Máquinas e veículos em área da comunidade Buriti do Sangue, em Caxias (MA), onde moradores denunciam tentativas de invasão em meio a um conflito por terras. As imagens foram enviadas à Agência Tambor pelos próprios moradores, como forma de registrar e denunciar a escalada da tensão no território. Um conflito agrário que se intensificou nos últimos dias em Caxias, no interior do Maranhão, tem mobilizado moradores da comunidade Buriti do Sangue e acendido o alerta para o risco de violência no campo. Mais de 30 famílias denunciam tentativas de invasão e pressão por parte de um empresário do agronegócio que reivindica a área onde vivem há gerações.
A situação, segundo os moradores, chegou a um ponto crítico após investidas recentes com maquinário pesado e sem ordem judicial, elevando o clima de tensão. A comunidade afirma que resiste para permanecer no território e cobra providências das autoridades para evitar um possível confronto.
“Eles estão querendo invadir a área a qualquer custo, mesmo sem autorização da Justiça”, afirma Edvan Soares Alves, presidente da Associação de Buriti do Sangue. Em entrevista, ele relata que as tentativas de entrada têm sido contidas pelos próprios moradores.
Edvan sustenta que o processo judicial em curso não considerou a versão das famílias. “Só ouviram um lado. A gente precisa ser ouvido também. Justiça é como uma balança, tem que pesar os dois lados”, disse. A declaração foi dada ao programa Dedo de Prosa, da Agência Tambor, que ouviu a liderança comunitária sobre o avanço do conflito.
[Veja a entrevista ao final desta matéria.]
De acordo com o presidente da associação, a comunidade existe há mais de 200 anos e reúne atualmente 36 famílias que vivem da agricultura de subsistência. Ele contesta a legitimidade da reivindicação de posse feita pelo empresário. “Como é que alguém pede reintegração de posse de uma terra que nunca teve?”, questiona.
O histórico da área também é apontado como elemento central da disputa. Segundo os moradores, processos antigos de arrendamento e registros fundiários teriam ampliado irregularmente o tamanho da propriedade ao longo dos anos. “Terra não cresce. Quem tinha dois mil hectares não pode aparecer com oito mil”, afirma Edvan.
Outro ponto sensível envolve denúncias sobre possíveis impactos ambientais e até a existência de antigos cemitérios na área. O líder comunitário relata que há indícios de destruição desses espaços durante intervenções recentes. “Nossa luta também é pela natureza, pelas nascentes, pelos animais. Aqui é uma das poucas áreas preservadas da região”, diz.
Além da disputa territorial, a comunidade denuncia intimidações e tentativas de aliciamento. Edvan afirma ter recebido propostas financeiras para intermediar um acordo. “Ofereceram dinheiro, carro, mas nossa terra não tem preço. O que queremos é que a verdade seja esclarecida”, declarou.
Diante do agravamento do conflito, os moradores buscaram apoio da Defensoria Pública, órgãos de direitos humanos e registraram boletins de ocorrência. A área também passou a ser monitorada pelas forças de segurança. Ainda assim, a comunidade teme novos episódios de violência. “A gente pode estar diante de um dos maiores conflitos agrários da região”, alerta.
Como encaminhamento, os moradores reivindicam que o Judiciário realize diligências no local e ouça formalmente as famílias antes de qualquer decisão. “Queremos que conheçam a nossa história e digam, com justiça, quem tem direito”, reforça Edvan.
O outro lado
A Secretaria de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular (Sedihpop) informa que acompanha a situação envolvendo famílias da comunidade Buriti do Sangue, no município de Caxias, por meio da Comissão Estadual de Prevenção à Violência no Campo e na Cidade (COECV). A equipe técnica da Comissão realizou visita in loco, com levantamento detalhado das informações, e apresentou manifestação no processo judicial, em atuação conjunta com a Defensoria Pública do Estado.
No campo da segurança, foi articulada a atuação da Polícia Militar, que realiza rondas periódicas na região, e o caso também passou a ser objeto de apuração por meio de procedimento investigativo, com o objetivo de esclarecer os fatos denunciados. Foram iniciadas tratativas com a Secretaria de Estado do Meio Ambiente (SEMA), para adoção das medidas de fiscalização ambiental cabíveis, diante dos relatos de danos ao território.
Como medida de proteção, a liderança da comunidade foi encaminhada para inclusão no programa de proteção, visando garantir sua integridade e fortalecer as ações de mediação no local. O acompanhamento segue de forma contínua e articulada entre os órgãos estaduais, com foco na prevenção de violações de direitos, na mediação do conflito e na garantia da segurança das famílias envolvidas.
Fonte: Sedihpop
[Veja na íntegra a entrevista de Edvan Soares Alves, presidente da Associação de Buriti do Sangue, ao programa Dedo de Prosa, da Agência Tambor.]