frondoso pé de azeitona e outro de sapucaia. Ela e o marido Benedito, o popular Tabico, celebram a jornada de heróis para transformar os lotes em uma próspera experiência da agropecuária e psicultura familiar.
Hoje, a propriedade tem 38 açudes produzindo de 25 toneladas de peixe por ano; um laboratório de psicultura gerando anualmente cerca de 5 milhões de alevinos; uma pocilga com capacidade para até 200 porcos; 50 cabeças de gado; três hectares para o plantio de milho; uma reserva de 10 hectares; 40 hectares de pasto; uma casa com 170 metros de área construída; e um galinheiro para consumo doméstico. Segundo Benedito Carvalho, o patrimônio vale atualmente cerca de R$ 2 milhões.
Depois de 38 anos de trabalho, cada sulco no rosto queimado de sol é um capítulo nas vidas do casal. Mas, para chegar aos resultados atuais, muita coisa foi feita, principalmente a busca pelo aprendizado, as parcerias, o crédito do Banco do Nordeste (BNB) e o esforço coletivo da família, além dos colaboradores remunerados.
Os intelectuais do campo
Os casos narrados pelo casal na marcha de superação das dificuldades revelam como o trabalho gera intelectuais. Na educação formal, ambos concluíram o equivalente ao Ensino Fundamental, mas a disposição para buscar conhecimento foi uma constante. A psicultura, relatam, chegou através de um amigo que os estimulou a fazer o primeiro açude, há 18 anos, em 2008. “Para o bom ouvidor, se a pessoa quiser transmitir e você quiser ouvir bem, você capita melhor do que você mesmo ler. Você vai ter uma informação de qualidade”, alertou ‘seu’ Tabico.

O laboratório para a produção de alevinos começou três anos depois, em 2011. “A gente sabia fazer só o básico, a tambatinga (cruzamento da fêmea do tambaqui com o macho da pirapitinga) e a curimatá. A matrinxã, meu menino estudou pela internet mais ou menos uns seis meses, das sete (19h) até onze da noite, todo dia, até desvendar ela, que a gente chama piabanha. Hoje tem uma ferramenta chamada celular. O que nós não sabemos a gente pesquisa”, detalhou Livramento Barbosa.
“Meu menino” é um dos filhos do casal, o técnico em psicultura Carlos Mauricio Barbosa Carvalho, 38 anos, desde adolescente dedicado à ciência da multiplicação dos peixes. “Essa parte surgiu na vontade de fazer o próprio alevino. Seu Tabico correu atrás do financiamento para o laboratório e a gente ia lá, pesquisava, buscava estudos e artigos de universidades. A matrinxã já tem boa reprodução aqui na nossa região; porém, nem todos os laboratórios conseguem fazer ela. A gente é um dos únicos que faz a reprodução delas e nunca parou até hoje. É pesquisando sempre”, enfatizou.
A paixão familiar pela psicultura aflora mais quando o veterano Tabico entra no laboratório e explica, em detalhes, todo o processo da produção de alevinos híbridos, discorrendo sobre o tratamento da água, a temperatura ideal para desova das matrizes, os insumos utilizados, o manejo das ovas e do sêmem na fecundação, até o nascimento dos filhotes.
A empolgação e o encantamento remetem a dois personagens da obra “Cem anos de solidão”, de Gabriel García Márquez. No mundo imaginário da literatura, José Arcádio Buendía e o coronel Aureliano Buendía passam longas temporadas no laboratório da vila de Macondo, realizando experimentos científicos de transformação dos metais, até a fabricação de peixinhos de ouro.
Já na vida real, e na nossa moeda corrente, os frutos da psicultura têm diversos mercados. Os alevinos são vendidos de acordo com a necessidade do cliente, em centenas ou milheiros. De acordo com o tamanho, 1000 alevinos variam de R$ 100,00 a R$ 300,00. “Mas aqui, se o cliente quiser uma unidade do peixe adulto, nós vendemos”, pontuou Barbosa.
