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Exposição em Codó retrata resistência de comunidades tradicionais e denuncia violência no campo

A mostra apresenta o cotidiano, a cultura e a história de povos e comunidades tradicionais do Maranhão. (Imagem: Arquivos Comissão Pastoral da Terra – Maranhão)

A luta pela terra, a resistência à violência e a preservação dos modos de vida de povos e comunidades tradicionais do Maranhão são retratadas na exposição fotográfica “Teimosia de Viver”, que chega a Codó no dia 4 de novembro. Mais do que registrar conflitos agrários, a mostra apresenta o cotidiano, a cultura e a história dessas populações a partir de fotografias produzidas por integrantes das próprias comunidades.

Organizada pela Comissão Pastoral da Terra no Maranhão (CPT-MA), a exposição ficará aberta até 30 de novembro, com visitação gratuita na Galeria de Exposições Fotográficas do Centro de Ciências de Codó (CCCo), da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). A programação inclui rodas de conversa, atividades educativas e debates sobre direitos territoriais, memória e trabalho escravo contemporâneo.

A iniciativa nasceu do trabalho de acompanhamento das comunidades realizado pela CPT-MA ao longo de quase cinco décadas. A proposta reúne fotografias de seu arquivo histórico e registros atuais produzidos nos territórios. Segundo o agente pastoral Raniere Roseira, mais de 200 fotografias foram inscritas no processo de seleção, que escolheu trabalhos de 17 fotógrafos, totalizando cerca de 42 imagens.

“Essa teimosia é uma resistência do viver, e não do sobreviver”, afirmou Raniere em entrevista ao programa Dedo de Prosa, da Agência Tambor. Para ele, a exposição expressa a determinação de comunidades que enfrentam ameaças e violência, mas continuam lutando pelo direito de permanecer em suas terras e preservar suas formas de organização.

[Veja entrevista na íntegra ao final desta matéria.]

A mostra já passou por São Luís, em junho, e pelo município de Matões, em julho, durante o 17º Encontro da Teia dos Povos e Comunidades Tradicionais do Maranhão. Em Codó, a proposta ganha uma dimensão educativa ampliada, com a participação da universidade, de escolas e de moradores dos territórios.

Fotografia como instrumento de denúncia e resistência

Um dos diferenciais de “Teimosia de Viver” está na autoria das imagens. Em vez de apresentar apenas o olhar de fotógrafos externos, a exposição valoriza os registros de quem vive diariamente as experiências retratadas. São cenas de rituais, mutirões, produção de farinha, quebra do coco babaçu e iniciativas de proteção dos territórios contra o fogo.

Raniere explicou que essa escolha tem um significado político e pedagógico. As fotografias permitem que seus autores apresentem a própria história, identifiquem pessoas e expliquem práticas culturais muitas vezes desconhecidas pela população urbana. A proposta também busca aproximar campo e cidade e combater preconceitos contra os povos tradicionais.

A participação comunitária se estende à montagem da exposição. Moradores de diferentes territórios realizam mutirões para produzir painéis e estruturas utilizando materiais como palha e bambu. Comunidades de municípios como Codó, Matões, Timbiras e Parnarama estão envolvidas nesse processo. Dessa forma, os conhecimentos tradicionais também passam a integrar o espaço físico da mostra.

A beleza das imagens, entretanto, convive com denúncias de violência. Segundo Raniere, os conflitos agrários no Maranhão continuam ameaçando a permanência das comunidades em seus territórios, situação agravada, conforme seu relato, pelo uso de agrotóxicos e por outras formas de agressão. O agente pastoral também criticou a demora na efetivação da reforma agrária e defendeu a continuidade da mobilização social para cobrar medidas do poder público.

“Nós não estamos pedindo migalha”, declarou. Para ele, a eleição de governos apoiados pelos movimentos populares não encerra a necessidade de cobrança. A garantia da terra, da segurança, da educação, da saúde e da soberania alimentar deve permanecer entre as reivindicações das comunidades.

Universidade, memória e direitos territoriais

A chegada da exposição à UFMA também pretende aproximar a universidade das comunidades quilombolas, indígenas e de outros povos tradicionais da região. A professora de História Cinthia Moreira destacou que Codó possui uma formação histórica profundamente marcada pela presença indígena e africana, cuja contribuição nem sempre recebeu o devido reconhecimento.

“Não são professores os porta-vozes de ninguém. São eles mesmos ocupando seus espaços”, disse Cinthia ao programa Dedo de Prosa. Segundo ela, a universidade deve reconhecer os moradores das comunidades como produtores de conhecimento, valorizando a história oral, os saberes ancestrais e as experiências de resistência.

A professora ressaltou que a exposição também integra as discussões do Mês da Consciência Negra. A expectativa é receber estudantes, professores da educação básica e moradores de Codó e municípios vizinhos. Na abertura, em 4 de novembro, estão previstas rodas de conversa e a exibição do documentário Servidão, dirigido por Renato Barbieri, que aborda o trabalho escravo contemporâneo. Um dos participantes do filme, Marinaldo, também deverá participar dos debates.

Cinthia defendeu ainda que as discussões possam resultar em um documento coletivo, assinado por lideranças, para reivindicar a proteção dos territórios e o cumprimento dos direitos assegurados pela Constituição. A proposta foi apresentada durante a entrevista, sem confirmação de sua realização. Para a professora, o enfrentamento da violência no campo não pode ficar restrito às populações diretamente atingidas. “Essa não é uma luta só deles. Essa tem que ser uma luta de todos nós.”

A exposição conta com o apoio da Grassroots International, Misereor, das campanhas Agro é Fogo e Salve a Floresta e do Ministério Público do Trabalho no Maranhão (MPT-MA).

Serviço

  • Exposição: Teimosia de Viver
  • Abertura: 4 de novembro de 2026
  • Período: 4 a 30 de novembro
  • Local: Galeria de Exposições Fotográficas do Centro de Ciências de Codó (CCCo), UFMA, Codó (MA)
  • Entrada: Gratuita
  • Realização: Comissão Pastoral da Terra no Maranhão (CPT-MA), com parceria da UFMA
  • Programação: Exposição fotográfica, rodas de conversa, atividades educativas e debates sobre direitos territoriais e trabalho escravo contemporâneo.

[Assista a entrevista de Raniere Roseira, agente pastoral da CPT e de Cinthia Moreira, professora de História da UFMA, ao programa Dedo de Prosa.]

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