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Março de luta expõe cenário persistente de violência contra mulheres no Maranhão

Mobilização no 8 de março, em São Luís, pelo fim violência contra as mulheres. (Imagem: Agência Tambor)

O mês de março, marcado pela luta histórica das mulheres por direitos e igualdade, reacende o alerta para a persistência da violência de gênero no Brasil. No Maranhão, os casos se acumulam — de feminicídios a denúncias de assédio envolvendo figuras públicas — evidenciando que, apesar de avanços legais, o problema segue enraizado na cultura e nas desigualdades sociais.

Especialistas apontam que o enfrentamento da violência contra a mulher exige mais do que legislação: passa por educação, políticas públicas eficazes e transformação cultural. O tema foi debatido por pesquisadoras em entrevista recente, que analisaram o cenário local e nacional.

“Esse enfrentamento está diretamente vinculado à história das lutas das mulheres por reconhecimento e cidadania”, afirma a advogada e professora Josanne Façanha. A entrevista foi concedida ao programa Dedo de Prosa, da Agência Tambor. Segundo ela, embora direitos tenham sido conquistados ao longo do século XX — como o voto feminino e a igualdade formal garantida pela Constituição de 1988 —, a violência sempre esteve presente, muitas vezes invisibilizada no ambiente doméstico.

A socióloga Mary Ferreira, que também participou do bate-papo, reforça que o problema é estrutural e cultural. “A violência contra a mulher está impregnada na sociedade patriarcal e foi naturalizada ao longo do tempo. Muitas vezes, comportamentos agressivos são tratados como normais”, afirma. Para ela, o cenário recente também reflete um avanço de discursos conservadores, que acabam reforçando desigualdades e atingindo especialmente mulheres, negros e populações vulneráveis.

[Veja na íntegra a entrevista ao final desta matéria.]

Apesar de o Brasil contar com instrumentos como a Lei Maria da Penha e a tipificação do feminicídio, as especialistas avaliam que a efetividade ainda é limitada. “Temos um arcabouço jurídico avançado, mas a persistência da violência mostra que o problema é mais profundo, atravessado por desigualdades históricas e sociais”, explica Façanha.

Entre os principais fatores, estão a dependência econômica das vítimas e a ausência de políticas públicas abrangentes. “É fundamental investir em educação de gênero, qualificação profissional e ampliação da rede de proteção, especialmente no interior, onde o acesso ainda é limitado”, destaca a advogada.

Mary Ferreira acrescenta que a realidade socioeconômica do Maranhão também agrava o cenário. “O desemprego e a falta de perspectivas, sobretudo entre os homens, geram frustração que muitas vezes é canalizada em forma de violência dentro de casa”, afirma. Para ela, políticas de emprego e renda são parte essencial da solução.

Outro ponto de preocupação é o crescimento de movimentos antifeministas, especialmente nas redes sociais. Segundo Façanha, esses grupos “reforçam estigmas, deslegitimam vítimas e dificultam o avanço de políticas públicas”, além de contribuírem para a subnotificação dos casos.

As denúncias recentes de assédio em instituições públicas também mostram que a violência não se restringe ao ambiente doméstico. “O assédio está em todos os espaços, inclusive nas universidades e órgãos públicos. É fundamental que as mulheres denunciem e que haja solidariedade entre elas”, afirma Ferreira.

Para as entrevistadas, o combate à violência exige uma mudança profunda na sociedade. “Não basta legislar. É preciso investir em educação permanente, cultura e responsabilização social”, resume Façanha.

Como mensagem final, as especialistas reforçam a importância da denúncia e do apoio coletivo. “A responsabilidade nunca é da vítima. Buscar ajuda é um ato de coragem”, afirma Façanha. Já Ferreira destaca: “A solidariedade entre as mulheres é essencial para romper o ciclo da violência e fortalecer essa luta”.

[Veja na íntegra a entrevista da socióloga Mary Ferreira e da advogada e professora Josanne Façanha ao programa Dedo de Prosa.]

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