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Maranhão acompanha avanço da regulação da cannabis

Evento promovido pelo Armazém do Campo (MST) discutiu as possibilidades de inserção da cannabis em projetos ligados à reforma agrária, à agroecologia e à geração de renda nos territórios rurais.

O processo de regulamentação da cannabis no Brasil entrou em uma nova etapa com a publicação de resoluções da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) voltadas à pesquisa científica, ao cultivo por associações e à produção nacional de medicamentos à base da planta.

As mudanças são acompanhadas por pesquisadores, movimentos sociais e associações de pacientes, que defendem maior segurança jurídica, ampliação do acesso aos tratamentos e participação da agricultura familiar nesse mercado em expansão.

O tema ganhou destaque também em São Luís, onde foi realizado, na última semana, o Seminário Saúde, Agroecologia e Desenvolvimento Territorial, promovido no Armazém do Campo, do MST. O encontro discutiu as possibilidades de inserção da cannabis em projetos ligados à reforma agrária, à agroecologia e à geração de renda nos territórios rurais.

Professor da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e integrante da Associação Acolhedeira, Ricardo Monteles avalia que o país vive um momento de transição regulatória, marcado pela convergência entre mobilização social, produção científica e atuação institucional.

“Nós estamos diante de um processo que está mudando. À medida que a gente fala sobre isso, participa de congressos, produz pesquisa e articula políticas públicas, a gente avança um pouco mais”, afirmou em entrevista ao programa Dedo de Prosa.

[Veja a entrevista na íntegra ao final desta matéria.]

Judicialização e regulação sanitária

Segundo Monteles, a regulamentação da cannabis no Brasil ocorre atualmente em duas frentes distintas: a judicial e a sanitária.

A primeira envolve decisões judiciais que autorizam associações, coletivos e pacientes a realizarem o cultivo para fins terapêuticos e científicos. O professor ressalta que, apesar dos avanços, ainda existem episódios de apreensões e intervenções policiais em associações que atuam de forma organizada.

“Até agora, para ter uma regulação efetiva, muitas vezes é necessário acessar o sistema de Justiça, seja por meio de habeas corpus preventivos, seja por ações civis públicas”, explicou.

Já a dimensão sanitária está relacionada às recentes resoluções publicadas pela Anvisa. Entre elas estão normas voltadas à pesquisa científica, à fabricação nacional de produtos derivados da cannabis, ao cultivo e ao funcionamento das associações.

Monteles atribui parte desse avanço ao diálogo estabelecido entre a agência reguladora, pesquisadores e representantes do movimento canábico.

“Houve um movimento importante de escuta das associações, dos pesquisadores e dos coletivos. Isso permitiu construir instrumentos regulatórios mais conectados com a realidade brasileira”, disse.

Pesquisa científica ganha espaço

Um dos principais debates em andamento diz respeito à regulamentação das pesquisas científicas com cannabis.

Monteles integra o Grupo de Trabalho Nacional de Regulamentação da Pesquisa Científica com Cannabis, formado por 29 universidades, além da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

De acordo com ele, uma das conquistas recentes foi a flexibilização dos limites para pesquisas envolvendo o THC, substância associada aos efeitos psicoativos da planta.

“O limite de 0,3% de THC ter sido revisto representa uma vitória importante para a pesquisa científica e para a saúde pública, porque existem condições clínicas que demandam formulações com maior concentração dessa molécula”, afirmou.

O pesquisador destaca que estudos desenvolvidos em universidades e associações já investigam diferentes aplicações terapêuticas, incluindo tratamentos para idosos, pessoas neurodivergentes e pacientes com dores crônicas.

Há também iniciativas ligadas ao desenvolvimento de produtos, melhoramento genético, adaptação da planta às condições brasileiras e novas tecnologias associadas ao uso medicinal da cannabis.

Associações reivindicam segurança jurídica

Outro eixo central do debate envolve o papel das associações de pacientes.

Segundo Monteles, essas organizações têm sido fundamentais para democratizar o acesso aos tratamentos, especialmente entre pessoas em situação de vulnerabilidade social.

“As associações fazem acolhimento, escuta, orientação e produzem conhecimento. Elas não funcionam apenas como um espaço de distribuição de óleo, mas como ambientes de construção coletiva de cuidado”, afirmou.

Ele destacou o trabalho desenvolvido pela Acolhedeira, em São Luís, e mencionou outras iniciativas existentes no Maranhão, como o Instituto Tricomas.

Além da assistência aos pacientes, as associações atuam na produção de dados, no apoio jurídico para cultivadores e na formação de redes comunitárias de cuidado.

Monteles afirma que a regulamentação em discussão poderá trazer maior estabilidade institucional para essas experiências.

“Precisamos blindar as associações. São espaços que desenvolvem um trabalho sério, transparente e que oferecem alternativas concretas de acesso à saúde”, argumentou.

Cannabis e agricultura familiar

O debate realizado em São Luís também abriu espaço para uma discussão ainda recente no país: o potencial da cannabis para a agricultura familiar.

Para Monteles, trata-se de uma cultura com elevada capacidade econômica e grande versatilidade produtiva.

“A cannabis é uma das plantas com maior potencial de geração de riqueza no mundo hoje. Produz muito em pouca área, adapta-se facilmente a diferentes condições ambientais e ainda apresenta características ambientais importantes, como elevada capacidade de captura de carbono”, afirmou.

Na avaliação do pesquisador, o desafio está em definir qual modelo de desenvolvimento será adotado caso a produção seja regulamentada em larga escala.

“Qual é o projeto de desenvolvimento que queremos construir? Um modelo concentrado nas grandes propriedades ou uma alternativa vinculada à agricultura familiar, à agroecologia e aos assentamentos?”, questionou.

Durante o seminário, representantes do MST, pesquisadores, associações e integrantes do sistema de Justiça discutiram possibilidades de cooperação para pesquisa, assistência técnica e formação de coletivos produtivos nos territórios rurais.

Monteles considera que o movimento representa uma nova etapa no debate nacional sobre cannabis.

“Existe uma riqueza enorme associada a essa planta. O que está em disputa agora é como essa riqueza será distribuída e quem vai participar desse processo”, concluiu.

[Veja entrevista de Ricardo Monteles, professor da UFMA e integrante da Associação Acolhedeira, ao programa Dedo de Prosa.]

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