Denúncia de ameaças a jornalista coloca atuação de agentes de segurança sob questionamento em Grajaú. (Imagem: Rede Social) A denúncia de ameaças contra o jornalista José Xânxa, em Grajaú, no Maranhão, expõe um cenário preocupante de pressão contra a atuação da imprensa no estado. O caso, que avançou para órgãos de controle e passou a ser acompanhado pelo Conselho Estadual de Direitos Humanos, surgiu após questionamentos sobre a investigação de um homicídio e levanta suspeitas de intimidação por parte de agentes de segurança.
A ocorrência foi encaminhada ao Ministério Público e à Ouvidoria de Polícia, mas ainda não há medidas formais de proteção ao jornalista. O cenário reforça a gravidade das acusações e amplia o debate sobre liberdade de imprensa e atuação policial no interior do estado.
“As denúncias não envolvem apenas o José, mas outros comunicadores que vêm sofrendo pressões ao tentar divulgar informações de interesse público”, afirmou a advogada e ativista de direitos humanos Valdênia Aparecida Paulino Lanfranchi, em entrevista ao programa Dedo de Prosa, da Agência Tambor.
[Veja a entrevista na íntegra ao final desta matéria.]
Segundo ela, o Conselho Estadual de Direitos Humanos recebeu a denúncia e decidiu encaminhar o caso às instâncias responsáveis pelo controle da atividade policial. O objetivo é que o Ministério Público apure os fatos e avalie a necessidade de proteção ao jornalista.
Valdênia afirma que os indícios de envolvimento de agentes de segurança nas intimidações, o que agrava o caso. “Quando há suspeita de pressão vinda de quem deveria garantir a segurança, a situação se torna ainda mais grave”, disse.
Quando informar vira risco
Ela também alertou que o problema não é isolado. De acordo com a advogada, outros comunicadores de Grajaú estariam enfrentando ameaças semelhantes, mas sem tornar os casos públicos. “Há um ambiente de medo que dificulta até o registro das denúncias”, afirmou.
No caso de José Xânxa, as ameaças teriam se intensificado após ele questionar a condução da investigação sobre a morte do servidor municipal Wilasmar Santana. O jornalista sustenta que sua atuação busca esclarecer lacunas e cobrar transparência, sem direcionar acusação a indivíduos específicos.
A advogada também destacou fragilidades estruturais no sistema de segurança pública, especialmente no interior do Maranhão. Segundo ela, a falta de investimento na Polícia Civil compromete a qualidade das investigações e abre espaço para desconfiança da população.
“A gente precisa de instituições fortes e independentes. Quando há precariedade, aumenta o risco de interferências e distorções”, afirmou.
Outro ponto levantado foi a ausência de proteção institucional ao jornalista. Atualmente, segundo Valdênia, a segurança de Xânxa depende de uma rede informal de apoio formada por entidades e aliados.
“Estamos aguardando que o Ministério Público ouça o jornalista e avalie medidas concretas de proteção. Até agora, isso não ocorreu”, disse.
Além das ameaças diretas, a advogada apontou estratégias de deslegitimação como parte da pressão. Segundo ela, ataques à credibilidade e exposição pública fazem parte de um processo que pode evoluir para violência física.
O caso também reacende o debate sobre a segurança de profissionais da comunicação no Brasil. Segundo dados citados pela advogada, ao menos 66 episódios de violência contra jornalistas foram registrados em um único ano — um número considerado alto para um país que se define como democrático e que pode ser ainda maior diante da subnotificação, sobretudo fora dos grandes centros.
Para Valdênia, garantir a segurança de comunicadores é essencial para o funcionamento da democracia. “Quando um jornalista é silenciado, a sociedade inteira perde acesso à informação”, afirmou.
A Agência Tambor segue acompanhando o caso e deve trazer novos desdobramentos nos próximos dias, incluindo novas entrevistas com especialistas e autoridades.
O outro lado
Desde a semana passada, a Agência Tambor tenta contato com o Governo do Maranhão para saber se a Secretaria de Segurança tem informações sobre as ameaças denunciadas por José Xânxa e que medidas foram adotadas para sua proteção.
A reportagem também questionou o governo sobre os pontos levantados pelo jornalista em relação à investigação do assassinato de Wilasmar Santana.
Até o momento, não houve resposta. O espaço segue aberto para manifestação.
[Veja a entrevista da advogada e ativista de direitos humanos Valdênia Aparecida Paulino Lanfranchi ao programa Dedo de Prosa.]