A bolsa Chevening financia cursos de mestrado no Reino Unido. No Maranhão, iniciativa busca ampliar o acesso à informação e à preparação para que mais pessoas possam disputar oportunidades internacionais. (Imagem: Acervo Rede) Estudar no exterior ainda parece uma possibilidade distante para quem enfrenta barreiras econômicas, geográficas e até de acesso ao inglês. No Maranhão, uma iniciativa do Mulheres Aprendendo Inglês (MAI) busca diminuir essa distância ao divulgar oportunidades internacionais e orientar pessoas interessadas em concorrer a bolsas de estudo, entre elas a Chevening, programa do governo britânico que financia cursos de mestrado no Reino Unido.
O MAI promoveu, em parceria com a Embaixada Britânica no Brasil, um encontro gratuito para apresentar a bolsa e esclarecer dúvidas sobre a candidatura. A iniciativa procura fazer com que oportunidades desse tipo cheguem também a pessoas negras, quilombolas, indígenas e moradores das regiões Norte e Nordeste, grupos que, segundo a fundadora do projeto, Dayane Brito, ainda enfrentam desigualdades no acesso à formação e às experiências acadêmicas internacionais.
“Quando a gente fala em preparação para esse tipo de oportunidade, a gente esbarra inicialmente nessa questão do acesso à língua inglesa”, afirmou Dayane Brito em entrevista ao programa Dedo de Prosa, da Agência Tambor. Para ela, além da barreira do idioma, existe uma desigualdade no próprio acesso às informações sobre bolsas e programas internacionais.
[Veja a entrevista na íntegra o final desta matéria.]
Inglês não precisa ser avançado para começar
Um dos pontos destacados durante o encontro foi justamente a tentativa de desfazer a ideia de que somente pessoas com inglês avançado ou uma trajetória acadêmica excepcional podem disputar uma bolsa internacional.
Dayane citou o relato de uma maranhense que participou do encontro e atualmente conclui o mestrado em Liverpool. Quando iniciou a candidatura, segundo a fundadora do MAI, ela tinha nível intermediário de inglês. “Quando a gente pensa em estudar fora ou se candidatar para oportunidades internacionais, a gente pensa que precisa ter um inglês avançado e perfeito, sem erro. Não”, explicou.
Para Dayane, preparação é uma palavra central nesse processo. O candidato pode buscar auxílio para revisar os textos em inglês, preparar-se para a entrevista e desenvolver o idioma ao longo das diferentes etapas da seleção. O teste de proficiência, por exemplo, não é exigido na etapa inicial da candidatura à bolsa. Algumas universidades também permitem que o estudante faça a inscrição antes de apresentar essa certificação, condicionando a admissão definitiva ao cumprimento posterior da exigência.
Candidatura exige graduação e experiência profissional
A Chevening é voltada a pessoas que já concluíram a graduação e possuem experiência profissional após a formação. Na primeira etapa, os candidatos precisam preencher a inscrição e produzir textos em inglês relacionados a temas como liderança, construção de redes de relacionamento, escolha do Reino Unido como destino de estudos e planejamento profissional.
Também é necessário indicar cursos e universidades de interesse. A candidatura às instituições de ensino ocorre separadamente da seleção para a bolsa. Em uma etapa posterior, são exigidas referências profissionais ou acadêmicas. Os candidatos selecionados avançam para uma entrevista, na qual apresentam à banca aspectos da trajetória, dos objetivos profissionais e da contribuição que pretendem oferecer depois do retorno ao país.
Mais do que avaliar uma carreira já consolidada, segundo Dayane, o programa considera a capacidade de liderança e o impacto que o candidato pretende produzir. Essa liderança não precisa estar associada necessariamente a um cargo formal. Atuação em projetos e iniciativas desenvolvidas dentro das próprias comunidades também pode fazer parte dessa trajetória.
Desigualdade também limita oportunidades internacionais
Para o MAI, porém, informar como funciona a candidatura é apenas parte do desafio. Dayane chama atenção para as condições desiguais que determinam quem consegue chegar preparado a processos seletivos internacionais. No Maranhão, a dificuldade de acesso ao ensino de inglês se soma ao desconhecimento sobre programas de bolsas e às desigualdades regionais que historicamente concentram oportunidades educacionais.
“Esse tipo de oportunidade ainda é muito desconhecida e ainda precisa ser ampliada para pessoas negras, pessoas quilombolas, indígenas, pessoas que não estejam apenas na região Sul e Sudeste”, afirmou. Segundo ela, aproximar essas informações da população também ajuda a enfrentar a percepção de que bolsas internacionais estariam reservadas a um grupo restrito. “É mais próximo do que a gente imagina. E aí passa muito pelas condições de acesso à preparação.”
Criado para ampliar o acesso de mulheres ao aprendizado da língua inglesa, o MAI passou a incorporar também ações voltadas à formação acadêmica e às oportunidades internacionais. Entre elas está o Mulheres Bilíngues no Mundo, iniciativa que trabalha com inglês acadêmico, mentorias e preparação para processos seletivos fora do país.
O encontro sobre a Chevening foi aberto a todo o público, apesar de o MAI ter como foco principal as mulheres. Para Dayane, ampliar o acesso à informação é parte da própria democratização dessas oportunidades. “A gente quer, nessas nossas atividades, desmistificar esse universo de oportunidades por meio do inglês”, disse. A expectativa agora é ampliar as atividades e estabelecer novas parcerias para que mais pessoas no Maranhão consigam conhecer — e disputar — oportunidades acadêmicas internacionais.
Veja a entrevista de Dayane Brito, uma das fundadoras do MAI, ao programa Dedo de Prosa.]