O encontro nasce no Coroadinho como resposta aos estigmas historicamente associados às periferias e como afirmação das potências culturais e políticas produzidas no bairro. (imagem: Reprodução Rede) O bairro do Coroadinho, em São Luís, será palco no próximo dia 6 de junho do encontro “Cultura, Comunicação Popular e Organização Comunitária no Coroadinho”, promovido pelo Coletivo Mulheres Negras da Periferia – Casa das Pretas em parceria com a Agência Tambor.
A atividade reunirá mestres e mestras da cultura popular, comunicadores populares, lideranças comunitárias e coletivos periféricos para discutir estratégias de fortalecimento da comunicação ancestral, da cultura e da organização popular nos territórios.
A programação acontece a partir das 14h, na Casa das Pretas, e contará com rodas de conversa, oficinas, construção coletiva de cartilha e apresentações culturais. A participação é gratuita e as inscrições já estão disponíveis.
As organizadoras defendem que o encontro nasce como resposta aos estigmas historicamente associados às periferias e como afirmação das potências culturais e políticas produzidas dentro do Coroadinho.
“Quando a gente pesquisava sobre o Coroadinho, só apareciam as piores matérias, violência, droga, morte. Mas quem mora aqui conhece outra realidade. A cultura nasce aqui”, afirmou Jú do Coroadinho, assistente social, escritora e fazedora de cultura.

Em entrevista concedida ao programa Dedo de Prosa, da Agência Tambor, Jú destacou que o território abriga dezenas de grupos culturais, terreiros, tambor de crioula, bumba meu boi e iniciativas comunitárias que raramente ganham visibilidade na mídia tradicional. Segundo ela, a comunicação popular surge também como ferramenta de sobrevivência e disputa de narrativa.
[Veja a entrevista na íntegra ao final desta matéria.]
“A gente começou a pensar comunicação muito nesse sentido de mudar a narrativa sobre o bairro e fazer uma comunicação pros nossos, de dentro para dentro”, disse.
Jéssica Vitória, dançarina, assistente social e também diretora do Coletivo Mulheres Negras da Periferia, também participou do bate-papo e afirmou que o trabalho desenvolvido pela Casa das Pretas busca fortalecer a autoestima coletiva e combater o preconceito histórico contra moradores da periferia. Ela relatou que, durante muito tempo, escondia que era moradora do Coroadinho por causa dos estigmas associados ao território.
“Hoje eu consigo falar do meu bairro enquanto potência. Isso também é comunicação. É falar da cultura, da ancestralidade e das coisas boas que existem dentro do Coroadinho”, declarou.
As entrevistadas também criticaram a ausência de políticas públicas estruturantes para os fazedores de cultura popular. Segundo elas, mestres e mestras da cultura enfrentam dificuldades para manter grupos ativos durante o ano inteiro e seguem invisibilizados pelo poder público, apesar da relevância histórica e social de seus trabalhos.
“Durante muito tempo disseram que a gente fazia cultura por amor. Mas que amor é esse que não gera renda, que não gera estabilidade?”, questionou Jéssica ao comentar os desafios enfrentados pelos grupos culturais periféricos.
Além dos debates sobre comunicação popular, o encontro pretende fortalecer redes comunitárias e estimular a formação de novos comunicadores populares no território. A proposta inclui reflexões sobre fake news, circulação de informação nas periferias e estratégias de comunicação comunitária articuladas à cultura ancestral.
Para Jú do Coroadinho, o encontro também representa uma tentativa de construir memória coletiva e registrar experiências produzidas dentro da periferia. “A gente precisa comunicar para salvar o território. Precisa fortalecer nossos mestres, deixar nossos ensinamentos escritos e mostrar que a cultura periférica segue viva”, afirmou.
O encontro “Cultura, Comunicação Popular e Organização Comunitária no Coroadinho” será realizado na Casa das Pretas, no bairro Coroadinho, em São Luís. A participação é gratuita e as inscrições já estão disponíveis.
[Veja a entrevista de Jú do Coroadinho, assistente social, escritora e fazedora de cultura, e Jéssica Vitória, dançarina, assistente social e também diretora do Coletivo Mulheres Negras da Periferia, ao programa Dedo de Prosa.]