A criação da Resex tem como objetivo reservar ecossistemas considerados estratégicos, como os manguezais e áreas de vegetação nativa, além do modo de vida de comunidades tradicionais.(Foto: Igor Cariman) Após mais de 20 anos de espera, a criação da Reserva Extrativista (Resex) Tauá-Mirim entra em um momento decisivo em São Luís. A consulta pública marcada para esta sexta-feira (17), no IFMA, ocorre em meio ao aumento da mobilização de comunidades e organizações que pressionam pelo decreto da área, considerada essencial para conter o avanço da degradação ambiental e garantir a permanência de 12 comunidades tradicionais, ou seja 1690 famílias.
Mais do que uma pauta ambiental, a proposta é apresentada pelos moradores como uma questão de sobrevivência. Em uma região pressionada por empreendimentos industriais e marcada por contaminação ambiental, a criação da reserva é vista como caminho para garantir saúde, território e continuidade dos modos de vida.
“É um chamado de socorro. A gente quer permanecer no território com saúde, preservando o que ainda existe”, afirmou a liderança comunitária Fran Gonçalves, em entrevista ao programa Dedo de Prosa, da Agência Tambor .
[Veja na íntegra a entrevista ao final desta matéria.]
A Resex Tauá-Mirim começou a ser pensada ainda nos anos 1990 e se consolidou como estratégia de proteção diante de ameaças constantes, como grilagem, avanço industrial e tentativas de expulsão das comunidades. Segundo Fran, são os próprios moradores que historicamente garantem a preservação da área. “Somos nós que conservamos a biodiversidade e sustentamos esse território”, disse.
Além da dimensão territorial, os relatos apontam impactos diretos na saúde da população. “As pessoas estão adoecendo mais cedo. Doenças respiratórias e até câncer têm aparecido com mais frequência”, relatou Fran, ao descrever a piora das condições ambientais nas comunidades.
Para a pesquisadora Kátia Barros, integrante do Conselho Gestor da Resex, a criação da reserva não interessa apenas aos moradores da área, mas a toda a cidade. “Manter esse modo de vida é garantir qualidade do ar, da água e da alimentação para toda a ilha de São Luís”, afirmou, também ao Dedo de Prosa .
Ela rebate a narrativa de que a proposta seria um entrave ao desenvolvimento. “Não é uma luta contra empresas. É uma luta pela manutenção da vida. Essas comunidades não invadiram território algum — elas já estavam ali”, destacou.
Segundo Kátia, o modelo de reserva extrativista já está consolidado em outras regiões do país e do Maranhão, com dezenas de territórios reconhecidos. “É uma estratégia concreta de garantir direitos e preservar a sociobiodiversidade”, afirmou.
A consulta pública desta sexta-feira é considerada a etapa mais importante antes da possível criação oficial da reserva. O encontro será conduzido pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), responsável pelas unidades de conservação federais, e deve reunir moradores, pesquisadores, movimentos sociais e população em geral.
“É o momento de reafirmar que queremos a Resex. Quem puder, precisa estar presente”, reforçou Kátia. Já Fran destacou o caráter coletivo da mobilização: “Não é só por nós. É por São Luís, pelo Maranhão e pelo Brasil”.
A expectativa das lideranças é que, após a consulta, o processo avance para a fase final de análise e possa resultar na decretação da reserva ainda neste ano.
[Veja na integra a entrevista da liderança comunitária Fran Gonçalves e da pesquisadora Kátia Barros, integrante do Conselho Gestor da Resex ao programa Dedo de Prosa.]