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A ilha sufoca: a poluição do ar ameaça o meio ambiente e a saúde de São Luís

São Luis tem índices alarmantes de poluição do ar e a perspectiva é piorar se nada for feito

A poluição do ar em São Luís, já entre as mais altas do país, tende a se agravar com o funcionamento simultâneo da refinaria de alumínio da Alumar e da termelétrica a carvão mineral da Eneva, em operação desde 5 de agosto.

Juntas, as duas empresas despejam na atmosfera da ilha mais de 110 toneladas de poluentes por dia, segundo dados analisados pelo Movimento de Defesa da Ilha. O quadro revela um cenário preocupante de contaminação do ar, poluição das águas e grave impacto na saúde pública da população da capital maranhense.

Em 2023, o Movimento já havia alertado que São Luís esteve 903 vezes em situação de emergência de qualidade do ar, conforme dados oficiais da Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Naturais (Sema) tratados pela organização. A nova intensificação das atividades industriais — tanto na Alumar quanto na usina Porto do Itaqui, da Eneva — ameaça empurrar ainda mais os limites do que a cidade consegue respirar.

O peso das chaminés

A situação ambiental de São Luís é resultado direto da dependência industrial do carvão mineral e do óleo combustível — fontes de energia fósseis conhecidas pelo alto potencial poluidor.

A Alumar, de acordo com informações prestadas pela própria empresa à Secretaria de Indústria e Comércio (Seinc), emite atualmente cerca de 62 toneladas de poluentes por dia, o equivalente a mais de 22 mil toneladas por ano. Essa carga inclui dióxido de enxofre, monóxido de carbono, óxidos de nitrogênio, partículas em suspensão e metais pesados como o mercúrio, resultantes da queima anual de quase 500 mil toneladas de carvão mineral.

A termelétrica Itaqui, operada pela Eneva, soma-se a esse quadro com mais 50 toneladas diárias de gases tóxicos, segundo cálculos da Seinc. Desde que a usina voltou a funcionar, em 5 de agosto de 2025, quase todos os dias, o ar da cidade passou a receber uma nova carga de dióxido de enxofre e material particulado — compostos diretamente associados a doenças respiratórias e cardiovasculares.

Baía contaminada e riscos invisíveis

Segundo o Movimento de Defesa da Ilha, o impacto desse modelo energético vai além da atmosfera. A Baía de São Marcos, que banha parte da ilha, tem sido contaminada por metais pesados, especialmente mercúrio, que se acumula nos peixes consumidos pela população.

“A queima de carvão mineral em São Luís é uma prática que ameaça o meio ambiente e a saúde humana”, alerta o advogado e ativista ambiental Guilherme Zagallo, que coordena a análise dos dados do movimento.

Para efeito de comparação, uma usina termelétrica a carvão de médio porte, com emissões na casa das 50 toneladas diárias de dióxido de enxofre, libera na atmosfera quantidade equivalente ao que milhões de veículos emitiriam no mesmo período, considerando os limites médios estabelecidos pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) na Resolução nº 491/2018.

Fiscalização falha e dados apagados

Enquanto isso, a cidade carece de fiscalização efetiva. O Movimento de Defesa da Ilha cobra que Ibama e Sema intensifiquem as ações sobre os empreendimentos que queimam carvão mineral e que a nova Lei de Zoneamento e Uso do Solo de São Luís proíba de vez o uso desse combustível na ilha, além de limitar o uso de gás natural pelas indústrias.

Em 2024, os dados da rede de monitoramento mantida pela Secretaria de Indústria e Comércio ficaram sem registros por quase seis meses e, quando retornaram, apresentaram queda. A situação chamou a atenção dos pesquisadores do movimento, que emitiram alertas sobre a falta de transparência e fiscalização.

O monitoramento público da poluição é parte das condições de licenciamento das empresas que atuam no Distrito Industrial e, portanto, deveria estar ativo de forma contínua. A Agência Tambor tratou do tema, na época, no programa Dedo de Prosa.

Respirar é resistir

Pesquisas da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) apontam que a poluição do ar em São Luís pode ser causa do aumento de doenças respiratórias, afetando especialmente as comunidades próximas ao polo industrial.

“O resultado das pesquisas indicou uma área mais central da cidade e uma área próxima à região Itaqui-Bacanga, próxima ao Distrito Industrial. Portanto, as pessoas nessas áreas podem estar adoecendo devido a doenças respiratórias. Identificamos também duas grandes fontes de poluição: os veículos automotores e as indústrias”, explica a doutora em Geografia Humana Márita Ribeiro, da UFMA.

A poluição do ar não é uma ameaça distante. É uma realidade invisível — um coquetel de venenos que a população da ilha inala a cada respiração, colocando em risco sua saúde e o futuro do planeta.

Gases tóxicos como o monóxido de carbono, um “assassino silencioso”, roubam o oxigênio do sangue, podendo causar desde tontura até a morte. O dióxido de enxofre e os óxidos de nitrogênio corroem o sistema respiratório e formam a chuva ácida, que devasta florestas e rios.

Mas a pior ameaça são as partículas em suspensão — uma poeira microscópica que penetra fundo nos pulmões e na corrente sanguínea. Elas estão por trás de casos de asma, doenças cardíacas, câncer e até demência. Para completar, metais pesados como o mercúrio, liberados por indústrias, contaminam o meio ambiente e se acumulam no corpo, atacando o sistema nervoso e causando danos irreversíveis. Respirar ar poluído é uma escolha que ninguém pode fazer.

Os alertas sobre os componentes e seus riscos são da Organização Mundial da Saúde (OMS).

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