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Debate na UFMA alerta para impactos da disputa global no Brasil e na América Latina

A intensificação dos conflitos internacionais e a disputa entre grandes potências já produzem efeitos concretos no Brasil e na América Latina. Em São Luís, durante palestra na Universidade Federal do Maranhão (UFMA), o professor argentino Gabriel Merino alertou para os impactos econômicos e políticos desse cenário, que tende a se aprofundar nos próximos anos.

Segundo o pesquisador, o momento atual é marcado por uma tentativa dos Estados Unidos de conter a perda de influência diante do avanço de países como China e Índia — um movimento que reposiciona regiões estratégicas, como a América Latina, no centro das disputas globais.

“O que estamos vendo é uma expressão agressiva do declínio relativo dos Estados Unidos. Há uma tentativa de conter esse processo por meio de ações mais ofensivas e de controle de territórios e recursos estratégicos”, afirmou.

Gabriel Merino é professor da Universidad Nacional de La Plata (UNPL) e da Universidad Nacional de Mar del Plata (UNMDP), e analisou o cenário internacional em entrevista ao programa Dedo de Prosa, da Agência Tambor. O pesquisador esteve em São Luís para a aula inaugural do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas, com o tema “A geopolítica mundial e os desafios para a América Latina”.

[Confira a entrevista ao final desta matéria.]

Para Merino, a América Latina volta ao centro da disputa global por concentrar recursos naturais estratégicos. Nesse contexto, os Estados Unidos buscam manter influência sobre a região e interferir nas relações com outras potências, especialmente a China.

No Oriente Médio, conflitos como o envolvendo o Irã ajudam a evidenciar os limites dessa atuação. O professor avalia que a reorganização de alianças internacionais tem reduzido a capacidade de imposição dos Estados Unidos nessas regiões.“O Irã está inserido em um bloco de relações estratégicas que dificulta uma imposição direta. Isso mostra que o cenário internacional já não é mais de hegemonia única”, destacou.

Em nossas terras

Os efeitos desse cenário já chegam ao cotidiano. No Brasil, a alta no preço dos combustíveis e de insumos agrícolas, como fertilizantes, está diretamente ligada à instabilidade internacional e à dependência de importações estratégicas.

Merino também aponta que o aumento global dos preços de recursos naturais pode gerar ganhos para países exportadores, mas ressalta que isso depende de capacidade interna de controle e distribuição dessa riqueza. Sem essa mediação, os efeitos negativos tendem a prevalecer.

No campo político, o professor avalia que a América Latina já está inserida em uma dinâmica de “guerra híbrida”, que combina disputas econômicas, informacionais e institucionais. Nesse cenário, o Brasil ocupa posição central, com processos internos cada vez mais atravessados por interesses globais.

Ele também chama atenção para o uso de narrativas como a de “narcoterrorismo” como instrumento de pressão externa e possível justificativa para intervenções na região.

Ao final, Merino defende que países latino-americanos construam estratégias próprias para garantir autonomia em um cenário de disputa global crescente. “Ou os países participam das decisões ou passam a ser apenas objeto delas”, concluiu.

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