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Bom Acerto: conquista da terra abre caminho para reconstrução da comunidade em Balsas

Em 2023,casas de trabalhadores rurais foram queimadas com todos os pertences destruídos e animais de estimação mortos em meio ao fogo. (Imagem: Acervo pessoal)

Há dois anos, a Comunidade Bom Acerto, em Balsas, no sul do Maranhão, reconstrói a vida a partir da agricultura familiar e do extrativismo.

Depois de um longo período marcados por destruição, ameaças e disputa fundiária, a conquista da terra abriu caminho para a retomada da produção e da vida comunitária, embora desafios de infraestrutura ainda permaneçam.

As famílias já produzem mandioca, farinha e milho, têm casas construídas e voltaram a tirar da terra parte importante do próprio sustento.

A situação contrasta com o cenário enfrentado a partir de agosto de 2020, quando máquinas chegaram à antiga área ocupada pelas famílias e destruíram casas e plantações. O episódio deu início a uma longa batalha pela garantia de um lugar para a comunidade. O conflito terminou com um acordo que assegurou às famílias uma nova área, de cerca de 70 hectares.

“Hoje eu posso deitar a cabeça no travesseiro e dormir tranquila, porque eu sei que lá eles estão protegidos, estão trabalhando e têm as condições mínimas para conseguir desenvolver as atividades deles novamente”, afirmou a advogada Lucilene Nunes em entrevista ao programa Dedo de Prosa, da Agência Tambor. Nascida e criada em Bom Acerto, ela participou da luta da comunidade e atualmente integra a Comissão de Direitos Humanos da OAB em Balsas.

[Veja a entrevista na íntegra ao final desta matéria.]

Da destruição à retomada da produção

A nova área permitiu que as famílias retomassem atividades que faziam parte de seu modo de vida. Segundo Lucilene, a terra tem boas condições para o cultivo da mandioca, principal produto da comunidade, além de possibilitar o extrativismo do buriti e do pequi.

As casas já foram construídas e um poço foi perfurado. A casa de farinha ainda está em fase de conclusão, mas já começou a funcionar. A experiência dos moradores na produção também passou a atender agricultores de comunidades próximas, que levam mandioca até Bom Acerto para ser beneficiada. Parte da farinha produzida fica com as famílias como pagamento pelo trabalho. Além da mandioca, os moradores plantam milho, que também é comercializado em Balsas.

Para Lucilene, cada avanço carrega a memória das pessoas que participaram da resistência, mas morreram antes de acompanhar a reconstrução da comunidade. Entre elas está seu pai. “A gente não tem como contar essa vitória sem lembrar da luta que eles enfrentaram e, infelizmente, não puderam usufruir”, disse, emocionada.

Terra também é memória

A história de Bom Acerto, no entanto, não se resume à conquista de uma área para plantar. Para as famílias, permanecer juntas e reconstruir a comunidade também significa preservar vínculos, memória e uma história coletiva atravessada por gerações.

Lucilene recordou a atuação de sua mãe, que liderou a comunidade, criou escola na zona rural e alfabetizou crianças e adultos. Segundo a advogada, esse acesso ao conhecimento também ajudou os moradores a reagirem quando tiveram suas casas destruídas. “Se nós não tivéssemos esse conhecimento, no dia que derrubaram aquelas casas, a gente tinha ido deitar e chorar no capim. Mas foi a partir daí que a gente soube para onde ir, a gente soube a quem buscar”, contou.

A mobilização contou ainda com apoio de organizações sociais e de defesa dos direitos humanos. Lucilene destacou a participação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, da Comissão Pastoral da Terra (CPT), de organizações ligadas à Igreja Católica e de profissionais que atuaram na defesa jurídica das famílias. “Numa luta dessa ninguém caminha sozinho. Você pode até caminhar, mas você não vai longe. O que nos levou até o final vitorioso foi a luta de mãos dadas”, afirmou.

As mulheres tiveram papel central nesse processo. Lucilene destacou especialmente Norinda, conhecida como Noquinha, uma das lideranças da comunidade. Segundo ela, a moradora ajudava a manter as famílias mobilizadas nos períodos mais difíceis. “Quando alguém às vezes estava amolecendo, ela dizia: ‘levanta a cabeça, levanta a cabeça que aqui ninguém pode esmorecer’.”

Bom Acerto venceu, mas conflitos continuam

A experiência de Bom Acerto também expõe um problema que permanece no sul do Maranhão: a pressão sobre pequenos agricultores e comunidades rurais em disputas pela terra. Na avaliação de Lucilene, apesar dos avanços institucionais na mediação de conflitos fundiários, ainda faltam mecanismos capazes de proteger efetivamente a posse e a propriedade dos pequenos produtores.

Durante a entrevista, ela relatou ter tomado conhecimento de outra comunidade rural de Balsas onde famílias teriam deixado terras sem documentação depois da chegada de uma grande empresa. Segundo Lucilene, os moradores aceitaram valores inferiores ao que consideravam justo e desistiram de questionar o caso por medo de enfrentar a empresa. A denúncia foi apresentada pela advogada durante a entrevista; a empresa envolvida não foi identificada e, portanto, não houve contraditório sobre o relato.

Para Lucilene, a disputa territorial também precisa ser compreendida a partir da importância da agricultura familiar para o abastecimento da população. “É importante ter as grandes produções, é importante ter a produção de soja em larga escala. Mas a gente sabe que esses grãos não ficam aqui. O que põe alimento na mesa da gente aqui é a agricultura familiar, é o pequeno produtor”, argumentou.

Conquista não encerrou os desafios

Em Bom Acerto, a reconstrução ainda enfrenta problemas de infraestrutura. Apesar da perfuração do poço, Lucilene afirma que dificuldades relacionadas ao fornecimento de energia impedem que o sistema garanta água adequadamente para toda a comunidade. Segundo ela, é necessária uma regularização por parte da Equatorial para melhorar o abastecimento na área. A empresa não participou da entrevista e não apresentou posicionamento sobre a questão.

Ainda assim, a realidade de hoje representa uma mudança profunda para quem enfrentou a destruição das casas e anos de insegurança. “A comunidade Bom Acerto venceu”, resumiu Lucilene. Para ela, a experiência mostra que a organização coletiva foi decisiva para que as famílias voltassem a produzir, reconstruíssem suas casas e, sobretudo, recuperassem o direito de viver sem a ameaça permanente de perder novamente seu lugar.

[Veja a entrevista de Lucilene Nunes ao programa Dedo de Prosa, da Agência Tambor.]

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