São Luís vive clima de tensão: Polícia Civil enfrenta disputas entre grupos ligados ao tráfico de drogas na capital maranhense (Imagem: Polícia Civil do Maranhão) São Luís vive dias de tensão após disputas entre facções criminosas que refletem o avanço do crime organizado nas grandes cidades brasileiras. Enquanto isso, a chacina ocorrida no Rio de Janeiro expõe a face mais brutal da política de segurança baseada na repressão.
Para especialistas, o país insiste em repetir modelos violentos e ineficazes, herança direta do período da ditadura militar, e precisa urgentemente de uma política de segurança pública pautada em inteligência e respeito aos direitos humanos.
A recente onda de violência em São Luís, motivada por disputas entre grupos ligados ao tráfico de drogas, reacendeu o debate sobre o avanço do crime organizado no Maranhão. No mesmo período, no Rio de Janeiro, uma operação policial resultou em dezenas de mortes, em mais um episódio que gerou indignação nacional e internacional.
De acordo com o advogado Luís Antônio Pedrosa, da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH), o cenário preocupante da segurança pública no Brasil “foi sequestrado pela direita desde a ditadura militar”. Ele destaca que a lógica de guerra permanece: “As polícias foram estruturadas para combater um inimigo interno. O problema é que esse inimigo passou a ser o próprio cidadão pobre, negro e periférico”.

Para Pedrosa, as chacinas não são resultado de improviso, mas de um planejamento “feito para não ser investigado”. Ele aponta que a falta de transparência e a ausência de câmeras corporais em operações como a do Rio revelam um modelo “que confunde operação policial com extermínio”.
Já o advogado Jorge Serejo, também da SMDH, classificou o Rio de Janeiro como “um laboratório da política de morte”. Segundo ele, “das cinco operações mais letais da história recente do Rio, quatro ocorreram no governo de Cláudio Castro (PL)”. E alerta: “Há um oportunismo eleitoreiro nas megaoperações. O Estado prefere o confronto à inteligência”.
Serejo observa ainda que o desequilíbrio entre investimento em repressão e em investigação mostra a falência do modelo atual. “Entre 2020 e 2024, o investimento na Polícia Civil foi de cerca de 46 milhões, contra mais de 1 bilhão na Polícia Militar. A opção do Estado brasileiro não é pela investigação, é pela força bruta”, afirmou.
Os dois advogados concordam que o endurecimento de penas e o populismo penal não são soluções eficazes. Pedrosa lembrou que “o Brasil se tornou a terceira maior população carcerária do mundo após a criação da Lei dos Crimes Hediondos”, e que “essas medidas apenas fortaleceram as facções dentro dos presídios, ampliando seu poder e alcance”.
A proposta de uma PEC da Segurança Pública, apresentada pelo governo federal, também foi debatida. Pedrosa acredita que o texto pode abrir caminho para uma integração entre as polícias, mas alerta para riscos. “O problema não é prender mais, é prender melhor. A falta de articulação entre os órgãos e a fragmentação das informações impedem o enfrentamento efetivo das organizações criminosas”, afirmou.
Serejo reforçou que é preciso construir uma política de segurança “de baixo para cima”, com participação popular. “A população que vive nas periferias deve ser ouvida. Segurança pública não é sinônimo de extermínio, é sinônimo de paz e de gestão democrática”, disse.
O debate completo com Jorge Serejo e Luís Antônio Pedrosa foi transmitido no programa Dedo de Prosa, da Agência Tambor, confira.