Milhares de hectares no Maranhão foram — e continuam sendo — grilados, invadidos e tomados do povo camponês para favorecer o agronegócio, com a corrupção patrocinada pelo poder oligárquico. O problema não é um tal “assessor ostentação”, uma figura ridícula que trabalhava no Tribunal de Justiça do Maranhão, atuando como corretor de propina para a compra de sentenças judiciais, chamando atenção pelo seu “padrão de vida”, com carros de luxo e relógios caros.
O problema, na verdade, está diretamente ligado a mais de 12 mil hectares de terra, no sul do Maranhão, em uma região onde o agronegócio avança há mais de 40 anos, para o plantio de soja em larga escala.
Estamos falando da Operação Inauditus, um trabalho da Polícia Federal, que ganhou destaque na imprensa brasileira no último dia 1º de abril.
Ela investiga a venda de sentenças no Tribunal de Justiça do Maranhão (TJ-MA), em supostos crimes que envolvem, entre outros, o ex-presidente da Assembleia Legislativa do Maranhão, Manoel Ribeiro, e o desembargador do TJ-MA, Guerreiro Júnior, que também já presidiu o Poder Judiciário maranhense.
O caso revela como a economia maranhense é direcionada ao agronegócio, que há décadas provoca exclusão social e miséria, além de gravíssimos problemas ambientais, como as mudanças climáticas. A corrupção faz parte desse problema, que tem origem política.

Terras roubadas do povo
O ex-deputado estadual Manoel Ribeiro teria subornado o desembargador Guerreiro Júnior, pagando R$ 250 mil para obter uma decisão judicial sobre a posse de um imóvel no sul do Maranhão, alvo de suspeita de grilagem.
Um contrato de compra e venda indica que essa mesma propriedade tem 12.685,22 hectares e foi negociada por Manoel Ribeiro por R$ 50 milhões, em outubro de 2017.
Manoel Ribeiro foi presidente da Assembleia Legislativa do Maranhão entre 1993 e 2003, sendo aliado estratégico do ex-senador José Sarney.
É o mesmo Sarney que controlou a estrutura oligárquica do Maranhão por 50 anos. Ele abriu as portas para a grilagem de terras no estado, tendo criado, em 1969, a Lei nº 2.979, justamente para facilitar a invasão e o roubo de áreas que antes eram ocupadas por comunidades camponesas, quilombolas, ribeirinhas e povos originários.

Também é importante registrar que a desembargadora Nelma Sarney (nora e aliada de José Sarney), assim como Guerreiro Júnior, também se encontra afastada do mesmo Tribunal de Justiça do Maranhão por venda de sentenças judiciais.
Agronegócio invadindo
A Agência Tambor entrou em contato com integrantes da Diocese de Balsas, que informaram que a área em questão tem um longo histórico de grilagem.
A invasão começou na década de 1980 e foi promovida por pessoas violentas vindas de outros estados, que cometeram crimes ambientais e, amparadas pela pistolagem, abriram espaço para o agronegócio. Era a barbárie, sob o manto da oligarquia de José Sarney.
Ironicamente, em 22 de março de 2011, o então deputado estadual Manoel Ribeiro, à época líder do governo Roseana Sarney na Assembleia, fez um discurso para “desmascarar” um grande grileiro de terras que atuava na região de Balsas.
Era cinismo puro! Seis anos depois, em 2017, o ex-presidente da Assembleia do Maranhão vendeu a terra, em que parte dela estava em litígio judicial, com o mesmo empresário que ele havia denunciado.
É o típico caso existente na história recente do Maranhão, onde um grande grileiro tenta passar a perna em outro grande grileiro.
A ponta da iceberg
A informação sobre o pagamento de R$ 250 mil feito por Manoel Ribeiro ao desembargador do Tribunal de Justiça do Maranhão, Guerreiro Júnior, consta na decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que autorizou a Operação Inauditus, deflagrada pela Polícia Federal no dia 1º de abril.
A operação da PF, tratando da venda de sentenças no Tribunal de Justiça do Maranhão, cumpriu 25 mandados de busca e apreensão em diferentes estados.
A relação de Manoel Ribeiro e Guerreiro Júnior é apenas a ponta de um iceberg da famosa oligarquia maranhense, grileira e latifundiária, que hoje está mais viva do que nunca…