Vantagens e superação de obstáculos
Um dos fatores para o sucesso da psicultura na região é o solo, rico em tabatinga, argila adequada à impermeabilização, ou seja, serve para reter a água da chuva nos açudes. Por outro lado, a água potável é escassa. “A gente tem uma dificuldade permanente. Aqui não tem poço artesiano porque a água é salobra e no verão a água dos açudes suja. Para cavar um poço profundo tem de ter outorga e custa em torno de R$ 100 mil”, explicou Tabico.

A dependência das chuvas limita, por exemplo, a produção de milho na fazenda, restrita a uma safra anual e uma safrinha compartilhada com feijão.
Em quase quatro décadas de trabalho, a família já passou por altos e baixos. Além da dificuldade para obter água potável, a psicultura entrou em crise no período da pandemia covid19 e quando o noticiário, prejudicado pela desinformação, atestou casos comprovados da “doença da urina preta” (Síndrome de Haff) em humanos, causada por uma toxina presente em peixes e crustáceos contaminados. A síndrome provoca urina escura e dor muscular persistente.
Estudo científico da Fiocruz Bahia, publicado em 2021, na revista científica Lancet Regional Health – Americas, atestou casos da Síndrome de Haff no Amazonas, Bahia e Pará, mas não menciona situações de peixes contaminados em criatórios profissionais de tanques e açudes. A Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR) publicou uma nota de esclarecimento informando que os peixes de cultivo obedecem rigorosas medidas sanitárias e não provocam a doença.
“A gente não apartou, mas quebrou. Aqui no Maranhão nunca chegou urina preta. Peixe de criatório não tem. Toda vez que tiramos uma leva, nós fazemos todo o tratamento para garantir a qualidade dos nossos açudes”, frisou Livramento Barbosa.
Apesar dos pareceres científicos, a desinformação se alastrou, espalhando a versão de que os peixes de cativeiro estariam contaminados. Toda a cadeia produtiva da psicultura profissional foi afetada, inclusive no Maranhão. Antes da pandemia e da ‘urina preta’, a fazenda abastecia pequenos e médios revendedores, frigoríficos e supermercados da região, mas atualmente o principal cliente é a Prefeitura de Itapecuru-Mirim, que compra grandes quantidades (toneladas) para fazer doações durante a Semana Santa.

A produção é sazonal. Os peixes engordam no período das chuvas e na estiagem ocorre a venda. Já o laboratório de psicultura, gerando alevinos, tem atividade permanente. Devido à alternância da oferta de água da chuva, a família diversificou o empreendimento com a criação de porcos, gado e roça de milho.
O agro ensina
Equipada com fábrica de ração, adquirida através de financiamento do BNB, a pocilga tem baias onde os animais são separados por idade para a gestação, maternidade, creche e compartimentos para suínos jovens e adultos. O galpão tem capacidade para 200 porcos. Tabico computa, em média, um faturamento de R$ 26 mil em uma baia com 20 animais adultos, cada qual com 120 quilos.
Além dos diversos tipos de ração (pré-inicial, inicial e de lactação), o alimento é suplementado para garantir a qualidade da engorda balanceada dos animais, tratados com higienização permanente, banhos e vacinas.
O empreendimento é campo de aprendizado para estudantes das áreas afins da agricultura, pecuária e veterinária. É o caso de Ester Diniz Matos, graduada em Zootecnia pela Universidade Estadual do Maranhão (Uema). Em 2024, ela fez estágio de vivência na fazenda. “Eu estagiei na parte da suinocultura e tive um aprendizado muito grande sobre os manejos sanitário, nutricional, parto e vacinação, tudo com anotações rigorosas. Isso mostra que o básico bem feito dá muitos resultados e não só os grandes produtores podem fazer. O médio e o pequeno também dão frutos”, asseverou. Atualmente, inserida no mercado profissional, ela trabalha na cadeia de suinocultura no município de Itapecuru-Mirim.
Segundo os gestores da fazenda, a produção de porcos é vendida para recria (leitão jovem) e em maiores quantidades para açougues e frigoríficos. “E tem o cliente especial que compra com um preço maior porque a gente abate, limpa e entrega no ponto de preparar”, diferenciou. O aproveitamento sustentável do empreendimento inclui o uso das fezes suínas e da pequena criação de galinhas como insumo para a geração de adubo orgânico.
