Área industrial e portuária de São Luís: à margem do debate eleitoral, emissões de grandes empreendimentos estão entre os fatores que comprometem a qualidade do ar na capital maranhense e afetam a saúde da população. (Imagem: reprodução Agência Pública) Crise climática, avanço do agronegócio, uso de agrotóxicos, insegurança alimentar, conflitos territoriais, falta de saneamento e precarização do trabalho deveriam ocupar o centro da eleição para o governo do Maranhão. A avaliação é de Saulo Arcangeli, candidato do PSTU, que critica a ausência desses temas no debate eleitoral e relaciona parte dos problemas sociais do estado ao modelo de desenvolvimento adotado nas últimas décadas.
Professor da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA) e doutor em políticas públicas, Arcangeli direcionou críticas principalmente às candidaturas de Eduardo Braide e Orleans Brandão, que, na avaliação dele, representam grupos políticos ligados à antiga estrutura oligárquica do estado.
Para o candidato, a concentração da disputa nesses grupos acaba deixando em segundo plano problemas que atingem diretamente a vida dos maranhenses. O candidato esteve no programa Dedo de Prosa, da Agência Tambor.
[Veja entrevista na íntegra ao final desta matéria.]
Avanço do agronegócio e crise ambiental
Durante a entrevista, realizada enquanto cumpria agenda de campanha em Caxias, Arcangeli usou a situação da região dos Cocais como exemplo. Segundo ele, a expansão da soja, do eucalipto e de outros grandes empreendimentos tem provocado retirada da vegetação nativa, pressão sobre comunidades e agravamento das altas temperaturas. “Nós estamos aí num processo de desertificação do estado do Maranhão”, afirmou. Ele citou 68 municípios maranhenses que estariam sob ameaça de desertificação.
Na avaliação do candidato, o modelo econômico privilegia grandes empreendimentos enquanto reduz as condições para a produção familiar. “Você transforma tudo em soja, tudo em eucalipto, você retira todos esses recursos naturais e a produção”, disse. Arcangeli defendeu maior investimento em agricultura familiar, agroecologia e cadeias produtivas ligadas à pesca e ao babaçu.
Outro ponto destacado foi o uso de agrotóxicos. O candidato defendeu a proibição da pulverização aérea no Maranhão e citou denúncias de comunidades atingidas diretamente por veneno. Entre os casos mencionados está o de uma quilombola de Parnarama que, segundo seu relato, teria sido atingida durante o trabalho na roça. Arcangeli também afirmou que o consumo de agrotóxicos cresceu fortemente no estado na última década e relacionou a exposição a problemas de saúde. Os números apresentados por ele não foram verificados durante a entrevista.
Territórios, água e saneamento
Arcangeli também relacionou a crise ambiental aos conflitos que atingem indígenas, quilombolas e trabalhadores rurais. Segundo ele, invasões, garimpo ilegal, exploração de madeira e demora na titulação de terras mantêm comunidades sob pressão. O candidato citou ainda conflitos pelo acesso à água e defendeu a proteção das bacias hidrográficas, dos parques ambientais e de territórios como a Reserva Extrativista de Tauá-Mirim, em São Luís.
A situação do saneamento foi usada para exemplificar o impacto das políticas públicas sobre a população. Segundo Arcangeli, apenas 27% das residências maranhenses teriam acesso a esgotamento sanitário, enquanto uma parcela ainda menor do esgoto seria tratada. Ele também chamou atenção para as condições das escolas públicas e para a contaminação de rios e do litoral. “Tudo vai para o mar, tudo vai para os nossos rios”, afirmou.
Para o candidato, os efeitos desse modelo aparecem também na capital. Ele criticou a permanência da queima de carvão mineral em empreendimento industrial no Itaqui e relacionou atividades poluentes ao aumento de problemas respiratórios. Também defendeu maior proteção às áreas responsáveis pelo abastecimento de água de São Luís.
Riqueza produzida e pobreza da população
A desigualdade entre a riqueza produzida no estado e as condições de vida da população foi outro eixo da entrevista. Arcangeli citou municípios com elevado Produto Interno Bruto (PIB) per capita, como Santo Antônio dos Lopes e Godofredo Viana, para argumentar que a presença de grandes empreendimentos não se converte necessariamente em melhoria das condições de vida dos moradores.
Ele também chamou atenção para a informalidade no mercado de trabalho, que, segundo afirmou, alcança cerca de 60% dos trabalhadores maranhenses. “É impossível nós termos o Maranhão com as riquezas indo embora”, criticou. Na avaliação do candidato, mineração, geração de energia e agronegócio produzem riqueza no território sem garantir retorno proporcional à população.
A fome e a produção de alimentos também entraram no debate. Arcangeli afirmou que 43% da população maranhense enfrenta algum grau de insegurança alimentar e que cerca de 10% estaria em situação de fome. Segundo ele, o problema precisa ser enfrentado não apenas com restaurantes populares e cozinhas comunitárias, mas com fortalecimento da agricultura familiar e de cadeias locais de produção. O candidato também criticou a dependência de alimentos trazidos de outros estados.
Debate eleitoral
Ao longo da entrevista, Arcangeli afirmou que pretende usar a campanha para levar esses temas ao debate público e acusou seus principais adversários de não enfrentarem as causas estruturais dos problemas. Para ele, Eduardo Braide e Orleans Brandão representam hoje os principais grupos oligárquicos em disputa pelo governo. Também criticou outras forças políticas que participaram de administrações anteriores. As candidaturas mencionadas não participaram da entrevista, e suas posições sobre as críticas apresentadas não foram ouvidas no programa.
Na área da cultura, o candidato ainda criticou a concentração de recursos em grandes shows e produtoras, enquanto artistas e grupos populares enfrentam dificuldades para acessar financiamento público. Defendeu editais mais democráticos, valorização permanente da cultura popular, fortalecimento de conselhos e equipamentos culturais nos bairros e maior apoio aos fazedores de cultura.
Para Arcangeli, discutir a eleição a partir das condições concretas de vida da população exige colocar no centro temas que normalmente aparecem de forma secundária nas campanhas. “Não adianta você botar proposta por proposta”, afirmou. Segundo ele, é necessário discutir quem sustenta determinado modelo de desenvolvimento e quais consequências ele produz sobre trabalhadores, comunidades tradicionais e o meio ambiente.
[Veja a entrevista de Saulo Arcangeli, professor da UEMA, doutor em políticas públicas e candidato ao governo do Maranhão pelo PSTU, ao programa Dedo de Prosa.]