Moradores de comunidades rurais dos municípios de Magalhães de Almeida e São Bernardo, no Maranhão, fazem um alerta sobre a violência e o medo que vêm enfrentando na região. De acordo com seus relatos, episódios envolvendo pistoleiros contratados por fazendeiros se intensificaram desde agosto, com registros de tiroteios, prisões e intimidações.
O advogado Eduardo Braga, que acompanha juridicamente os agricultores ameaçados, foi o porta-voz da situação dramática vivida pelos camponeses e afirmou em entrevista à Agência Tambor, no programa Dedo de Prosa, que a escalada da violência é grave e pode resultar em tragédia.
“O fazendeiro construiu uma casa rente à cerca, no limite com a roça dos moradores, e de lá partiram disparos de arma de fogo contra as famílias. Foi uma tentativa clara de intimidação”, relatou, ao citar exemplos do enfrentamento na região.
[Veja a entrevista na íntegra ao final desta matéria.]
Segundo Braga, dois funcionários da fazenda foram presos em flagrante no dia 18 de agosto, portando armas de fogo, munição, coletes à prova de bala e radiocomunicadores. “Eles foram conduzidos à delegacia de Chapadinha, mas soltos horas depois mediante fiança. No dia seguinte, passaram em caminhonete pela comunidade soltando fogos e gritando que, se os moradores queriam guerra, ‘eles teriam guerra’”, disse o advogado.
A comunidade de São João Tourada, principal alvo dos ataques, registrou boletins de ocorrência e apresentou representação criminal contra os envolvidos. “Não estamos tratando apenas de ameaças físicas, mas também de violência psicológica. É um jogo de poder que tenta aterrorizar as famílias”, denunciou Braga.
Para o advogado, a situação reflete a histórica ausência de regularização fundiária no Maranhão. Ele citou um caso em que um único fazendeiro teria registrado 140 mil hectares de terras por meio de matrículas fraudulentas. “É o equivalente à cidade de São Paulo registrada em nome de um só indivíduo. Esse é o retrato da grilagem no estado”, afirmou.
Além da disputa agrária, há impactos ambientais e sociais. Moradores relatam que cercas foram erguidas para impedir o acesso a lagoas utilizadas pelas comunidades, restringindo atividades tradicionais. “O problema não é apenas criminal. É também ambiental e fundiário. O Estado precisa agir para garantir paz no campo”, destacou o advogado.
Braga lembrou que episódios semelhantes já ocorreram em anos anteriores na região do Baixo Parnaíba, agravados pela expansão do Matopiba e da monocultura de soja. “Essas práticas não visam colocar comida na mesa, mas gerar lucro para poucos. Enquanto isso, agricultores familiares vivem sob ameaça”, criticou.
Apesar da gravidade das denúncias, os moradores afirmam não ver resposta suficiente do poder público. “Não queremos tratar desse assunto depois de uma tragédia. É preciso ação enérgica do Estado para evitar mortes”, alertou o advogado.
Assista a entrevista completa concedida ao programa Dedo de Prosa, da Agência Tambor.