Apesar do trabalho árduo, disciplinado, e do tratamento cuidadoso dos porcos, do gado e dos peixes, a fazenda ainda não consegue fornecer os seus produtos para a alimentação escolar e outras modalidades de compras governamentais. Para ingressar nesse circuito, o empreendimento precisaria de um matadouro profissional, certificação do Ministério da Agricultura e todos os protocolos de padronização dos filés das proteínas, bem como da embalagem e outras medidas burocráticas.
Mas, pensando no futuro e na ampliação do negócio, a família analisa um investimento em energia solar para diminuir o custo da produção. Somadas, as três contas de energia elétrica – do laboratório de psicultura, da pocilga e da residência – chegaram a R$ 1.913,58 no mês de fevereiro de 2026.
Crédito para desenvolvimento
Todos os empreendimentos da fazenda tiveram, direta ou indiretamente, apoio do Banco do Nordeste, através do programa de microcrédito rural acessado por vários membros da família. “O BNB entrou na nossa vida há 40 anos atrás, quando eu tinha 22 anos de idade. A gente era assentado do Incra e saíram uns projetos para banana. Eu não quis. A gente já criava gado amarrado na corda. Aí fez um grupo de quatro pessoas e fizemos um empréstimo para gado. Depois fiz um Agromais, o primeiro de Itapecuru, eu fui a cobaia, para reforma de pasto e cerca”, rememorou Tabico.
Segundo a Revista Econômica do Nordeste, o Programa de Microfinança Rural Agroamigo foi criado em 2005 “na missão de contribuir para o desenvolvimento da agricultura familiar na área de atuação do BNB, mediante a concessão de microcrédito rural, produtivo, orientado e acompanhado, de forma sustentável, promovendo a geração de renda, inclusão produtiva, diversificação de atividades e melhoria da qualidade de vida dos agricultores familiares”.

Para o gerente do escritório do Agroamigo em São Luís, Raimundo José Silva Conceição Junior, a oferta de recurso está inserida em uma política pública que inclui planejamento estratégico do modelo de negócio para fomentar as potencialidades econômicas de desenvolvimento local, gerando trabalho e renda com inclusão social e sustentabilidade. Ele destaca ainda o controle de resultados para combater a inadimplência, através da educação financeira. “Quem paga em dia tem um desconto de 25% aqui nessa região do Maranhão. No semiárido, que abrande algumas cidades maranhenses, o desconto pode chegar a 40%”, sublinhou.
Dados divulgados pela Superintendência do BNB no Maranhão em 2025 apontam o investimento de R$ 987,89 milhões no Agroamigo, com um total de 72.786 operações de crédito, dentre as quais 5.277 contratadas com agricultores até 29 anos e 40.481 operações feitas por mulheres empreendedoras, representando 55,6% do total. O gerente de negócios do Agroamigo em São Luís, Bruno Sá Santos, destaca ainda o novo tipo de fomento, denominado Melhoria Sanitária, que destina um crédito de R$ 3 mil para a construção ou reforma de um banheiro na casa da família contratada.
Tabico celebra um dos empréstimos para a suinocultura, no valor de R$ 100 mil, aplicado em gaiola para gestação, creche, maternidade, maquinário para fabricar ração e pisos para a creche dos porcos. Outro financiamento serviu para adquirir 17 bezerros, de 100 kg em média. Já Livramento Barbosa festejou a ampliação do banheiro da casa, agora amplo e pavimentado com porcelanato, chuveiro e vasos novos, fruto do empréstimo do Agroamigo Melhoria Sanitária.
O casal revelou o “segredo” da longa relação com o BNB: “a gente faz de tudo para pagar certinho e não tiramos nada para as coisas pessoais. Não se pega o dinheiro do banco para quitar o carro ou comprar uma moto. É para investir na produção. A reforma agrária foi importante. Sem ela eu não teria a terra. Teve a burocracia. O mesmo jeito é o banco, que me ajudou a criar a minha família. A gente tem o que mostrar. Há quatro anos a gente era bem miudinho, mas agora estamos crescendo”.
* Ed Wilson Ferreira Araújo é doutor em Comunicação (PUCRS), graduado em Jornalismo e mestre em Educação, ambos pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), presidente da Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária no Maranhão (Abraço-MA) e membro da Agência Tambor.